segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
papagaio cabrito
O estudante, se não estou enganado, também estudara no Pedro II, falando sobre as coisas simples e necessárias, disse o que buscava:
- Estou precisando de um papagaio cabrito.
- Como é?? - alguém reagiu.
A plateia não era formada exatamente por santos. Todos sabiam da gíria, do falar malandro deste Rio de Janeiro. Mas ninguém entendeu.
- É, um papagaio cabrito para o meu carro.
Espanto geral. Ninguém ainda entendera.
- Não sabe o que é papagaio? É rádio.
- Por que cabrito? Ah, roubado!!!
Nesses tempos bicudos, em que o Código Penal é questionado, o episódio revela a moral dúbia da classe média, o enunciado a lei de Gerson, que visa a levar vantagem em tudo. Não importa se o objeto é roubado. O importante é pagar um preço levianamente baixo, não importa a origem, não importa o prejuízo de terceiros. O benefício próprio está sempre em primeiro lugar.
Por que não começar uma reforma moral por estas pequenas coisas? Roubar, ainda que seja fruta do quintal do vizinho, é ato desonesto. Não há honestidade parcial. É preciso consertar a base - eu entendo assim - para que, a longo prazo, haja mais caráter, mais gente capaz de devolver o que achou e não lhe pertence.
Quanto às reformas da lei, acho que o primeiro passo seria agravar a pena para a receptação. Se o "papagaio cabrito" doesse no couro de quem o consegue, o mercado ilegal tenderia a se reduzir.
Em vez disso, atos como roubar e furtar se transformam em profissão e o primeiro motivo é o seguinte: há sempre quem compre. Há um mercado de coisas roubadas, seja de objetos, seja de carros, seja de fios de cobre. E os compradores estão de portas abertas - até eu que pouco ando, sei onde estão - e os episódios de combate são esporádicos.
- Se eu não comprar, outro compra. Eu compro e vendo logo. E quando a polícia chega, há sempre um acerto - me conta um dono de ferro-velho.
Fica uma ideia para começarmos a mudar um pouco a sociedade em que vivemos: vamos combater o "papagaio cabrito" para mudar esse conceito entre os jovens; vamos reformar a lei de Gerson e, por fim, o Código Penal, agravando a pena de quem agita esse mercado chamado "robauto".
Não custa sonhar: uma polícia honesta - é muito forte, nem tanto: um polícia menos corrupta seria fundamental nesse processo. Do jeito que as coisas estão, "elefante cabrito" é coisa de iniciante.
domingo, 7 de novembro de 2010
Crônica de domingo
Morre um cavalo, ninguém gosta. Mas a morte anda sempre presente, encerrando tudo quanto é tipo de vida.
Preciso dormir, emagrecer, fazer exercícios. A cabeça anda ocupada - tem tarefas no campo, tem tarefas na parte editorial. Decidi que quero editar dois livros, pelo menos. Os textos existem, o resto é transpiração, trabalho.
Para compensar essa dificuldade de locomoção, mergulho no passado e relembro noites no Rio Grande, praias do Nordeste,emoção em visitar a floresta amazônica e um bom número de roteiros que me permitiram conhecer um pouco a gente deste País.
Vou dormir relembrando rostos, curtindo uma saudade doce de um tempo que não volta, enquanto me digo que, apesar das limitações, a felicidade do dia de hoje é estar vivo, sonhando com projetos que vão acontecendo lentamente.
Enquanto a morte não me acha, o remédio é dar trabalho a vida: dá para ser feliz, apesar de toda a loucura do mundo de hoje.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Rota
Deus presente, religião ausente e caminho por trilhas que fazem pensar na vida e na morte, nos grandes espaços, nas sensações escondidas dentro do peito.
Reencontro pessoas, reencontro retalhos da vida vivida, retalhos dos quais me lembro com carinho.
Mas a trajetória é solitária. Barco sem rota pré-definida, a vida caminha a cada dia, a nos peguntar o que realmente queremos.
Tem eleição - a gente escolhe só. Tem o acordar - a gente acorda só. Tem a opção da esquina e os destinos se traçam, embolam, convergem ou andam em paralelo, criando a sensação de abstração do tempo e da distância.
E ainda tem a tecnologia com listas de amigos, possibilidades. Mas ainda na infovia, a gente caminha só e sente cada carinho, cada evento morte de forma individual.
Caminho só, embora junto com tanta gente nessa rota sem fim. Como será a dimensão a nosso lado?
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Paraíso dos ratos
Não é por acaso que governos totalitários adotam o controle da informação, procurando fazer com que só chegue ao povo dados que favoreçam os governantes.
Fui repórter durante muitos anos, inclusive nos tempos do governo militar, a partir de 1964. Vi a repressão a censura e a luta dos companheiros para mostrar aos leitores como os militares se mantinham no poder.
Nessa época, os jornais tomavam posição à esquerda e à direita e havia defesa de tradições políticas, muitas vezes de forma acirrada. A censura atuava, os profissionais de imprensa usavam inteligência e imaginação para driblar os censores, numa época em o organismo repressivo atuava pesado, com prisões, censura e mortes.
Informação muda um país. Se deformada, pode atingir a vida das pessoas acusadas injustamente. Se há imprensa irresponsável, já existem leis suficientes para punir que não trabalha com seriedade. Prove-se a mentira, a má fé e puna-se o responsável.
Da mesma forma, a informação séria, os fotos bem apurados levam ao cidadão elementos para que ele forme sua opinião política. Imprensa e Ministério Público são hoje os organismos com poder para conter os abusos dos que ocupam o poder - nem sempre com sucesso.
