terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Presépio
Todo ano refeito
Dois milênios
de fé, fraternidade,
simplicidade.
Tempo de estrela
no caminho dos reis
que trazem presentes
e deixam a mensagem
de que a pele diferente
não nos torna menos irmãos.
Tem fome, guerra, sofrimento
mas tem a estrela que
pode indicar um caminho melhor.
Natal, um novo ano, a fé renovada pelos espíritas nas praias.
Mas tem nevasca em São Paulo
Homens que não se encontram
multidão de carros.
Permanece a mensagem de que há muito mais vida no amor,
na alegria que no consumo desenfreado do marketeiros.
Vale lembrar que até o consumo, na medida em que emprega mais gente,
também tem seu lado positivo.
O campo também agradece o consumo da cidade
e a gente, entre um engarrafamento e uma igreja,
festeja com os amigos o nascimento do menino.
Por que mesmo ele veio?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fim de ano

A primeira década do milênio termina. Sou do século passado, gente antiga, emoções à flor da pele, apesar da idade que não destrói o menino roceiro, nascido no Rio, com passagem por Volta Redonda e criado e Jacarepaguá.
A vida coleciona mudanças e saudades.
As fotos mostram meninos que já são homens, praia deserta que está cheia de construções irregulares, pessoas infinitamente queridas que já não fazem parte do nosso dia-a-dia. Por maior que seja a racionalidade, a morte nos desconcerta e planta a ausência, que a gente transforma em saudade, em lembrança.
Lá vem Natal, vem a foto da mesa grande - a mesa continua na varanda da casa de Praia Seca - só não sabemos quando teremos novamente um almoço com irmãos, sobrinhos, amigos, parentes.
Há uma dúvida, uma incerteza plantada no peito.
Natal, depois vem Ano Novo e primeiro de janeiro seria aniversário de Emanuel, o irmão que morreu atropelado na madrugada de um domingo de Páscoa.
A vida passa, não esqueço de montar o presépio simples, o galho enfeitado à guisa de árvore de Natal.
Há embrulhos bonitos pela casa, feitos pelas mãos hábeis da Dil, há roteiros de mercados, compras, frutas exóticas.
De primeiro, os meninos cavaleiros apareciam, havia amigos em volta e as visitas aconteciam. Colegas de Felipe sempre apareciam - ele, hoje, se preocupa em não deixar os velhos sozinhos - mas Felipe também cresceu e são poucos os colegas que estão por perto.
Lembranças. A casa de Jacarepaguá, meninos reunidos em volta da mesa, presentes de Papai Noel, alegria, simplicidade.
Noite Feliz é música que tráz de volta o piano da minha mãe. Morávamos na Ilha e levei para ela a partitura, motivo de alegria - logo eu que lhe dei tanta contrariedade. Mas o tempo não volta. Minha mãe foi-se embora e nem viu o último dos meus filhos. Quando ela morreu, eu começava a consertar a vida, vivendo com Dil.
Há muitas coisas que faço onde o dedo dela está: o gosto pela comida bem temperada, o prazer da mesa farta, o peixe feito no forno, o presépio ornamentado, a fé em Deus - Nossa Senhora e São José nos quadros de nosso quarto de criança.
Vem dela a simplicidade, o amor pelo sertão, a admiração pelo Piauí, que ela descrevia como a melhor terra do mundo.
O gosto pela mesa farta também vem do papai e fica difícil separar, com exatidão, o que vem de um e de outro. A injustiça, certamente, acontecerá. Mas tenho que relembrar o quanto aprendi com ela de gramática, com apoio no livro de Antenor Nascentes - uma filho pendurado no quadril, o livro na mão e a lição tomada no quintal em Jacarepaguá.
Na Ilha, quantas vezes saímos na madrugada para pescar na Praia da Bica - papai e mamãe conosco. Sirís, camarões e algum peixe faziam a fartura de que ela tanto gostava.
Tudo ficou no tempo. Minha cabeça branca, meu caminhar atrapalhado mostram que o tempo passou sem pena. Mas é preciso enfrentar e, em cada canto, alguém receberá um presente e teremos o prazer de armar uma mesa bonita- Dil gosta muito desse arranjo - para festejar com sobriedade o Natal.
No fim do ano, é preciso rezar na beira do mar, na Igreja coberta de céu, reverenciando o amor pela natureza que pai e mãe me deixaram.
Quem estará por perto?
Como saber. Porém os amigos, irmãos e parentes estarão unidos numa grande corrente de paz , nnuma aura imaginária de amor e tranquilidade, para que se repita a todos: Feliz Natal e própero Ano Novo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Violência e respeito à vida

