sexta-feira, 26 de março de 2010

Julgamento

Na tv, o Juri popular vira notícia especial. Todo dia tem julgamento, mas é difícil ver um pai pronto para ser condenado pela morte da filha, morte que ele não assume, mas que as provas - difícil falar sobre processo sem lê-lo por completo - parece que são contundentes.
Defenestrada, linha do tempo são termos que vão surgindo na montagem do quebra-cabeças; promotor e advogado debatem na telinha. Nessa altura, a sorte já foi lançada e falta esperar a decisão final.
A Violência, marca da sociedade humana, parece ganhar contornos inexplicáveis neste caso. Violência é o fato de todo dia. É o cara que joga o carro sobre o outro; é o sujeito que usa a busina para infernizar o trânsito; é o viaduto de uma perna só, que obriga a encontros de faixas de rolamento pelas pistas de alta velocidade; é a modificação da Alameda São Boaventura, onde árvores foram destruídas, muito dinheiro foi enterrado e o trânsito passou a ser sinônimo de engarrafamento até altas horas da noite.
Violência é a sujeira que invade a baía de Guanabara: no noticiário de hoje, a imagem dos botos - parece que agora são apenas 40, quando existiam cardumes e cardumes no século passado, nadando na baía. Bom, pelo menos um pequeno grupo ainda resiste, enfrentando a contaminação por elementos tóxicos, muito piores que os inocentes coliformes fecais.
Mas a gente enfrenta o trânsito, atravessa a baía, se arrisca atrás de um estacionamento e termina com o prêmio da peça "Sopros de Vida", no CCBB. Eu, que sempre fujo para roça, que não gosto de cidade, acabo enredado no texto e feliz por ser um dos últimos clientes da livraria da Travessa. Resultado: a Antologia Poética de Vinicius de Moraes voltou à estante, numa doce edição da Companhia de Bolso.
No fim, mesmo sem o chopp no final da noite, apesar da dificuldade com as pernas, sempre vale a pena ver alguma poesia do cotidiano, para fugir desse massacrante noticiário sobre a violência, que toma conta dos nossos dias.
Um copo de vinho? Sim, para encerrar a noite e lembrar como a roça é importante: Como seria o lanche de fim de noite sem os vinhedos, sem os currais de onde sai o leite para que se façam os queijos?
A violência é fato, mas fato também é o homem simples que chega em casa com um rosa e acha um beijo na boca da mulher amada.
Ou será que, tomada de ciúmes, uma nova cena violenta encherá o noticiário do dia seguinte?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mar e burocracia

Havia um mar calmo na manhã de hoje, manhã de segunda-feira. E lá estava o barco de alumínio que, de forma ilegal, espalha redes entre Saquarema e Arraial do Cabo. Pescadores se queixam: as nossas redes, eles tomam. Mas ninguém faz nada contra esses caras. E essa pesca acaba com os peixes. Pescadores de terra, nos pontos onde vivem, usam uma rede. Esse barco espalha várias delas, com um motor rápido e rápida capacidade de deslocamento.

Detalhe: a água estava limpa, de um verde encantado, em contraste com a grande faixa de areia. Dia especial para banho. Quando o mar se agita, é melhor dispor da água da Lagoa de Araruama, nem sempre limpa, semana passada com savelhas mortas, porém de pouco risco para o banhista. A lagoa vem se revitalizando – as perumbebas reapareceram – o que faz crescer também a atividade de pesca. Há pescadores que saem da Figueira, em barcos razoáveis, capazes de enfrentar as águas agitadas da época dos ventos fortes. Mas há registro de dois pequenos barcos de alumínio emborcados na noite, com vítimas fatais: gente iludida com a aparente mansidão da lagoa.

Assim é o mar: um dia calmo, mulher de grande doçura. Dia seguinte, cabeleira agitada, mais parece os monstros que apavoravam marinheiros ancestrais, marinheiros que, em frágeis barcos, transportavam gente de um lado para outro do oceano.

Fui criado na beira do mar, águas da barra, praias mansas da baía de Guanabara. Até hoje, na velhice, a água do mar melhora a vida, o humor, a alegria. Não sou o único: faço parte e uma tribo enorme, que vai do povo da canequinha aos surfistas e marinheiros, todos ligados pela força da água salgada.

Só que a urbanização cresce em torno da beira-mar, com todas as conseqüências negativas: plásticos, esgotos industriais e residenciais vão acabar no mar. Os levantamentos feitos mostram lixos absurdos em águas profundas, lixos das mais diferentes procedências.