A corrupção só é apurada quando denunciada pela imprensa. Se houvesse censura ou "controle" como sugerem alguns, nada poderia ser divulgado. Nesse caso, anões, mensalões, contratos milionários ficariam escondidos nas gavetas, à espera do bom humor de algum burocrata "protetor" dos poderosos encastoados no governo.
Não há como pensar em democracia sem imprensa, sem apuração, sem o elementar debate sobre o ideário político.
Os representantes do PT construíram uma imagem de seriedade, de honestidade, denunciando as falcatruas dos adversários antes de se apossarem do comando do País.
No poder, a farra é grande. São negociatas de todo o tipo. O dinheiro público escapa para os bolsos ( e cuecas) dos que se propunham a mudar o País. Quanta à ideologia, fazem acordos com adversários que antes apresentavam como "picaretas".
Como preferem a versão aos fatos -e as denúncias se baseiam em fatos - querem controlar os meios de comunicação para que possam continuar sugando as tetas do tesouro público: as "ferrari" vermelhas que o digam.
Se apesar da imprensa, do Ministério Público (também ameaçado de mordaça) da Polícia Federal, os corruptos são se intimidam, o que seria o País com informação controlada?
O paraíso dos ratos?
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Ideologia e voto
Não há direita, nem esquerda.
Nem há diferença entre partido corrupto e não corrupto. O PT chegou ao poder vendendo a alma, não ao diabo, mas ao deus do oportunismo, da subserviência e da corrupção. Os mesmos nomes que combateram erros do governo passado se aliam a Barbalhos, Collors, Malufs, Crivellas e outros do mesmo tipo.
Não sei quem disse que a imprensa tem que ser isenta. Será? Ou seria melhor se a imprensa tivesse personalidade e isenção para defender pontos de vista que julgasse mais justos?
Quando as denúncias surgem, é necessário perguntar a quem estão servindo e se não são apenas ficção. Depois, vem a dúvida: por que só agora???
Em quem votar? Nunca pensei em dizer que não voto no PT. E não voto mesmo. Nem no PSTU: o partido que combate a burguesia - eta chavão antigo - me deixa de fora porque não fujo dessa classificação. Não sou mais um estudante com ares de revolucionário.
O PPS, onde anda?? E qual será a diferença entre as duas ministras de Lula?
Meus candidatos a senador - Temer e Marcelo Cerqueira - mal aparecem nas pesquisas.
Como a parabólica não transmite o programa político local, não sei direito quais os candidatos para nossos representantes em nível estadual.
Seria fácil votar num partido - isso quando os partidos representavam posições político-ideológicas claras. As alianças juntam Gabeira com Cesar Maia, Lula com Collor. Não há mais divisão ideológica. As diferenças são administrativas.
A partir daí, por que não voltar no tucano?? Proposta administrativa por proposta administrativa, uma não fica muito longe da outra. E a política do atual governo pouco se distanciou das posições dos social-democratas, mas cresceu bastante no que diz respeito à corrupção.
Entre os pequenos partidos, causa preocupação a posição de Plinio de Arruda Sampaio que quer limitar as propriedades brasileiras em mil hectares. Ora, mil hectares no Estado de São Paulo é uma propriedade enorme. A mesma área, no Mato Grosso, não tem o mesmo significado. E tem mais: o mar de cana, em São Paulo, compreende várias propriedades alugadas, cedidas, arrendadas ou simplesmente trabalhando em contrato de parceria. Limitar a área é tiro de efeito, nada mais.
Por fim, preocupa muito a guerra da informação, onde a versão passa a ter força de verdade. Preocupa também a ideologia adotada pelo PT, que se propõe a controlar, ainda mais, a imprensa. Essas ações tanto ocorrem em países capitalistas, onde muitas vezes, a informação é manipulada e em países comunistas, onde se torna ridículo o controle sobre os meios de comunicação.
Fica no ar a pergunta: Em quem votar???
domingo, 18 de julho de 2010
Destino
Lento, apoiado na bengala, o velho se levanta. O menino supõe piruetas, dança na música, simula correrias.
Sacudindo o corpo, o velho lembra do tempo em que ainda andava de bicicleta, montava, corria.
Olhando pelos mesmos olhos, o menino quer andar ligeiro, sacudir os braços, mas o velho se desloca como quem arrasta uma bola de presidiário.
No portão, os pequenos galhos de hera tomam conta do poste. O menino pensa:
- vou subir no muro, cortar a era. É simples.
Mas o velho, colocado no mesmo corpo, pensa que é preciso pedir ajudar - buscar alguém para cuidar da bela parasita que pula do muro para o poste.
Na direção do carro, velho e menino se encontram, mas o velho prevalece na prudência necessária para dirigir. Se ainda fosse a bicicleta...
O velho percebe que o menino está ainda ali, morando nos seus olhos, cravando uma pergunta:
- Quando este corpo perdeu a agilidade, ficou velho?
O velho não sabe. Tem certeza de que não sabe tantas coisas quanto pensava saber.
A chuva cai, o frio invade o dia e o velho busca um agasalho - o menino pergunta para que isso, por que não sai sem camisa??
Na curva do dia, menino e velho se encontram no mesmo corpo cansado, entorpecido pelos remédios para o coração, espetado pelos osteofitos marginais, doído pelo esforço de andar torto, apoiado na bengala. E o menino envelhece, enquanto o pensamento voa para o futuro, numa dúvida aguda do que será o dia de amanhã.
Mais dúvidas levam o menino embora - ele desaparece como se fosse levado pela correnteza do rio, rio onde embarcações endurecidas como desamor, rejeição, desinteresse vão navegando - tripulação flibusteira, a tentar atacar a fortaleza da mente, onde o menino, por milagre, ainda encontra refúgio.