Assaltaram a cabine da PM. Levaram uma arma. No Recreio, um tiro destinado a um policial mata um homem que jogava cartas num quiosque. O homem se tranca com o filho num hotel. Mata o menino e se mata. A mulher, em processo de separação, quer arrancar até as calças do ex-marido. O sujeito entra num shopping, mata a ex-namorada.
A lista é grande e, no dia-a-dia, vai criando sobre nossa pele uma carapaça, um isolamento capaz de lermos essas notícias e continuarmos a viver.
Ao mesmo tempo, um homem acha e devolve o salário do outro. Na hora da chuva, da corrente de lama, água, detritos - as pessoas arriscam a própria vida para salvar a seu semelhante. um banheiro de aeroporto, um homem acha uma carteira recheada de dólares e devolve.
Uma diferença: o crime é sempre notícia. O simples gesto de desapego, de gentileza - um simples ceder a vez no trânsito - não tem cartório nem delegacia para serem registrados.
Meu pai nadava bem. Mais de uma vez eu o vi entrar no mar para tirar pessoas.
No dia em que um dos meus filhos se atrapalhou com o mar em Camboinhas, o dono do jet-sky se negou a ajudá-lo. Como não conseguia enxergar direito o intervalo das ondas, decidiu nadar no sentido de Itaipu, onde as ondas são menores. Não precisou tanto esforço: um surfista, de melhor acuidade visual, o acalmou e deu a dica certa para que ele pudesse sair da água, sem perigo.
O carro enguiçou próximo ao Makro. Apareceu um rapaz que abriu o distribuidor, o secou e, rapidamente, voltei a viajar.
Há pessoas que me falam de carinho, do valor da amizade, que me mandam mensagens que colocam em destaque a sensibilidade do ser humano.
De outro lado, as novelas mostram, via de regra, uma gente ruim e sem caráter, capaz de tudo pelo consumo ou por dinheiro.
O que mais me assusta é a violência nos colégios, a violência contra os mestres.
Onde se perdeu a educação? Por que caminhos a sociedade foi valorizando o banal, o supérfluo, a discriminação para chegarmos a este ponto?
Dois pratos da balança: Os gestos anônimos de amor e, no outro extremo, a violência desconcertante de todos os dias.
Prefiro acreditar que, apesar de tanta loucura, ainda resta muito gesto bonito para nos fazer gostar da vida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