E como fica o Estado nessa história de fiscalização? Depende. Leis existem. O curral de peixe da lagoa continua lá, depois de destruído algumas vezes. Houve um tempo que uma embarcação exercia fiscalização na Lagoa. Não a vejo mais. Dos condutores de embarcações as mais diversas, quantos têm o registro de arrais?

Em terra, a situação não é diferente: Os que querem regularizar seus imóveis, encontram todo tipo de dificuldade. Terrenos da Pernambuca, na Praia Seca, só podem ser utilizados em 15% da área. Em compensação, logo na divisa de Araruama com Arraial do Cabo, a invasão prospera na área de reserva: há postes de luz para todo lado, construções de dois andares, numa invasão que se denomina de baixa renda.

Na Figueira, as invasões na beira da praia criaram becos, ruelas estreitas onde existem casarões que não são exatamente coisa de quem não tem dinheiro.

Então, fica assim: se você quer seguir a lei e regularizar seu imóvel, prepare-se para enfrentar burocracia – a Prefeitura de Araruama pede até cópia do IPTU autenticada - agora, se você fica à margem do sistema, construa, use energia sem pagar e ninguém o molestará.

Ações diferentes são o acaso: um pescador que pede a rede de malha fina, um morador flagrado cortando uma árvore e Ampla que não quer colocar mais um poste numa rua cheia deles: só com autorização da Feema. Então, lá vai o morador enfrentar um processo com plantas, gravações de Internet etc. Bom, se o cidadão preferir o gato, terá o problema sanado de um dia para outro. Do contrário, haja burocracia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Lembranças

Compro queijo no mercado e o cheiro de queijo klab me faz lembrar a casa da minha avó - um enorme apartamento ali na Domingos Ferreira, em Copacabana. Como são boas as lembranças de imagens, cheiros, sabores que nos remetem ao passado, como a casa dos avós ali perto do mar.
Era um apartamento com sala de jantar, sala de visitas, um corredor circundando as salas para dar acesso ao banheiro e à cozinha. Cinco dígitos ( Será?) compunham o telefone, preso à parede, ali no corredor.
Havia o piano na sala e um grande rádio - a criançada ficava imaginando como seriam os homenzinhos que moravam dentro do apaarelho - que foi terminar a vida lá em casa, depois de substituído por uma eletrola bem mais moderna.
Tia Yara - eu me lembro dela e de tia Ivette jogando volei na praia - levava os sobrinhos, três e até cinco, para a areia da praia, um quarteirão distante dali.
De noite, da janela do apartamento, a gente via as pessoas saírem do Ryan, depois de verem o filme.
Vovô tinha um Ford 37, conversível, consultório do Edifício Rex, no Centro da cidade. Era um homem enérgico, um vitorioso nessa guerra da vida.
Como me lembro de meu avô na hora da dificuldade!!! De inicio, os pais dele tinham recursos. Com as mudanças econômicas, perderam sítio, perderam tudo. o bisavô Felicíssimo chegou a trabalhar no cais e o filho, o menino Álvaro, começa a trabalhar aos sete anos, numa época em que não havia legislação trabahista: Começava cedo e só muito tarde deixava o trabalho - issso para ajudar no sustento da casa.
Ainda em Petrópolis, vovô passa a trabalhar - tinha uns 18 anos, acredito - como auxiliar de um dentista, para limpar o consultório. A capacidade de observar e fixar, o levou a aprender a profissão. Estudou, fez provas e se transformou num dentista "prático licenciado" , devidamente registrado para o exercício de sua atividade. No Rio, ganhou a vida, formou os filhos e, ao final, ainda foi ajudar na granja em Jacarepaguá. Ainda morou no Lins. Terminou a vida com uma aposentadoria miserável, morando com a filha em Maricá.
Hoje, crianças não trabalham mais. Ninguém pode ter uma profissão a não ser pelos caminhos formais. Os tempos são outros, a guerra é diferente. Fortunas se fazem sem explicação e muitos têm dificuldade para trabalhar e comer.
Quebrado pela artrose, pelo coração estragado, gosto de me lembrar dele nesses dias assim, em que o desânimo ronda minha cabeça.
Se o velho nunca desistiu - meu pai foi pelo mesmo caminho - por que eu iria desistir?
Eles se foram e fica na minha cabeça uma pergunta espírita: como estarão na outra versão da vida? Se duvidar, continuam trabalhando porque trabalhar é como vício: a gente jamais consegue parar.
Seguindo o mesmo exemplo, lá vou eu trabalhar na lagoa, depois de enfrentar o caos burocrático, para ver se a alegria volta ao coração, que anda precisando de festa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Velhice e rodas

