segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

papagaio cabrito

Porta da Faculdade, lá pelos idos de 1965, talvez um ano a mais ou a menos. Futuros advogados, gente aprovada em vestibular enjoado. A conversa rola amena, que não era hora das acirradas disputas políticas.
O estudante, se não estou enganado, também estudara no Pedro II, falando sobre as coisas simples e necessárias, disse o que buscava:
- Estou precisando de um papagaio cabrito.
- Como é?? - alguém reagiu.
A plateia não era formada exatamente por santos. Todos sabiam da gíria, do falar malandro deste Rio de Janeiro. Mas ninguém entendeu.
- É, um papagaio cabrito para o meu carro.
Espanto geral. Ninguém ainda entendera.
- Não sabe o que é papagaio? É rádio.
- Por que cabrito? Ah, roubado!!!
Nesses tempos bicudos, em que o Código Penal é questionado, o episódio revela a moral dúbia da classe média, o enunciado a lei de Gerson, que visa a levar vantagem em tudo. Não importa se o objeto é roubado. O importante é pagar um preço levianamente baixo, não importa a origem, não importa o prejuízo de terceiros. O benefício próprio está sempre em primeiro lugar.
Por que não começar uma reforma moral por estas pequenas coisas? Roubar, ainda que seja fruta do quintal do vizinho, é ato desonesto. Não há honestidade parcial. É preciso consertar a base - eu entendo assim - para que, a longo prazo, haja mais caráter, mais gente capaz de devolver o que achou e não lhe pertence.
Quanto às reformas da lei, acho que o primeiro passo seria agravar a pena para a receptação. Se o "papagaio cabrito" doesse no couro de quem o consegue, o mercado ilegal tenderia a se reduzir.
Em vez disso, atos como roubar e furtar se transformam em profissão e o primeiro motivo é o seguinte: há sempre quem compre. Há um mercado de coisas roubadas, seja de objetos, seja de carros, seja de fios de cobre. E os compradores estão de portas abertas - até eu que pouco ando, sei onde estão - e os episódios de combate são esporádicos.
- Se eu não comprar, outro compra. Eu compro e vendo logo. E quando a polícia chega, há sempre um acerto - me conta um dono de ferro-velho.
Fica uma ideia para começarmos a mudar um pouco a sociedade em que vivemos: vamos combater o "papagaio cabrito" para mudar esse conceito entre os jovens; vamos reformar a lei de Gerson e, por fim, o Código Penal, agravando a pena de quem agita esse mercado chamado "robauto".
Não custa sonhar: uma polícia honesta - é muito forte, nem tanto: um polícia menos corrupta seria fundamental nesse processo. Do jeito que as coisas estão, "elefante cabrito" é coisa de iniciante.