terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Roça


São tempos de mercado, shopping, compras.Final de ano. Aquele natal de presépio vai-se sumindo aos poucos. Olho a roça, boi e cavalo, galinhas no quintal. E lá se vão frangos para a panela. Tem caju, tem manga em quantidade, tamarindo no pé. E tem o verde da horta, o queijo feito em casa, abóbora, aipim. Lá vem o carro cheio de coisas, rolando no asfalto quente do meio-dia.
Para chegar à roça,a aventura de sempre: poça d'água, vala no caminho, lama na ladeira. o carrinho - arremedo de jipe - pega firme na estrada, arrasta os sacos de cimento e vai sem medo. Lama pula, água se espalha e o motorista, sem nem falar, agarra o volante, olhar firme na pista, quase nem vê o verde úmido a rebrilhar no sol. O carro se sacode, ginga um pouco, a poça é grande, último obstáculo e termina a graça da aventura do dia. No asfalto, no chão seco, nada de novo: é tocar em frente e chegar.
Se o motorista se diverte, a passageira reclama do solavanco, do buraco, da emoção. Não é exatamente a vida que gosta, nem acha a paisagem mais bonito que vitrine.
No pasto do vizinho, o potro fica mais bonito a cada dia. No sítio, o capim explode em verde e os abacaxis, por trás da capela, começam a ficar maduros.
É a roça. O ovo de quintal, o canteiro de minhocas, o peixe do lago. Mas o vermelhinho volta pra pista, acha asfalto, corre e a cidade está aí mesmo, com computador e sem paisagem. A alma dói, a saudade aperta, mas o sonho veio tarde demais e, sem a companheira, o sonho fica incompleto.
Não faz mal. O ano termina e vamos ver se, no próximo, a vida se desenrola mais perto da natureza, do espaço aberto onde a música é o canto dos pássaros, o barulho dos bichos de casa.
Que fazer? A alma caipira me cobra presença na roça. Não dá par gostar de centro comercial. Da mesma forma, fica difícil viver lá sozinho. É o dilema. Quem sabe a solução aparece num sonho, em plena noite de Natal?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fim de ano, um abraço.



Dezembro. E eu fiz o texto, quis juntar uma foto e .... foi tudo para o espaço.
Perdi graça. Falei de Silvinha, sumida, mas presente na proteção aos animais,
Corina - a mensagem de Santa Bárbara, Teca, bela mensagem de festas e tem também a árvore de Corina e as mensagens do Nelson. Expedito, sempre presente com uma bela seleção musical.
Família, sobrinhos, filhos, amigos, irmãos, irmãs. Forma-se uma rede, uma teia de contato diário, onde nem sempre a conversa é conversa e tem resposta. Mas a rede nos faz sentir parte de um todo, onde a solidariedade aflora quando um problema aparece.
Tem o grupo mais de perto e a visão de quanto o Pedro II - o velho Colégio - ainda nos une e nos faz agir como se fôssemos ainda estudantes solidários uns com os outros.
Toda esta montagem faz este ogro, mais afeto às agruras do campo que à fumaça da cidade, olhar com simpatia para a tecnologia que cria um mundo virtual onde, via de regra, é gostoso navegar.
A presença de todos - vale falar ainda de Rosa, Liane e Maria Helena, belas profissionais com que trabalhei na Embrapa - a presença de todos me faz perceber um estado de espírito que se pode chamar de felicidade.
Pela amizade com que me tratam, pelo carinho que percebo, por tudo que significam os presentes em minha lista, deixo aqui um grande abraço e os votos de que a alegria, a paz de espírito marquem vossas festas de final de ano. E que 2012 venha em paz. Grande abraço.

sábado, 15 de outubro de 2011

Um abraço aos mestres

Irmão professor, filho professor, filha professora, amigas professoras - um grupo de gente que, apesar dos salários, mostra orgulho pelo trabalho e consciência da importância do papel dos educadores na sociedade.
Não sou professor, mas registro aqui o meu respeito por todos que escolhem a carreira do ensino. Fica meu abraço, meu cumprimento a todos pela beleza do trabalho que desenvolvem.
Como em toda profissão, há os que a dignificam e os que querem pular da barco. Mas admiro essa gente guerreira, que encara colégio público para dar aulas, apesar das dificuldades de uma sociedade em transformação, onde a preocupação com os direitos supera o entendimento dos deveres de cada um.
Parabenizo quem se aposentou depois de muita luta, parabenizo os que se empolgam com o que fazem, parabenizo os que procuram modernizar a educação para formar pessoas aptas para a convivência social.
Relembrando o velho Pedro II, parabenizo os mestres que me mostraram portas dos conhecimento, portas que nem sempre fui capaz de entender.
Acredito que só através da educação de qualidade, teremos um País melhor. Por isso ficam aqui abraços e os cumprimentos a todos que enfrentam a árdua tarefa de abrir as portas do conhecimento para os que se sentam nos bancos escolares. Parabéns, mestres.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dia dos pais