Nem tudo está perdido: vale passear sertões em Sagarana, navegar Veredas, enredar-se pelas histórias do "Endurance".
Pela Internet, chegam poemas, mensagens de afeto. E a vida, entre real, virtual e imaginativa, vai se refazendo no dia-a-dia, independente da solidão que se quebra com o amor da companheira, o olhar dos bichos, com a beleza das flores que nascem no jardim.
As limitações da velhice são reais. Irreal é o mundo que parece jogar o velho para uma gaveta, ou para uma cama de hospital onde os médicos chamam de vida um olhar perdido na distância infinita.
Menino e velho concordam numa coisa: ainda não chegou o tempo da dependência e a liberdade de ir e vir - limitada, é certo - ainda é o grande argumento para que a vida continue fluindo pelo corpo. Enquanto dia e noite se revezarem, não há porque deixar o barco, a menos que o peito quebre e uma outra viagem se inicie, ninguém sabe com que destino.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Tempos de medo
- Me ajuda!!!
Ela desliga, já sabe que é confusão. Paro o carro. Outra ligação - dois a três minutos depois. É o filho, querendo saber como estávamos, porque recebera ligação de casa.
Ao mesmo tempo em que ligaram para o celular, ligaram para o telefone fixo, informando que eu e minha mulher estávamos acidentados; conversa sem pé nem cabeça. Bem instruída, Rose consegue perceber a falha e acaba xingada pelo telefone.
- Se não me der o dinheiro, vou matá ele!!!
Ela simplesmente desligou o telefone e, logo a seguir, liga para Felipe. Momento seguinte, chegamos em casa. Rose estava em pânico ainda, mas segura do que tinha feito.
Pago pelo concerto do ar condicionado da Quantum. Dias depois, descubro que fui enganado.
A garantia do carro novo garante, mas tem "n" restrições. Defeito no farol. Defeito na direção hidráulica. e, pior: o som que me venderam custa a metade nas lojas de som. A sensação é de ter sido roubado pela fina flor da elite comercial.
No mercado, a linguiça está misturada com outra de marca mais barata.
O quilo tem 900 gramas. O preço da prateleira não é o preço cobrado. O frango, se congelado, vem lotado de gelo.
Compre uma peça de puro algodão: é quase certo que tenha fios sintéticos.
O carro da fiscalização fica parado ali na Estrada Caetano Monteiro, garantindo que nenhuma linha de vã passará por ali. O direito da empresa de ônibus está garantido, certo, mas o passageiro é considerado mercadoria privativa: ninguém controla o horário dos ônibus; o ponto final fica cheio de veículos e a ideia é de os veículos andem lotados - não importa de o passageiro fica mofando no ponto. Não há alternativa, a fiscalização impede a circulação de veículos alternativos mas ninguém fiscaliza a frequência dos ônibus.
Se não há corpo, teoricamente, não há crime. E a bandidagem se especializa em sumir com as provas. Bom, quando a mídia está acompanhando, a polícia ainda tenta agir. Porém se o crime não é notícia, a burocracia investigativa se arrasta até que as provas desapareçam. Quando a Justiça é criticada pela morosidade, os senhores importantes dizem que estão tomando providencias.
E a impunidade infla o ânimo dos que adotam a delinquência.
Como era mesmo o sonho de um País melhor, de uma sociedade mais justa?
Tempos de medo. Como diz o poeta, para o bonde que eu quero descer!
Só que o bonde não para e esse tempo de medo continua a nos sufocar cotidianamente.
Só resta esperar que o dia amanheça e que o nome da gente não seja a bola da vez.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Um poema
Poemas acontecem. São instantes registrados sob uma ótica de emoção. E ficam perdidos entre arquivos, seja em papel, seja em computador.
Nesta manhã de sol, quando a natureza parece nos dar uma trégua, vai o registro deste texto, que estava esquecido num arquivo eletrônico.
Amor infinto
Rasgar na noite
o tempo com um grito
Garras para romper o pano da tristeza
Chorar, rir, gritar
cantar desafinado
para assustar a lua cheia
fazer sorrir as estrelas
e sentir no peito
vontade de beber,
de te levantar , como um bárbaro
e bárbaro seguir teu corpo
por todos os caminhos
num amor sem limites.
Caminhar na noite
liberto de dor, de saudades eternas
liberto do próprio passo
deslizando por todos os bares
iluminado pela voz
de tanta gente perdida.
Na madrugada, deitado a teu lado,
olhar o céu
que perde estrelas
e se desmancha em azul
marcado por um sol vermelho.
Abrir o peito
para mais um grito
onde a dor da liberdade
espante todo o ódio do mundo.
Depois
fechar os olhos
e sonhar como quem navega
morto – vivo
por todas as constelações do universo
orientado pela vontade
de infinitamente te amar.
06/06/2009
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Pessoas sob montanhas de lama. Casas destruídas.
Cidades alagadas.
Problemas expostos aos olhos de todos viram notícia depois da desgraça.
E o governador resolve reduzir a carga horária dos professores: menos aula de história, geografia... Menos gente querendo educar. O que isso tem a ver? Menos gente educada, mais lixo, menor poder aquisitivo e o inventar a vida como possível: uma casa pendurada num barranco.
Árvores caídas. Estradas interditadas. Crônicas anunciadas há muito tempo.
A gente tem medo da água que escorre sob o alicerce de nossa casa. Impossível não olhar, com desconfiança, o morro existente na rua de cima.
Chuva!!!! Mais chuva!!!!
Estamos internados em nossa própria casa. Há horas em que falta luz, o telefone some, o celular não dá sinal, mas estamos bem, embora angustiados com toda a tragédia.
Poder público vergonhoso, natureza enfurecida: o resultado é tragédia que ainda não mostrou todo seu potencial.