Velhice e rodas

Preso em casa durante a semana toda. Carro na oficina. Não sei se chama carro ou pernas. Ou se já tenho rodas. Querem que eu durma de máscara, que ponha um controlador de batidas cardíacas – um ressuscitador. Nada disso. Só em caso extremo. Não tenho vocação para robô. Já bastam as rodas.

Abro telas da web, procuro desesperadamente um novo carro. Um carro zero?

Depende. Com motor 1.0, é fácil. Com motor 1.6, só mesmo comprando o chamado “semi-novo”. Tudo porque o carro brasileiro é caro e os preços anunciados não passam de falta de vergonha, em relação aos novos: para montar um carro, é preciso gastar bem mais. Propaganda enganosa. Marketing da mentira.

Preso em casa. Comida controlada, peso diminuindo – ainda bem.

Mas o abastecimento começa a correr perigo: é preciso ir ao supermercado porque folhas e frutas estão acabando.

Rádio MEC, um piano de fundo, o ruído de todos os motores: computador, refrigerador, ventilador. A casa está viva. Da cozinha, vem o cheiro de comida. Cedo, o aroma do café ocupava todos os espaços. Agora é o cheiro do inseticida. Não há quem possa com os mosquitos.

O calor, mesmo neste início de manhã, inibe qualquer vontade de movimento. Preciso cuidar das plantas, preciso descer as escadas, mas a inércia me segura em frente à tela, com justificativas como é preciso escrever, que tenho que procurar um carro, que chegou um novo e.mail: nada que não possa esperar mais um tempo.

Penso no blog, quero mantê-lo atualizado, preciso saber da edição do Trem de Contos – vagões pesados que vi passar na vida. Nada. Apenas o gesto quase mecânico de escrever.

Ler é a segunda atividade. Felipe traz um livro do americano Bukowski que me faz pensar no ofício de escritor. Instigante. Por que parar de escrever?

No peito, saudade da Praia Seca, da água da lagoa, que tira parte das dores do corpo.

O ofício de artesão fica um pouco de lado Não desisto e o suor corre pelo corpo, para gastar a comida. O tampo da mesa está quase pronto, falta a furadeira que ficou em Praia Seca , dificuldade causada por essa mania de espalhar a vida por três diferentes pontos: casa, praia, sítio. Tudo rústico, tudo muito simples e a distância a complicar o meu dia –a-dia.

A dificuldade de locomoção vai me deixando preso. Pouco consigo andar. Passei a depender do carro para tudo. Dirigindo, vou onde é preciso. Sem o carro, tenho dificuldades até mesmo para chegar ao ponto do ônibus.

É a velhice: coração funciona mal, pernas paralisadas e doídas, coluna torta para um e outro lado e um rim que só agora me dá sossego.

Assim mesmo, não me queixo da vida. Tenho prazer no gole de vinho na hora do almoço, alongo o corpo o quanto posso (preciso ir além), gosto de uma boa comida - ninguém é gordo por acaso e acho graça de quem é gordo e diz que não come – de boa música, seja clássica, seja popular de bom gosto. Há prazer nos pequenos fatos de todo o dia e Dil se posiciona de forma a me deixar mais feliz: ela cuida de tudo, da casa, dos pagamentos, dos papéis. Não esquento cabeça com isso. E ainda conversamos bastante, felizmente. Amor não falta.

Esse conjunto de problemas me faz cliente obrigatório dos médicos. A relação com eles é de amor e ódio. Já briguei em hospital porque me mantiveram em hospital e disseram que não tenho nada. Respeito o cardiologista. Como conseqüência, tomo os remédios que ele manda Também fiquei feliz com o fim da pedras no rim. Como tratamento, registre-se a alegria com a RPG, onde a incansável Raquel me faz acreditar na possibilidade de movimentos.

Na direção oposta, fico impressionado quando um médico diz que a pessoa tem que operar a coluna de imediato e outro a manda levantar da cadeira de rodas. Guardo a mágoa dos médicos que, pela direção do tratamento, levaram meu pai à morte. Se gritei? Sim. E o representante do Ministério Público mandou a polícia apurar. Como falta pessoal, o inquérito ficou por isso mesmo e caiu na pasta burocrática do esquecimento.

