domingo, 18 de julho de 2010

Destino

Na sala, o menino olha a dificuldade do velho para calçar o tênis. O velho se esforça, usa meias - o menino sorri.
Lento, apoiado na bengala, o velho se levanta. O menino supõe piruetas, dança na música, simula correrias.
Sacudindo o corpo, o velho lembra do tempo em que ainda andava de bicicleta, montava, corria.
Olhando pelos mesmos olhos, o menino quer andar ligeiro, sacudir os braços, mas o velho se desloca como quem arrasta uma bola de presidiário.

No portão, os pequenos galhos de hera tomam conta do poste. O menino pensa:
- vou subir no muro, cortar a era. É simples.
Mas o velho, colocado no mesmo corpo, pensa que é preciso pedir ajudar - buscar alguém para cuidar da bela parasita que pula do muro para o poste.
Na direção do carro, velho e menino se encontram, mas o velho prevalece na prudência necessária para dirigir. Se ainda fosse a bicicleta...
O velho percebe que o menino está ainda ali, morando nos seus olhos, cravando uma pergunta:
- Quando este corpo perdeu a agilidade, ficou velho?
O velho não sabe. Tem certeza de que não sabe tantas coisas quanto pensava saber.
A chuva cai, o frio invade o dia e o velho busca um agasalho - o menino pergunta para que isso, por que não sai sem camisa??

Na curva do dia, menino e velho se encontram no mesmo corpo cansado, entorpecido pelos remédios para o coração, espetado pelos osteofitos marginais, doído pelo esforço de andar torto, apoiado na bengala. E o menino envelhece, enquanto o pensamento voa para o futuro, numa dúvida aguda do que será o dia de amanhã.
Mais dúvidas levam o menino embora - ele desaparece como se fosse levado pela correnteza do rio, rio onde embarcações endurecidas como desamor, rejeição, desinteresse vão navegando - tripulação flibusteira, a tentar atacar a fortaleza da mente, onde o menino, por milagre, ainda encontra refúgio.

Nem tudo está perdido: vale passear sertões em Sagarana, navegar Veredas, enredar-se pelas histórias do "Endurance".
Pela Internet, chegam poemas, mensagens de afeto. E a vida, entre real, virtual e imaginativa, vai se refazendo no dia-a-dia, independente da solidão que se quebra com o amor da companheira, o olhar dos bichos, com a beleza das flores que nascem no jardim.

As limitações da velhice são reais. Irreal é o mundo que parece jogar o velho para uma gaveta, ou para uma cama de hospital onde os médicos chamam de vida um olhar perdido na distância infinita.
Menino e velho concordam numa coisa: ainda não chegou o tempo da dependência e a liberdade de ir e vir - limitada, é certo - ainda é o grande argumento para que a vida continue fluindo pelo corpo. Enquanto dia e noite se revezarem, não há porque deixar o barco, a menos que o peito quebre e uma outra viagem se inicie, ninguém sabe com que destino.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tempos de medo

O celular toca. Estou dirigindo Dil atende:
- Me ajuda!!!
Ela desliga, já sabe que é confusão. Paro o carro. Outra ligação - dois a três minutos depois. É o filho, querendo saber como estávamos, porque recebera ligação de casa.
Ao mesmo tempo em que ligaram para o celular, ligaram para o telefone fixo, informando que eu e minha mulher estávamos acidentados; conversa sem pé nem cabeça. Bem instruída, Rose consegue perceber a falha e acaba xingada pelo telefone.
- Se não me der o dinheiro, vou matá ele!!!
Ela simplesmente desligou o telefone e, logo a seguir, liga para Felipe. Momento seguinte, chegamos em casa. Rose estava em pânico ainda, mas segura do que tinha feito.
Pago pelo concerto do ar condicionado da Quantum. Dias depois, descubro que fui enganado.
A garantia do carro novo garante, mas tem "n" restrições. Defeito no farol. Defeito na direção hidráulica. e, pior: o som que me venderam custa a metade nas lojas de som. A sensação é de ter sido roubado pela fina flor da elite comercial.
No mercado, a linguiça está misturada com outra de marca mais barata.
O quilo tem 900 gramas. O preço da prateleira não é o preço cobrado. O frango, se congelado, vem lotado de gelo.
Compre uma peça de puro algodão: é quase certo que tenha fios sintéticos.
O carro da fiscalização fica parado ali na Estrada Caetano Monteiro, garantindo que nenhuma linha de vã passará por ali. O direito da empresa de ônibus está garantido, certo, mas o passageiro é considerado mercadoria privativa: ninguém controla o horário dos ônibus; o ponto final fica cheio de veículos e a ideia é de os veículos andem lotados - não importa de o passageiro fica mofando no ponto. Não há alternativa, a fiscalização impede a circulação de veículos alternativos mas ninguém fiscaliza a frequência dos ônibus.
Se não há corpo, teoricamente, não há crime. E a bandidagem se especializa em sumir com as provas. Bom, quando a mídia está acompanhando, a polícia ainda tenta agir. Porém se o crime não é notícia, a burocracia investigativa se arrasta até que as provas desapareçam. Quando a Justiça é criticada pela morosidade, os senhores importantes dizem que estão tomando providencias.
E a impunidade infla o ânimo dos que adotam a delinquência.

Como era mesmo o sonho de um País melhor, de uma sociedade mais justa?
Tempos de medo. Como diz o poeta, para o bonde que eu quero descer!
Só que o bonde não para e esse tempo de medo continua a nos sufocar cotidianamente.
Só resta esperar que o dia amanheça e que o nome da gente não seja a bola da vez.