A contagem dos mortos será o capítulo final.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Chuva
as escolas pararam, ônibus enguiçaram, morros desabaram e a chuva não para.
No fundo do quintal o riacho vira um tigre, rosna, briga, derruba árvores, carrega casas. Mas não é só ele. São todos os cursos d'água que invadem ruas, arrastando carros, invadindo casas, causando mortes.
É noite, a chuva continua. Os donos do poder se justificam - culpada é a população. Nesse altura, o culpado é São Pedro, que mandou chover. Ou o mar, que fornece a umidade.
E acabo apertando o pescoço desse poder público descarado, eleitoreiro, ruim de administração, desencontrado, incapaz de fornecer serviços que atendam à população.
Há uma fenômeno diferente, chuva como não acontecia faz 60 anos, mas há também um processo descontrolado de urbanização, há falta de poder aquisitivo para morar, há descaso com encostas, valas, bueiros e outros equipamentos.
No final, também falta educação. E educação é qualquer coisa além de aulas descuidadas para concessão de um diploma. Deixo um abraço para Paulo Freire e a esperança de que a mão pesada da chuva não precise apontar os defeitos do meio urbano, multiplicando vítimas e prejuízos.
Houve o inesperado? Concordo. Mas as consequências não seriam tão graves se houvesse prevenção. Quem sabe, um dia?
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Hospital Público
Quem vai fazer uma visita, descobre falta de estrutura, desorganização, falta de material hospitalar, falta de pessoal para atender aos doentes.
Quem precisar fazer alguma necessidade à noite, está perdido.
A única saída são as cadeiras para acompanhantes, onde é possível passar a noite ao lado do doente, diminuindo um pouco o sofrimento de quem não tem condições de sair da cama.
Por que é sempre assim? Escolas desmontadas, presídios super-lotados, Hospitais onde a higiene, o cuidado com os doentes passam longe. Até o famoso patinho é de uso comum.
Quem não tem plano de saúde - ou quem se acidenta na rua - tem que enfrentar condições semelhantes a de presídios lotados: não há conforto nem pessoal para cuidar dos doentes.
Pelo menos, os médicos fazem sua parte. E a infecção hospitalar certamente fará o resto.
Acho que somos um povo vacinado contra maus-tratos.
E ainda há políticos dizendo que a saúde está uma beleza... Uma solução seria dar aos políticos a beleza dos hospitais públicos, das escolas - vamos deixar os presídios de lado - e transferir para uso do povo as boas condições das casas legislativas.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Julgamento
Defenestrada, linha do tempo são termos que vão surgindo na montagem do quebra-cabeças; promotor e advogado debatem na telinha. Nessa altura, a sorte já foi lançada e falta esperar a decisão final.
A Violência, marca da sociedade humana, parece ganhar contornos inexplicáveis neste caso. Violência é o fato de todo dia. É o cara que joga o carro sobre o outro; é o sujeito que usa a busina para infernizar o trânsito; é o viaduto de uma perna só, que obriga a encontros de faixas de rolamento pelas pistas de alta velocidade; é a modificação da Alameda São Boaventura, onde árvores foram destruídas, muito dinheiro foi enterrado e o trânsito passou a ser sinônimo de engarrafamento até altas horas da noite.
Violência é a sujeira que invade a baía de Guanabara: no noticiário de hoje, a imagem dos botos - parece que agora são apenas 40, quando existiam cardumes e cardumes no século passado, nadando na baía. Bom, pelo menos um pequeno grupo ainda resiste, enfrentando a contaminação por elementos tóxicos, muito piores que os inocentes coliformes fecais.
Mas a gente enfrenta o trânsito, atravessa a baía, se arrisca atrás de um estacionamento e termina com o prêmio da peça "Sopros de Vida", no CCBB. Eu, que sempre fujo para roça, que não gosto de cidade, acabo enredado no texto e feliz por ser um dos últimos clientes da livraria da Travessa. Resultado: a Antologia Poética de Vinicius de Moraes voltou à estante, numa doce edição da Companhia de Bolso.
No fim, mesmo sem o chopp no final da noite, apesar da dificuldade com as pernas, sempre vale a pena ver alguma poesia do cotidiano, para fugir desse massacrante noticiário sobre a violência, que toma conta dos nossos dias.
Um copo de vinho? Sim, para encerrar a noite e lembrar como a roça é importante: Como seria o lanche de fim de noite sem os vinhedos, sem os currais de onde sai o leite para que se façam os queijos?
A violência é fato, mas fato também é o homem simples que chega em casa com um rosa e acha um beijo na boca da mulher amada.
Ou será que, tomada de ciúmes, uma nova cena violenta encherá o noticiário do dia seguinte?
segunda-feira, 22 de março de 2010
Mar e burocracia
Havia um mar calmo na manhã de hoje, manhã de segunda-feira. E lá estava o barco de alumínio que, de forma ilegal, espalha redes entre Saquarema e Arraial do Cabo. Pescadores se queixam: as nossas redes, eles tomam. Mas ninguém faz nada contra esses caras. E essa pesca acaba com os peixes. Pescadores de terra, nos pontos onde vivem, usam uma rede. Esse barco espalha várias delas, com um motor rápido e rápida capacidade de deslocamento.
Detalhe: a água estava limpa, de um verde encantado, em contraste com a grande faixa de areia. Dia especial para banho. Quando o mar se agita, é melhor dispor da água da Lagoa de Araruama, nem sempre limpa, semana passada com savelhas mortas, porém de pouco risco para o banhista. A lagoa vem se revitalizando – as perumbebas reapareceram – o que faz crescer também a atividade de pesca. Há pescadores que saem da Figueira, em barcos razoáveis, capazes de enfrentar as águas agitadas da época dos ventos fortes. Mas há registro de dois pequenos barcos de alumínio emborcados na noite, com vítimas fatais: gente iludida com a aparente mansidão da lagoa.