Enquanto isso, envelheço. Não estou mais no mercado free do jornalismo. Advogar, não quero – faz mal ao coração. A carreira de produtor rural está perdida antes de começar.

Quanto aos filhos, cada um tem sua vida.

Resta encarar a velhice de frente e superar o medo de urinar nas calças, de deixar a comida cair da boca, de ter um corpo estranho, desengonçado, da rejeição das pessoas porque fica difícil qualquer tarefa que signifique deslocamento a pé.

Sobra o super-mercado: apoiado no carrinho, consigo caminhar entre prateleiras e colaboro nas compras. A bengala também ajuda. O remédio melhor ainda é jogar o corpo na água e conversar com Deus para enxergar a beleza do céu, a força da tempestade, enquanto esse verão, cada vez mais quente, queima a pele de todo mundo.

Não, não dá para reclamar: a muda de samambaia chorona está crescendo no quintal e consegui salvar a orquídea do ataque fulminante dos caracóis.

É a velhice, mas a vida não pode parar e, de verdade, o gostar da vida é profissão de todo o dia, apesar das limitações. Quero ser velho sem medo, sem nunca tentar parecer jovem. Há que ser velho com dignidade.

Afinal, o carro sai da oficina ainda hoje: vou recuperar as minhas pernas. Ou seriam rodas?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Coragem

Foi um menino. Um menino de onze anos que parou o carro. Outros aparecem. Um tiro acontece e lá se vai uma vida a troco de nada. Caso raro, investigação rápida e os meninos são detidos. O Juiz relata: a idade é cada vez menor.
Em São Paulo, um menino é empurrado e, na queda, sofre hemorragia interna. Imagens da escola mostram bem onde estão indo as crianças brasileiras para estudar: prédios velhos, acabados, sem equipamentos. Professores acovardados, crianças agressivas, pais dispostos a bancar a violência dos filhos.
Fatalidade: na quadra, um jogador de futebol de salão perde a vida numa farpa. Outro menino já havia se machucado no mesmo lugar. Descaso. Falta de manutenção.
A seguir, imagens dos hospitais que atendem às vítimas: tudo feio, caído, em situação que fica difícil manter o padrão de higiene desejado. Equipamentos? Médicos?
É constante a crônica do mau atendimento, da falta de recursos. Os hospitais adotaram, como principal funcionário, o agente de segurança, armado e despreparado.
Na tv, o filme é violento. Explosões, morte, gente ferida são apresentados à criançada, que imita essas cenas nas brincadeiras.
O corte para o legislativo mostra salas bem arrumadas, equipamentos e gente enfiando dinheiro por todo canto. Quanto ganha mesmo o ascensorista do Congresso? E um médico da rede pública do Rio de Janeiro? E um professor?
No trânsito, mortes provocadas por motoristas bêbados. O cara já foi preso várias vezes por dirigir alcoolizado, não tem carteira e entra num parque para atingir pai e filho.
A lei é dura para quem tem CPF e identidade, para quem tem algo a perder, para o cidadão que será obrigado a pagar uma multa pesada.
Esse é o medo: a criação de uma sociedade sem os freios sociais, despreocupada com educação, certa de que morrerá cedo ou terá assistência médica precária. Gente que vive sem emprego, não sabe o que é casa e se arrasta para a morte. Quando chega no xadrez, acha uma cadeia superlotada, apesar de tantos marginais na rua.
Tem também a outra face da moeda, o filho de classe média, com dinheiro n bolso, que se julga acima das leis. Preso, será solto. Julgado, não ficará preso. As exceções são poucas.
O cidadão em sua casa, é desenconselhado a ter armas e nem cachorro bravo poderá ter. Não reaja - dizem todos.
Como é a história do arrancar a flor no jardim e, depois, o grito da sua garganta?
Aprendi diferente. Reprimo a vontade de encarar, de reagir. Minha geração enfrentou polícia, exército. Aliás, não entendo muito porque as forças repressivas, usadas contra intelectuais, operários e estudantes - mal-preparados, diga-se de passagem - olham passivamente suas armas passsarem para as mãos de bandidos e não interferem na guerra urbana instalada nas cidades brasileiras.
De bonito, fica o exemplo da senhora baixinha que, com base em alguma noção de luta marcial, enfrentou e expulsou o ladrão que acabou preso.
- Não sigam meu exemplo, não reajam.
Não sei não. Sem educação, sem hospitais, sem polícia, como o cidadão fica sem reagir?
Ladrão não é profissão - eu imagino - e a reação coletiva pode mudar um pouco a idéia de que tudo é fácil. A falta de respeito chega a tal ponto que, dia desses, o ladrão invadiu a casa, comeu, bebeu e... dormiu!!
Está certo que não dá para enfrentar arma de peito aberto, mas a passividade só ajuda a ação dos meliantes. Não dá para virar a cara quando o vizinho está sendo roubado. Um pouco de solidariedade somada a com um pingo de coragem podem dificultar a vida do ladrão.
E, para aqueles ladrões de dinheiro para panetone, a arma do cidadão é uma só: o voto. E que a justiça tenha piedade de nós.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Mudança

