segunda-feira, 30 de junho de 2008

Cabras e ovelhas

Faz tempo que essa doença me persegue: a mania de criar cabras e, se possível, ovelhas.
Tudo começou quando fomos morar em Seropédica, perto da Universidade Rural. Alguém nos deu a informação sobre o crescimento da criação de cabras - um negócio para pequenos sítios.
Propus então a Paulo Roque, editor de Agricultura de Hoje (depois Manchete Rural) matéria sobre o tema.
Fui conhecer a Caprileite, a primeira associação de apoio aos criadores. Soube do queijo, fiz curso e aprendi um pouco. Soube dos problemas de importação, já que não havia rebanho de cabras de leite no Brasil.
Pouco tempo depois, fui para a Embrapa, que estava montando um Centro de Caprinos em Sobral. Divulgar as pesquisas do CNPC foi das minhas primeiras atividades. Depois conheci o programa da Paraíba. Através da Emepa, pesquisadores como Aldomário Rodrigues e Vandrick Hauss haviam importado cabras da Alemanha. O objetivo era mostrar a possibilidade de adaptar esses animais ao sertão. Conheci a Estação Experimental de Pendência e o trabalho com caprinos das raças Parda Alemã e Anglonubiana.
Acompanhei o desenvolvimento da raça Santa Inês. Luiz Freire, chefe do CNPC, que me convenceu a ir morar em Sobral, sempre dizia que era preciso um trabalho de melhoramento, para dar mais carne ao traseiro do Santa Inês.
A outra raça, Morada Nova, sempre teve melhor padrão racial, prolificidade, fecundidade e rusticidade. Raiz do Santa Inês, tinha porte menor, mas apresentava melhores índices, principalmente em pastagens agrestes.
Tempo passa -uns 20 anos - e o Santa Inês vira mania nacional.
As tendências de mercado indicam para ampliação do consumo de carnes, tanto de caprinos, quanto de ovinos. No Estado do Rio, é grande a quantidade de rebanhos, tanto na serra de Petrópolis, quanto nos campos de Silva Jardim, ou mesmo em Campos.
Dois fatores imediatos aparecem como limitantes: o preço final para o consumidor e a falta de infra-estrutura para abate.
Quanto aos caprinos, sempre mais direcionado para leite, surge a raça Boer, voltada para produção de carne. Novamente pioneiros, os técnicos da Paraíba conseguem mais duas raças - Savana e Kallahari - também voltadas para a produção de carne. E os investimentos são crescentes nessa tendência de criar caprinos para carne.
A não ser no Rio Grande do Sul, o brasileiro afastou-se muito do consumo de carne de pequenos animais, privilegiando a carne bovina. A tendência de subida do preço da arroba do boi pode ser, atualmente, mas um fator para incentivar o consumo de carnes alternativas, principalmente se os intermediários entre produção e consumo entenderem que se pagam mal ao produtor, limitam a decisão de criar.
Se colocam o preço excessivo no mercado, limitam violentamente o consumo. O quilo do pato vivo anda em torno de R$ 3,00. Vi carne de pato vendida, no supermercado, a R$25,00. A carne de coelho anda no mesmo nível.
Ou seja, enquanto criador, não crio, porque o mercado é complicado.
Enquanto consumidor, não compro porque o preço torna o almoço proibitivo.
Falta uma centelha de inteligência nessa área intermediária do agribusiness para ampliar a oferta de carnes alternativas.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Arco e flecha

Um país, uma ilha começa a sumir.
Os ventos enfurecem o mar.
Acidente na baía de Guanabara, destruição no Rio Grande,
pequenos tornados em Santa Catarina.
A terra treme em Sobral, no Ceará.
E a fome - um enorme fantasma mundial - cresce principalmente nos países pobres.
A população do mundo aumenta.
Não há mais áreas disponíveis para plantio, a não ser no Brasil, alguma coisa na Oceania e na África.
Buscamos petróleo: o Brasil promete.
Enquanto isso, as populações crescem, envoltas em celulares, cds, shows, bailes funk, etc. Carnaval perde status para a loucura renovada das festas, tanto da classe média, quanto nos bairros pobres. Uso de substâncias tóxicas é o que mais acontece.
Eu não posso andar armado, mas o bandido pode. Eles podem andar de moto se capacete, podem andar de carro sem placa.
O cidadão comum paga imposto, é obrigado a ter CPF, identidade, etc e não tem que o proteja. Chame a polícia em caso de perigo. Que polícia?
Que político?
Bandidagem geral. Pessoas em pânico.
Só me res comprar um arco e flecha.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

CTI - Tratamento u tortura?

Dia 29 passado, José Álvaro faria 89 anos. Não conseguimos trazê-lo até aqui.
Seu último ano de vida, encerrada em final de agosto passado, foi um suceder de internações e brigas nas UTIs e CTIs.
Ele tinha muita energia - vontade de viver, apesar da doença, das dificuldades auditivas, da necessidade de uma acompanhante e de tantas dores que sentiu.
Nunca desistiu. Os médicos disseram que ele não conseguiria mais andar.
Optou por deixar o apartamento da filha no Rio, voltou a morar em Praia Seca, alimentava-se bem, com gosto, sem dispensar, volta e meia, um vinho ou uma cerveja.
Quase todo dia, subia até a beira da praia, para apreciar o mar.
A dra. Ana Beatriz o transformou num amigo. Sempre que necessário, o internava, mas o liberava o mais rápido possível.
A última vez, não conseguimos levá-lo para o Rio Confiamos no HC Lagos, hospital de Araruama.
A última vez que falou comigo, disse que o estavam matando.
Que fazer?
Protestamos, pedimos informações. Um médico disse que ele não estava sendo dopado. O chefe dele disse que a sedação era necessária.
Perguntaram o que ele comia. Surpresos, disseram que ele precisava de uma nutricionista e que sua dieta, no Hospital, seria outra.
Realmente foi: sopinhas ralas, que o deixavam com fome - sensação que, até hoje, me incomoda.
Com fome, fraco - isso porque queriam curá-lo, porque ele não podia broco-aspirar - foi preciso que usassem uma sonda, para alimentá-lo.
Não sei se a imperícia foi só de quem tentou enfiar a sonda nariz a dentro de meu pai, ou se a irresponsabilidade começou na escolha do material.
Certo é que o instrumento arrebentou uma artéria no nariz de José Álvaro. Na hora da visita, agarrado por enfermeiros, começou a vomitar sangue.
A "cura" deu resultado oposto: ele bronco-aspirou, passou a vegetar e, dias depois, faleceu.
A dificuldade, apesar da determinação do Ministério Público, é fazer com que a polícia apure a ocorrência.
Este acidente de trabalho, uma fatalidade, como dizem os médicos, no ambiente jurídico se chama crime culposo. E merece punição.