Assim é o mar: um dia calmo, mulher de grande doçura. Dia seguinte, cabeleira agitada, mais parece os monstros que apavoravam marinheiros ancestrais, marinheiros que, em frágeis barcos, transportavam gente de um lado para outro do oceano.
Fui criado na beira do mar, águas da barra, praias mansas da baía de Guanabara. Até hoje, na velhice, a água do mar melhora a vida, o humor, a alegria. Não sou o único: faço parte e uma tribo enorme, que vai do povo da canequinha aos surfistas e marinheiros, todos ligados pela força da água salgada.
Só que a urbanização cresce em torno da beira-mar, com todas as conseqüências negativas: plásticos, esgotos industriais e residenciais vão acabar no mar. Os levantamentos feitos mostram lixos absurdos em águas profundas, lixos das mais diferentes procedências.
E como fica o Estado nessa história de fiscalização? Depende. Leis existem. O curral de peixe da lagoa continua lá, depois de destruído algumas vezes. Houve um tempo que uma embarcação exercia fiscalização na Lagoa. Não a vejo mais. Dos condutores de embarcações as mais diversas, quantos têm o registro de arrais?
Em terra, a situação não é diferente: Os que querem regularizar seus imóveis, encontram todo tipo de dificuldade. Terrenos da Pernambuca, na Praia Seca, só podem ser utilizados em 15% da área. Em compensação, logo na divisa de Araruama com Arraial do Cabo, a invasão prospera na área de reserva: há postes de luz para todo lado, construções de dois andares, numa invasão que se denomina de baixa renda.
Na Figueira, as invasões na beira da praia criaram becos, ruelas estreitas onde existem casarões que não são exatamente coisa de quem não tem dinheiro.
Então, fica assim: se você quer seguir a lei e regularizar seu imóvel, prepare-se para enfrentar burocracia – a Prefeitura de Araruama pede até cópia do IPTU autenticada - agora, se você fica à margem do sistema, construa, use energia sem pagar e ninguém o molestará.
Ações diferentes são o acaso: um pescador que pede a rede de malha fina, um morador flagrado cortando uma árvore e Ampla que não quer colocar mais um poste numa rua cheia deles: só com autorização da Feema. Então, lá vai o morador enfrentar um processo com plantas, gravações de Internet etc. Bom, se o cidadão preferir o gato, terá o problema sanado de um dia para outro. Do contrário, haja burocracia.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Lembranças
Era um apartamento com sala de jantar, sala de visitas, um corredor circundando as salas para dar acesso ao banheiro e à cozinha. Cinco dígitos ( Será?) compunham o telefone, preso à parede, ali no corredor.
Havia o piano na sala e um grande rádio - a criançada ficava imaginando como seriam os homenzinhos que moravam dentro do apaarelho - que foi terminar a vida lá em casa, depois de substituído por uma eletrola bem mais moderna.
Tia Yara - eu me lembro dela e de tia Ivette jogando volei na praia - levava os sobrinhos, três e até cinco, para a areia da praia, um quarteirão distante dali.
De noite, da janela do apartamento, a gente via as pessoas saírem do Ryan, depois de verem o filme.
Vovô tinha um Ford 37, conversível, consultório do Edifício Rex, no Centro da cidade. Era um homem enérgico, um vitorioso nessa guerra da vida.
Como me lembro de meu avô na hora da dificuldade!!! De inicio, os pais dele tinham recursos. Com as mudanças econômicas, perderam sítio, perderam tudo. o bisavô Felicíssimo chegou a trabalhar no cais e o filho, o menino Álvaro, começa a trabalhar aos sete anos, numa época em que não havia legislação trabahista: Começava cedo e só muito tarde deixava o trabalho - issso para ajudar no sustento da casa.
Ainda em Petrópolis, vovô passa a trabalhar - tinha uns 18 anos, acredito - como auxiliar de um dentista, para limpar o consultório. A capacidade de observar e fixar, o levou a aprender a profissão. Estudou, fez provas e se transformou num dentista "prático licenciado" , devidamente registrado para o exercício de sua atividade. No Rio, ganhou a vida, formou os filhos e, ao final, ainda foi ajudar na granja em Jacarepaguá. Ainda morou no Lins. Terminou a vida com uma aposentadoria miserável, morando com a filha em Maricá.
Hoje, crianças não trabalham mais. Ninguém pode ter uma profissão a não ser pelos caminhos formais. Os tempos são outros, a guerra é diferente. Fortunas se fazem sem explicação e muitos têm dificuldade para trabalhar e comer.
Quebrado pela artrose, pelo coração estragado, gosto de me lembrar dele nesses dias assim, em que o desânimo ronda minha cabeça.
Se o velho nunca desistiu - meu pai foi pelo mesmo caminho - por que eu iria desistir?
Eles se foram e fica na minha cabeça uma pergunta espírita: como estarão na outra versão da vida? Se duvidar, continuam trabalhando porque trabalhar é como vício: a gente jamais consegue parar.
Seguindo o mesmo exemplo, lá vou eu trabalhar na lagoa, depois de enfrentar o caos burocrático, para ver se a alegria volta ao coração, que anda precisando de festa.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Velhice e rodas
Velhice e rodas
Preso em casa durante a semana toda. Carro na oficina. Não sei se chama carro ou pernas. Ou se já tenho rodas. Querem que eu durma de máscara, que ponha um controlador de batidas cardíacas – um ressuscitador. Nada disso. Só em caso extremo. Não tenho vocação para robô. Já bastam as rodas.