a burocracia que detesta árvores

Praia Seca é um paraíso. Faz mais de 20 anos que temos terrenos na Pernambuca, lá no final do ponto do ônibus. No início, a praia era linda: havia um quiosque ou outro, onde pessoas nativas dali vendiam peixe frito, empadinha, cerveja. Era o caso da barraca do Índio, coberta de palha.
Com o passar do tempo, a Pernambuca foi ocupada. Construíram verdadeiras residências na beira da praia, onde a poluição é tudo: som alto, cartazes de propaganda, paredes impedindo a visão da praia. Todo mundo tem luz elétrica sem que os organismos de meio-ambiente se preocupem.
O IPTU? Continua o mesmo, referente a áreas urbanas.
Além disso, para que se coloque um poste a mais na rede da Ampla, é preciso fazer um requerimento à Feema, juntando coisas óbvias como mapas da Internet, fotografias, cópias de identidades e CPFs, e a certidão de zoneamento onde organismo da Prefeitura declara o que está escrito na lei: A ZOC (zona de ocupação controlada) a que pertence o lote. Se ninguém se escusa de cumprir a lei alegando que não a conhece, como os órgãos que criam as leis querem certidão para saber o que diz a lei?
Tem pior: A regulamentação da lei da APA da Massambaba, feita no início deste ano, limitou a 15% a utilização dos lotes. Ora, a Pernambuca é área urbana de Araruama. Há inclusive habitacões multifamiliares e um enorme conjunto da beira da praia, que mais parece uma instalação do BNH. E o patrimônio das pessoas foi reduzido em 75%, por uma só penada de um burocrata, sem qualquer fundamentação, já que a taxa de ocupação da APA é de 35%.
Não importa manter vegetação nativa - nada importa. O fundamental são os papéis, planos de obra ( para quê, se quem dá o habite-se é a Prefeitura?) numa atitude de quem realmente não gosta das árvores.
Em contrapartida, a invasão da reserva cresce a olhos vistos. É pobreza com casarões de dois andares, comércio, repartições administrativas e, evidentemente, luz elétrica para todo mundo.
Na Figueira, as invasões ilegais criam verdadeiros becos no acesso às praias. Nada legalizado.
As autoridades do meio-ambiente fazem de conta que não sabem de nada - nem sabem olhar os mapas via satélite, eu penso - e a urbanização desorganizada trucida as áreas de preservação sem pena.
Enquanto isso, o cidadão classe média, que paga IPTU, que comprou e pagou seu imóvel vê-se enrolado numa trama burocrática sem fim.
Há uma lei que manda o registro de imóveis acrescentar nos Registros o fato do terreno pertencer a uma APA. É o óbvio. Isso resulta na necessidade de juntada de uns 15 diferentes documentos. É a burocracia apaixonada por papel e que, por conseguinte, que detesta as árvores.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A força de lembrar
A gente fica velho, tem mais tempo para pensar e as lembranças se tornam fatos vivos, como se estivessem acontecendo.
Faz mais ou menos um mês que a lembrança de minha mãe vem se tornando mais forte. Fatos pontuais - a música fogão de lenha, o aniversário da mãe de uma amiga - tornam essa lembrança boa um tanto mais aguda.
Fico pensando nesta piauiense, que veio cedo para o Rio, foi educada em colégio de freiras lá em Teresina, às margens do Parnaíba, sabia montar a cavalo, tinha uma fé inquebrantável em Deus, estudou no Pedro II, fez o complementar de Medicina e parou. Casou-se com meu pai, teve nove filhos, todos com diploma universitário nas mãos e terminou num enfarte agudo, que a matou sem sofrimento.
O sofrimento, para todos em casa, veio do ciúme doentio que ela tinha pelo marido, ciúme que tinha lá suas justificativas...
A lembrança vem, voltam os tempos de menino, volta o cheiro bom da comida, volta o sorriso, o piano bem tocado, o cuidado com o batalhão de filhos, numa casa onde o último café servido vinha quase junto com o almoço do primeiro que regressava do colégio.
As pescarias de camarão, na Ilha do Governador, quando saíamos para a Praia da Bica com ela e papai, às vezes a pé, é outro fato alegre na lembrança, como o seu gosto pela fartura que a rede - um candombe - gerava em casa. Siri e camarão nunca faltavam. Não passava aniversário de filho sem comemoração e as noite de Natal eram de fartura e alegria, com presentes para todos, apesar das dificuldades.
Com minha mãe, aprendi a pechinchar na feira, aprendi a escolher as frutas, aprendi o pouco de cozinha que, até hoje, ainda sei.
Como era bom ouvir as histórias da infância dela, vivida numa região em que o transporte se fazia a cavalo, quando as fazendas ainda tinham raposas, cobras e nascentes para quebrar o calor do sertão. Boa parte do gosto pelas plantas também me foi legado por ela.
Houve momentos amargos em que divergimos, principalmente quanto as minhas mulheres, houve momentos tristes, mas que a gente ri hoje, como o dia em que dei um tombo na minha irmã, que eu carregava na bicicleta, voltando do colégio. Lógico, o tempo fechou para o meu lado.
Minha mãe tinha problemas de peso; com tantos filhos, não cuidou do corpo e terminou com sérios problemas cardíacos. Faleceu antes do nascimento do meu último filho - faz mais de 30 anos.
Papai, atleta, boa pinta, um charme para as mulheres, nos deixou há menos de dois anos.
O velho foi brigando para não morrer e acabou vítima de uma barbeiragem médica.
De novo as lembranças: toda vez que boto o pé em Praia Seca e olho a janela fechada, sei que ele não tomará um café conosco, mas seu sorriso, sua forma tranquila de nos dar força ainda está presente.
Acabo no desespero entre vender a casa e conservá-la, como quem transforma em matéria a própria lembrança; acho que essa será a decisão, até porque, criado entre a zona rural e beira da praia, fica difícil pensar apenas numa vida urbana.
Depois, quando o tempo quer apagar nossa memória, nada melhor que lugares preservados para tornar concretas as nossas memórias.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Mar