O nordeste sopra forte na região dos lagos. Te, que está em Cabo Frio, se espanta com esse vento, vento salineiro, a ressacar a terra. Ela me fala também das cidades que, com o terremoto, mudaram de lugar – até mesmo no Brasil.

Fico pensando no mamute congelado com capim na boca. Se o eixo mudar, ficaremos eternamente congelados. Ou, quem sabe, nos transformaremos em esqueletos de um deserto escaldante, com sobreviventes rezando para ficar perto de um oásis.

Onda de 15 metros? Vamos fazer por menos: uma – só uma – onda de 5 m no litoral do Rio de Janeiro e cidades e mais cidades estarão perdidas.

Há lugares, no nordeste, onde o mar toma conta de boa parte das praias.

Na lagoa de Araruama, uma pequena praia desapareceu e as casuarinas morreram, com as raízes imersas em água.

Os especialistas em agricultura sempre comparam o setor a um grande transatlântico: não dá para fazer curva fechada, mudar o rumo rápido, como se fosse um carro de formula um. Medidas tomadas fora de época levam tempo para fazer efeito. As estações do ano precisam – no caso da produção agropecuária – ser respeitadas, ainda que a tecnologia tenha resolvido muitos nós da produção no campo.

Essa idéia, colocada em relação ao mundo, cria uma pergunta: que causa terão os estragos que já estão feitos, com a liberação de gases que contribuem para o efeito estufa e outras fontes de deterioração mundial?

A mudança das cidades de lugar, a grande placa de gelo que navega nos mares gelados do sul – quais serão, a longo prazo, as conseqüências desses fatos?

Agora, que cada um precisa olhar o que anda fazendo, é certo. As imagens das enchentes mostram como as pessoas continuam jogando lixo nas ruas e como há descaso no recolhimento deste lixo. Há muita verba investida em legislativos e pouco dinheiro gasto com empregos no recolhimento de lixo, limpeza de valões, desobstrução de bueiros, construção de vias para recolhimento de águas servidas.

Aqui onde moro – um grande bairro imprensado entre Niterói e São Gonçalo – as águas servidas descem direto para o rio, sem quaisquer tratamentos. A rede coletora de esgotos é o riacho Mata Paca... Do que sei, toda essa região adota o mesmo procedimento: não há estação de tratamento de esgotos em São Gonçalo.

Pelo menos, a empresa estadual tem uma adutora por aqui é admite a “ligação de passagem” – o popular gato – como forma de fornecimento de água e, lógico, manda a conta todo fim de mês.

Coisas simples, como a transformação de lixo em adubo, reciclagem de materiais,

Tratamento de esgotos são itens que merecem pouca atenção, tanto do público, quanto das autoridades constituídas. Enquanto isso, a expansão desenfreada dos núcleos urbanos transforma em depósito de coliformes os mares, os rios, as lagoas, prejudicando a balneabilidade das águas de recreação.

A baía de Guanabara é linda, sem dúvidas, mas como tomar banho em suas praias?

É terrível quando, na Massambaba, litoral sul do Rio de Janeiro, a sujeira toma conta da praia, vinda sei lá de onde.

Outro item: proliferação dos automóveis. Está certo que indústria é emprego, que carro significa a vida de muita gente mas, na contra-mão dessa idéia, é um veneno para o ar que respiramos. A alternativa é o transporte público.

Diz o meu médico que, quando trabalhava numa grande empresa de ônibus, era comum, em tempo de eleição, a chegada de políticos, até mesmo de helicóptero, em busca de recursos para eleição.