Abro telas da web, procuro desesperadamente um novo carro. Um carro zero?
Depende. Com motor 1.0, é fácil. Com motor 1.6, só mesmo comprando o chamado “semi-novo”. Tudo porque o carro brasileiro é caro e os preços anunciados não passam de falta de vergonha, em relação aos novos: para montar um carro, é preciso gastar bem mais. Propaganda enganosa. Marketing da mentira.
Preso
Mas o abastecimento começa a correr perigo: é preciso ir ao supermercado porque folhas e frutas estão acabando.
Rádio MEC, um piano de fundo, o ruído de todos os motores: computador, refrigerador, ventilador. A casa está viva. Da cozinha, vem o cheiro de comida. Cedo, o aroma do café ocupava todos os espaços. Agora é o cheiro do inseticida. Não há quem possa com os mosquitos.
O calor, mesmo neste início de manhã, inibe qualquer vontade de movimento. Preciso cuidar das plantas, preciso descer as escadas, mas a inércia me segura em frente à tela, com justificativas como é preciso escrever, que tenho que procurar um carro, que chegou um novo e.mail: nada que não possa esperar mais um tempo.
Penso no blog, quero mantê-lo atualizado, preciso saber da edição do Trem de Contos – vagões pesados que vi passar na vida. Nada. Apenas o gesto quase mecânico de escrever.
Ler é a segunda atividade. Felipe traz um livro do americano Bukowski que me faz pensar no ofício de escritor. Instigante. Por que parar de escrever?
No peito, saudade da Praia Seca, da água da lagoa, que tira parte das dores do corpo.
O ofício de artesão fica um pouco de lado Não desisto e o suor corre pelo corpo, para gastar a comida. O tampo da mesa está quase pronto, falta a furadeira que ficou
A dificuldade de locomoção vai me deixando preso. Pouco consigo andar. Passei a depender do carro para tudo. Dirigindo, vou onde é preciso. Sem o carro, tenho dificuldades até mesmo para chegar ao ponto do ônibus.
É a velhice: coração funciona mal, pernas paralisadas e doídas, coluna torta para um e outro lado e um rim que só agora me dá sossego.
Assim mesmo, não me queixo da vida. Tenho prazer no gole de vinho na hora do almoço, alongo o corpo o quanto posso (preciso ir além), gosto de uma boa comida - ninguém é gordo por acaso e acho graça de quem é gordo e diz que não come – de boa música, seja clássica, seja popular de bom gosto. Há prazer nos pequenos fatos de todo o dia e Dil se posiciona de forma a me deixar mais feliz: ela cuida de tudo, da casa, dos pagamentos, dos papéis. Não esquento cabeça com isso. E ainda conversamos bastante, felizmente. Amor não falta.
Esse conjunto de problemas me faz cliente obrigatório dos médicos. A relação com eles é de amor e ódio. Já briguei em hospital porque me mantiveram em hospital e disseram que não tenho nada. Respeito o cardiologista. Como conseqüência, tomo os remédios que ele manda Também fiquei feliz com o fim da pedras no rim. Como tratamento, registre-se a alegria com a RPG, onde a incansável Raquel me faz acreditar na possibilidade de movimentos.
Na direção oposta, fico impressionado quando um médico diz que a pessoa tem que operar a coluna de imediato e outro a manda levantar da cadeira de rodas. Guardo a mágoa dos médicos que, pela direção do tratamento, levaram meu pai à morte. Se gritei? Sim. E o representante do Ministério Público mandou a polícia apurar. Como falta pessoal, o inquérito ficou por isso mesmo e caiu na pasta burocrática do esquecimento.
Enquanto isso, envelheço. Não estou mais no mercado free do jornalismo. Advogar, não quero – faz mal ao coração. A carreira de produtor rural está perdida antes de começar.
Quanto aos filhos, cada um tem sua vida.
Resta encarar a velhice de frente e superar o medo de urinar nas calças, de deixar a comida cair da boca, de ter um corpo estranho, desengonçado, da rejeição das pessoas porque fica difícil qualquer tarefa que signifique deslocamento a pé.
Sobra o super-mercado: apoiado no carrinho, consigo caminhar entre prateleiras e colaboro nas compras. A bengala também ajuda. O remédio melhor ainda é jogar o corpo na água e conversar com Deus para enxergar a beleza do céu, a força da tempestade, enquanto esse verão, cada vez mais quente, queima a pele de todo mundo.
Não, não dá para reclamar: a muda de samambaia chorona está crescendo no quintal e consegui salvar a orquídea do ataque fulminante dos caracóis.
É a velhice, mas a vida não pode parar e, de verdade, o gostar da vida é profissão de todo o dia, apesar das limitações. Quero ser velho sem medo, sem nunca tentar parecer jovem. Há que ser velho com dignidade.
Afinal, o carro sai da oficina ainda hoje: vou recuperar as minhas pernas. Ou seriam rodas?
quinta-feira, 11 de março de 2010
Coragem
Em São Paulo, um menino é empurrado e, na queda, sofre hemorragia interna. Imagens da escola mostram bem onde estão indo as crianças brasileiras para estudar: prédios velhos, acabados, sem equipamentos. Professores acovardados, crianças agressivas, pais dispostos a bancar a violência dos filhos.
Fatalidade: na quadra, um jogador de futebol de salão perde a vida numa farpa. Outro menino já havia se machucado no mesmo lugar. Descaso. Falta de manutenção.
A seguir, imagens dos hospitais que atendem às vítimas: tudo feio, caído, em situação que fica difícil manter o padrão de higiene desejado. Equipamentos? Médicos?
