A força de lembrar
A gente fica velho, tem mais tempo para pensar e as lembranças se tornam fatos vivos, como se estivessem acontecendo.
Faz mais ou menos um mês que a lembrança de minha mãe vem se tornando mais forte. Fatos pontuais - a música fogão de lenha, o aniversário da mãe de uma amiga - tornam essa lembrança boa um tanto mais aguda.
Fico pensando nesta piauiense, que veio cedo para o Rio, foi educada em colégio de freiras lá em Teresina, às margens do Parnaíba, sabia montar a cavalo, tinha uma fé inquebrantável em Deus, estudou no Pedro II, fez o complementar de Medicina e parou. Casou-se com meu pai, teve nove filhos, todos com diploma universitário nas mãos e terminou num enfarte agudo, que a matou sem sofrimento.
O sofrimento, para todos em casa, veio do ciúme doentio que ela tinha pelo marido, ciúme que tinha lá suas justificativas...
A lembrança vem, voltam os tempos de menino, volta o cheiro bom da comida, volta o sorriso, o piano bem tocado, o cuidado com o batalhão de filhos, numa casa onde o último café servido vinha quase junto com o almoço do primeiro que regressava do colégio.
As pescarias de camarão, na Ilha do Governador, quando saíamos para a Praia da Bica com ela e papai, às vezes a pé, é outro fato alegre na lembrança, como o seu gosto pela fartura que a rede - um candombe - gerava em casa. Siri e camarão nunca faltavam. Não passava aniversário de filho sem comemoração e as noite de Natal eram de fartura e alegria, com presentes para todos, apesar das dificuldades.
Com minha mãe, aprendi a pechinchar na feira, aprendi a escolher as frutas, aprendi o pouco de cozinha que, até hoje, ainda sei.
Como era bom ouvir as histórias da infância dela, vivida numa região em que o transporte se fazia a cavalo, quando as fazendas ainda tinham raposas, cobras e nascentes para quebrar o calor do sertão. Boa parte do gosto pelas plantas também me foi legado por ela.
Houve momentos amargos em que divergimos, principalmente quanto as minhas mulheres, houve momentos tristes, mas que a gente ri hoje, como o dia em que dei um tombo na minha irmã, que eu carregava na bicicleta, voltando do colégio. Lógico, o tempo fechou para o meu lado.
Minha mãe tinha problemas de peso; com tantos filhos, não cuidou do corpo e terminou com sérios problemas cardíacos. Faleceu antes do nascimento do meu último filho - faz mais de 30 anos.
Papai, atleta, boa pinta, um charme para as mulheres, nos deixou há menos de dois anos.
O velho foi brigando para não morrer e acabou vítima de uma barbeiragem médica.
De novo as lembranças: toda vez que boto o pé em Praia Seca e olho a janela fechada, sei que ele não tomará um café conosco, mas seu sorriso, sua forma tranquila de nos dar força ainda está presente.
Acabo no desespero entre vender a casa e conservá-la, como quem transforma em matéria a própria lembrança; acho que essa será a decisão, até porque, criado entre a zona rural e beira da praia, fica difícil pensar apenas numa vida urbana.
Depois, quando o tempo quer apagar nossa memória, nada melhor que lugares preservados para tornar concretas as nossas memórias.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
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