As conseqüências são visíveis: as vans, que faziam transporte entre o Baldeador e Niterói, foram exterminadas porque estavam prejudicando as linhas de ônibus. A fiscalização permanece firme, mas ninguém se importa se um passageiro fica no ponto, esperando um ônibus, durante uma hora. As empresas de ônibus podem tudo e não se fala em transportes alternativos.

Qual é a opção do cidadão? Comprar um carro. Se duvidar, fica mais barato que andar de ônibus: o gasto estimado para ir de Pendotiba, Niterói, até o centro do Rio é da ordem de R$20,00, numa distância de 30 km, aproximadamente.

Numa época em que escritórios de advocacia fazem profissionais trabalharem como escravos, sem benefícios trabalhistas e sem horário, talvez a solução seja mesmo mudar o eixo da terra e começar tudo de novo. Também não sei adianta: vão crucificar o Cristo novamente e o cara que ficar com a caverna maior, vai cobrar aluguel dos outros. E tudo voltará inexoravelmente ao mesmo padrão de antes.

Tião Freitas

10/03/2010

terça-feira, 9 de março de 2010

Se falas de mar...

Se falas de mar:

água sacode a vida

alimenta a alma

em sal-doce

gosto de prazer

olhos de sonho e alegria.


Se falas de mar:

onda cresce

pancada cava areia

some a ternura

tubarão bravio

esconde em conchas

almas de corpos esmagados.


Mar, se falas de mar,

provocas esse canto – sereia,

Netuno –

a embevecer legiões

perdidas no espelho das águas

enredadas em beleza e perigo.


Falas de mar, mar -amor?

Um dia vida, outro perigo

feitiço doce-salgado

revirado

entre ondas de alegria

calmaria e luar

em morte e alegria:

sem esse feitiço

- jeito de mar que é vida, é morte –


Sem esse feitiço,

Impossível viver.

Tião Freitas

9/03/2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Chile

Sábado. Dia acinzentado, sopra sudoeste em Praia Seca. Débora liga. Terremoto no Chile. Santiago atingida. Notícias de Pablo???
Não, nem sabia. TV ligada. Destruição, morte, aeroporto interditado. Comunicações precárias. Ligo para Marigilda. Ela ainda não sabia. Ninguém consegue falar com Pablo.
Aprendiz de seleiro, conserto uma bolsa. Costuro. Yan liga - Isa foi para o hospital e ele virá para o almoço. Converso. Volto ao trabalho, até que Marigilda liga e me tranquiliza: Pablo conseguiu um telefone e entrou em contato com ela: estavam bem, apesar de tudo.
Alguns utensílios foram para o chão na casa deles em Santiago. Surya acordou assustada com o barulho, com medo de ladrão.
Como moram no segundo andar desceram os três: Pablo, Carola - minha nora chilena - e Surya, a neta nascida no dia do meu aniversário.
Foi difícil explicar para o coração que era apenas um susto.
No hospital, Isa faz exames, mantemos contato com Antonio e tudo não passa de um susto, descartada a hipótese de apendicite.
Anda no meio da tarde, a bela coral não escapou da paulada, apesar de sua beleza, de seus lindos anéis que me tornaram ágil novamente.
Crime ambiental? Como deixar uma cobra no quintal de casa?
De certa forma, fiquei com pena mas, se não matasse a cobra, como ficariam as pessoas no caminho?

Terremotos fazem parte da história. Talvez pior seja perceber as mudanças climáticas, tragédias na França, inundação na cidade de Campo Grande, violência na Ilha da Madeira e por aí vai.
Pior ainda é o enorme iceberg que se desprendeu no pólo sul e navega, sabe-se lá para onde.
Mato a cobra, conservo as árvores onde pássaros se aninham. Corto uma vara no mato, mas coloco sementes na terra. E vivo, enquanto dá, enquanto o mar não nos expulsa de Praia Seca.
O terremoto do Chile doeu no meu peito.
Fico pensando nos pequenos e múltiplos terremotos sociais - assaltos, balas perdidas, gente ruim - que acontecem a cada dia: quantos corações sangram por causa disso.
Duas doenças: um meio-ambiente agredido e uma sociedade violenta, onde bandos saqueiam o que pode em meio ao caos de cidades destruídas.
Se a população do mundo dobrar, que tipo de bicho chamaremos de gente?