Sete horas. Deitado na areia, ali na Praia Seca, olho o mar e o céu. Areia branca, espuma, água azul chumbo, dois irmãos pescam no bote lá fora e, a seguir, o céu se tinge de um azul esverdeado e vai mudando de tons, até encontrar nuvens grossas de tempestade.
Banco de areia, vento de nordeste, mar de poucas ondas. Os irmãos voltam com peixes. Caminho de casa, raios riscam o céu e clareiam o ambiente entre o mar e a serra do Mar. Chove pouco. A tempestade desaba em outros pontos.
Não tem preço. Um céu tingido de fim de tarde, um mar de água mansa, reflexos de banco de areia onde pessoas - figuras escuras - andam em busca do nada.
Numa ponta da praia, Arraial do Cabo. Na outra ponta, a igrejinha de Saquarema. Massambaba, o grande costão que forma boa parte do litoral norte do Estado do Rio.
Ainda tem mata, tem vegetação de restinga, tem área preservada, apesar dos peixes que morrem intoxicados, apesar das casas que significam mais esgotos na Lagoa de Araruama.
Comunhão. Oração. Deus. Mar e tempestade, areia, vento: parece um templo, onde a gente reza uma oração com os olhos e uma satisfação enorme invade o peito.
E que Deus se apiede dos homens que cada vez mais jogam lixo no mar, destroem as praias, transformam as restingas em loteamentos e deixam produtos químicos vazar para destruir o ambiente da lagoa de Araruama, verdadeiro patrimônio do turismo da região dos Lagos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tolerância

Será que o mundo, em fase de mudanças, consegue ser mais tolerante?
Tenho dúvidas sérias. Voltaire (Tratado sobre a Tolerância), levantando as possibilidade de punição em casos de fanatismo, conta a história de uma comunidade da Dinamarca onde, para salvar almas, os praticantes assassinavam as criancinhas recém-batizadas, para que fossem para o céu, livres dos pecados da vida (os que morressem sem batismo, iriam direto para o inferno). Lembra o autor que pais e mães são suficientemente materialistas para preferir os filhos juntos deles, em vez de vê-los estrangulados rumo ao paraíso. "O magistrado deve punir o homicídio, ainda que feito com boa intenção".
Quanto aos judeus, ele lembra que Deus ordenou-lhes às vezes matar os idólatras, e não poupar senão as jovens núbeis, eles nos consideram idólatras e, embora hoje os toleremos, poderiam, de fato, se dominassem, deixar no mundo apenas as nossas filhas. Ele reconhece que maometanos usurparam terras dos judeus mas pensa que os judeus deveriam ser condenados se tentassem exterminar os turcos.
O mundo anda cheio de fanatismos. Os seguidores de Maomé querem acabar com o mundo ocidental; até aí a gente entende, mas por que eles matam os próprios muçulmanos de seitas diferentes?
Católicos e calvinistas já se engalfinharam feio. Até mesmo os seguidores da Igreja Católica têm lá suas diferenças. Ele defende punição para jesuítas que iam contra as leis do reino e levanta a hipótese: " se os franciscanos, tomados de um santo zelo pela Virgem Maria, forem demolir a Igreja dos Dominicanos, que pensam que Maria nasceu no pecado original, seremos obrigados a tratar os franciscanos mais ou menos como os jesuítas". ( E eu não sabia dessa divisão interna da Igreja!!!).
Quer dizer: faz tempo que se tenta mostrar ao homem que não é com radicalismos que se consegue a paz. Eu fico me perguntando quando os donos do poder vão realmente querer a paz, se a guerra lhes traz poder e glória.
Os crimes de guerra (guerra, ou massacre?) estão na mídia; fica patente também que há uma grande guerra pela manipulação das informações. Tem mais: um país, com a tecnologia que tem, não erra alvos. A destruição dos prédios da ONU, do alojamento das emissoras de tv, das mesquitas não foi por acaso: faz parte de uma guerra suja contra as vozes que se insurgem contra o massacre.
No final a pergunta: Por que estão guerreando?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Boas Festas

Dia de Reis foi ontem. Encerram-se as festas de final de ano. Ufa! escapei. Problema?
A gula, o excesso de comida que ameaça a vida de um gordo, com o coração hipertrofiado, a coluna comprometida e alguns probleminhas mais.
Por que comemos?
Por que essa história de festa com excesso de bebida??
E o ano surge com guerra, massacre, tristeza. Imagens chocam o mundo.
Crise. Escândalos. O Lulinha compra uma fazenda milionária.
As estradas ficam lotadas, os acidentes acontecem, a morte vira notícia. É a festa.
Armo o presépio, a árvore, a família sagrada.
Recebo presentes, abraço os amigos, fujo para a praia e a lagoa enquanto a chuva não vem. Remo o caiaque, nado um pouco.
A festa termina e sobrevivo. Conto os goles - foram poucos.
Emendo no churrasco, mas não exagero.
E mergulho no sonho de pesar dez quilos a menos!!!