É constante a crônica do mau atendimento, da falta de recursos. Os hospitais adotaram, como principal funcionário, o agente de segurança, armado e despreparado.
Na tv, o filme é violento. Explosões, morte, gente ferida são apresentados à criançada, que imita essas cenas nas brincadeiras.
O corte para o legislativo mostra salas bem arrumadas, equipamentos e gente enfiando dinheiro por todo canto. Quanto ganha mesmo o ascensorista do Congresso? E um médico da rede pública do Rio de Janeiro? E um professor?
No trânsito, mortes provocadas por motoristas bêbados. O cara já foi preso várias vezes por dirigir alcoolizado, não tem carteira e entra num parque para atingir pai e filho.
A lei é dura para quem tem CPF e identidade, para quem tem algo a perder, para o cidadão que será obrigado a pagar uma multa pesada.
Esse é o medo: a criação de uma sociedade sem os freios sociais, despreocupada com educação, certa de que morrerá cedo ou terá assistência médica precária. Gente que vive sem emprego, não sabe o que é casa e se arrasta para a morte. Quando chega no xadrez, acha uma cadeia superlotada, apesar de tantos marginais na rua.
Tem também a outra face da moeda, o filho de classe média, com dinheiro n bolso, que se julga acima das leis. Preso, será solto. Julgado, não ficará preso. As exceções são poucas.
O cidadão em sua casa, é desenconselhado a ter armas e nem cachorro bravo poderá ter. Não reaja - dizem todos.
Como é a história do arrancar a flor no jardim e, depois, o grito da sua garganta?
Aprendi diferente. Reprimo a vontade de encarar, de reagir. Minha geração enfrentou polícia, exército. Aliás, não entendo muito porque as forças repressivas, usadas contra intelectuais, operários e estudantes - mal-preparados, diga-se de passagem - olham passivamente suas armas passsarem para as mãos de bandidos e não interferem na guerra urbana instalada nas cidades brasileiras.
De bonito, fica o exemplo da senhora baixinha que, com base em alguma noção de luta marcial, enfrentou e expulsou o ladrão que acabou preso.
- Não sigam meu exemplo, não reajam.
Não sei não. Sem educação, sem hospitais, sem polícia, como o cidadão fica sem reagir?
Ladrão não é profissão - eu imagino - e a reação coletiva pode mudar um pouco a idéia de que tudo é fácil. A falta de respeito chega a tal ponto que, dia desses, o ladrão invadiu a casa, comeu, bebeu e... dormiu!!
Está certo que não dá para enfrentar arma de peito aberto, mas a passividade só ajuda a ação dos meliantes. Não dá para virar a cara quando o vizinho está sendo roubado. Um pouco de solidariedade somada a com um pingo de coragem podem dificultar a vida do ladrão.
E, para aqueles ladrões de dinheiro para panetone, a arma do cidadão é uma só: o voto. E que a justiça tenha piedade de nós.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Mudança
O nordeste sopra forte na região dos lagos. Te, que está
Fico pensando no mamute congelado com capim na boca. Se o eixo mudar, ficaremos eternamente congelados. Ou, quem sabe, nos transformaremos em esqueletos de um deserto escaldante, com sobreviventes rezando para ficar perto de um oásis.
Onda de
Há lugares, no nordeste, onde o mar toma conta de boa parte das praias.
Na lagoa de Araruama, uma pequena praia desapareceu e as casuarinas morreram, com as raízes imersas em água.
Os especialistas em agricultura sempre comparam o setor a um grande transatlântico: não dá para fazer curva fechada, mudar o rumo rápido, como se fosse um carro de formula um. Medidas tomadas fora de época levam tempo para fazer efeito. As estações do ano precisam – no caso da produção agropecuária – ser respeitadas, ainda que a tecnologia tenha resolvido muitos nós da produção no campo.
Essa idéia, colocada em relação ao mundo, cria uma pergunta: que causa terão os estragos que já estão feitos, com a liberação de gases que contribuem para o efeito estufa e outras fontes de deterioração mundial?
A mudança das cidades de lugar, a grande placa de gelo que navega nos mares gelados do sul – quais serão, a longo prazo, as conseqüências desses fatos?
Agora, que cada um precisa olhar o que anda fazendo, é certo. As imagens das enchentes mostram como as pessoas continuam jogando lixo nas ruas e como há descaso no recolhimento deste lixo. Há muita verba investida em legislativos e pouco dinheiro gasto com empregos no recolhimento de lixo, limpeza de valões, desobstrução de bueiros, construção de vias para recolhimento de águas servidas.
Aqui onde moro – um grande bairro imprensado entre Niterói e São Gonçalo – as águas servidas descem direto para o rio, sem quaisquer tratamentos. A rede coletora de esgotos é o riacho Mata Paca... Do que sei, toda essa região adota o mesmo procedimento: não há estação de tratamento de esgotos
Coisas simples, como a transformação de lixo em adubo, reciclagem de materiais,
Tratamento de esgotos são itens que merecem pouca atenção, tanto do público, quanto das autoridades constituídas. Enquanto isso, a expansão desenfreada dos núcleos urbanos transforma em depósito de coliformes os mares, os rios, as lagoas, prejudicando a balneabilidade das águas de recreação.
A baía de Guanabara é linda, sem dúvidas, mas como tomar banho em suas praias?
É terrível quando, na Massambaba, litoral sul do Rio de Janeiro, a sujeira toma conta da praia, vinda sei lá de onde.
Outro item: proliferação dos automóveis. Está certo que indústria é emprego, que carro significa a vida de muita gente mas, na contra-mão dessa idéia, é um veneno para o ar que respiramos. A alternativa é o transporte público.
Diz o meu médico que, quando trabalhava numa grande empresa de ônibus, era comum, em tempo de eleição, a chegada de políticos, até mesmo de helicóptero, em busca de recursos para eleição.
As conseqüências são visíveis: as vans, que faziam transporte entre o Baldeador e Niterói, foram exterminadas porque estavam prejudicando as linhas de ônibus. A fiscalização permanece firme, mas ninguém se importa se um passageiro fica no ponto, esperando um ônibus, durante uma hora. As empresas de ônibus podem tudo e não se fala em transportes alternativos.
Qual é a opção do cidadão? Comprar um carro. Se duvidar, fica mais barato que andar de ônibus: o gasto estimado para ir de Pendotiba, Niterói, até o centro do Rio é da ordem de R$20,00, numa distância de
Numa época em que escritórios de advocacia fazem profissionais trabalharem como escravos, sem benefícios trabalhistas e sem horário, talvez a solução seja mesmo mudar o eixo da terra e começar tudo de novo. Também não sei adianta: vão crucificar o Cristo novamente e o cara que ficar com a caverna maior, vai cobrar aluguel dos outros. E tudo voltará inexoravelmente ao mesmo padrão de antes.
Tião Freitas
10/03/2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Se falas de mar...
Se falas de mar:
água sacode a vida
alimenta a alma
em sal-doce
gosto de prazer
olhos de sonho e alegria.
Se falas de mar:
onda cresce
pancada cava areia
some a ternura
tubarão bravio
esconde em conchas
almas de corpos esmagados.
Mar, se falas de mar,
provocas esse canto – sereia,
Netuno –
a embevecer legiões
perdidas no espelho das águas
enredadas em beleza e perigo.
Falas de mar, mar -amor?
Um dia vida, outro perigo
feitiço doce-salgado
revirado
entre ondas de alegria
calmaria e luar
em morte e alegria:
sem esse feitiço
- jeito de mar que é vida, é morte –
Sem esse feitiço,
Impossível viver.
Tião Freitas
9/03/2010
terça-feira, 2 de março de 2010
Chile
Não, nem sabia. TV ligada. Destruição, morte, aeroporto interditado. Comunicações precárias. Ligo para Marigilda. Ela ainda não sabia. Ninguém consegue falar com Pablo.
Aprendiz de seleiro, conserto uma bolsa. Costuro. Yan liga - Isa foi para o hospital e ele virá para o almoço. Converso. Volto ao trabalho, até que Marigilda liga e me tranquiliza: Pablo conseguiu um telefone e entrou em contato com ela: estavam bem, apesar de tudo.
Alguns utensílios foram para o chão na casa deles em Santiago. Surya acordou assustada com o barulho, com medo de ladrão.
Como moram no segundo andar desceram os três: Pablo, Carola - minha nora chilena - e Surya, a neta nascida no dia do meu aniversário.
Foi difícil explicar para o coração que era apenas um susto.
No hospital, Isa faz exames, mantemos contato com Antonio e tudo não passa de um susto, descartada a hipótese de apendicite.
Anda no meio da tarde, a bela coral não escapou da paulada, apesar de sua beleza, de seus lindos anéis que me tornaram ágil novamente.
Crime ambiental? Como deixar uma cobra no quintal de casa?
De certa forma, fiquei com pena mas, se não matasse a cobra, como ficariam as pessoas no caminho?
Terremotos fazem parte da história. Talvez pior seja perceber as mudanças climáticas, tragédias na França, inundação na cidade de Campo Grande, violência na Ilha da Madeira e por aí vai.
Pior ainda é o enorme iceberg que se desprendeu no pólo sul e navega, sabe-se lá para onde.
Mato a cobra, conservo as árvores onde pássaros se aninham. Corto uma vara no mato, mas coloco sementes na terra. E vivo, enquanto dá, enquanto o mar não nos expulsa de Praia Seca.
O terremoto do Chile doeu no meu peito.
Fico pensando nos pequenos e múltiplos terremotos sociais - assaltos, balas perdidas, gente ruim - que acontecem a cada dia: quantos corações sangram por causa disso.
Duas doenças: um meio-ambiente agredido e uma sociedade violenta, onde bandos saqueiam o que pode em meio ao caos de cidades destruídas.
Se a população do mundo dobrar, que tipo de bicho chamaremos de gente?
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Veleiro
O "Concordia" tem tradição de muitas viagens, passagens por mares gelados e bem mais agitados que os da costa brasileira. Uma visita ao site mostra um sistema organizado a bordo, com salas de aulas e jovens içando velas. Computador é ferramenta corriqueira a bordo.
A gente pensa em caravelas, em ricos veleiros singrando mares sem tanta tecnologia:
Quantos teriam sucumbido aos caprichos do tempo?
Segundo o comandante do barco naufragado, uma rajada de vento de cima para baixo fez com que o navio tombasse.
Felizmente, as 64 pessoas foram salvas - isso a 550 km da costa brasileira.
Velas, cascos navegando por todo mar: esse mistério mora na alma da gente, do praiano que se perde em sonhos vendo as embarcações passarem ao largo, com verdadeiras naves misteriosas.
Mas que vento foi esse que não respeita nem tecnologia nem modernidade?
Terá a condução de um cavaleiro mágico, que concentrou chuva em Angra e, mais recentemente, arrasou a Ilha da Madeira?
São Paulo sofre com tanta chuva e os criadores do norte do Estado do Rio se desesperam com a falta de chuva: as imagens são doloridas.
Parece que o tempo enlonqueceu. Quem pagou a conta foi o veleiro, tombado no meio do mar.
Quantos barcos, quantas encostas mais vão desabar nessa crônica de desastres que podem ser de difícil explicação, mas que jamais podem ser classificados de inesperados: as mudanças no planeta estão mostrando as garras.