Um amigo meu já postou saudade no Orkut. Vi, fiquei quieto.
Mas tem qualquer coisa remoendo no peito, tem qualquer coisa me lembrando que o Pai foi embora, sofrido, doído, maltratado por aquela cambada do hospital de Araruama. Diziam que era para salvá-lo, ma conseguiram simplesmente transformar em inferno os últimos dias da vida dele.
Essa é a parte sofrida.
A parte boa é lembrar de um homem cheio de vida, capaz de nos ensinar a posição das constelações no céu, capaz de nos acalmar na hora do desespero, capaz de citar a bíblia com conhecimento de causa e disposto a ser budista mas sem assumir uma postura de religiosidade.
Foi companheiro, amigo, vizinho. Nossas casas geminadas em Praia Seca nos permitiram muitos dias de convivência diária, tanto na praia quanto na lagoa e mesmo nos atos comuns do dia-a-dia, como almoçar, lanchar, tomar café da manhã.
Nadador competente, era capaz de flutuar melhor que nós todos - isso já na velhice. Enfrentava o mar sem medo e foi a custo que deixou de ir à praia, porque as pernas já não podiam enfrentar a força das ondas.
Dentista, trabalhou muito para criar nove filhos (um se foi ainda cedo) entre os quais seis homens e duas mulheres. Todos se formaram, cada um tem uma profissão. São muitos netos, muitos bisnetos. É um povo esportivo, alegre e digo sempre que festa lá em casa parece festa viking, com alguns gigantes plantados no meio do povo.
Entre as últimas coisas que me pediu, estavam as mudas de begônia. Consegui algumas e, até hoje, sua lembrança está escrita nas folhas que se renovam em torno da capela, no sítio.
Na capela, a lembrança se refaz no grande terço de madeira, que ficara sobre a guarda de sua cama, presente da Maria José, companheira dos últimos tempos.
O velho José Álvaro morreu lutando para continuar usufruindo o que a vida tem de bom: gostava de um vinho, de uma cerveja e de um belo almoço. Amava a música e nem a surdez o fez abandonar os grandes compositores. A gente via um certo orgulho nos olhos dele quando nos reuníamos para comemorar seu aniversário ou algo deste porte. E, se pudesse, ainda teria gosto em arranjar uma nova namorada: não perdia a vez para cortejar uma mulher.
Assim foi meu pai: um trabalhador incansável, um amante das boas coisas da vida e um guerreiro que maus profissionais empurraram para o outro lado sob sofrimento. Morrer, a gente sabia que ele iria morrer. Mas o cruel é lembrar a desgraça que é um centro de tratamento intensivo na vida de uma pessoa.
Melhor é lembrar da força deixada em Praia Seca, onde a velha pitangueira se desmancha em flor e atrai as abelhas - abelhas, outra paixão do Zé das abelhas que foi embora e, inevitável, nos faz chorar de saudade quando pensamos nele.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vaca atolada no tucunduva


Gripe - que adianta vacina? - coração que bate preguiçoso e sem ritmo. Acho que é por isso que não consigo batucar .. nem o coração tem ritmo e o peito racha na insegurança das possibilidades médicas. Não importa: quero mesmo é deslizar no caiaque pelas águas da lagoa. Olho a foto do meu perfil e a saudade bate dura. Mas amanhã vamos viajar, ih, até me lembrei: "vamos indo de carona, na garupa leve do vento macio" - Nada, vamos mesmo é enfrentar estrada, maluco ultrapassando de qualquer jeito, placas de sinalização enlouquecidas, carrinhos escondidos para nos multar. O menos grave ainda são buraco e poeira nas estradas da Bicuíba. Mas aí tem a paz das grandes mangueiras, o gemer dos bambus gigantes, a vibração do pé de jamelão que cobre a capela. Cavalos pastam calmos, galinhas ciscam no terreiro e a galinha d'Angola abre o berreiro de sempre - tô fraco, tô fraco - só que fraco não é grupinho das pintadinhas, capazes de matar um galo, se cismarem com ele. Que tem o coração a ver com isso? Simples. o peito puxa o ar gostoso, o sorriso é inevitável e o corpo parece que muda de direção, para achar Deus em cada folha, em cada inseto - lá vem a enorme borboleta azul - em cada flor. Lá vem o Tonho com um saco de tangerinas, vai buscar dúzia de ovos e os últimos queijinhos. Isso é a minha roça:simples, sem enfeites, porém capaz de fazer o coração bater de pressa e a cabeça entender que a vida vale a pena, principalmente no carinho dessa atmosfera que me abraça. Desse jeito, adeus gripe e o coração fica feliz. Para completar, um café na varanda. Aceita? Só falta mesmo acender o "tucunduva" - fogão de lenha - para cozinhar uma costela com aipim. Tem coisa melhor que uma vaca atolada, com uma cachacinha para acompanhar?

terça-feira, 5 de julho de 2011

A força da amizade

e me peguntam - eu mesmo me pergunto - se quero viver, hoje, na prática, tive a resposta: sim. Melhor, tenho certeza que quero recuperar os movimentos, as articulações perdidas e explico: enquanto todo mundo se agasalhava, vesti a sunga e caí na piscina para mais uma aula de natação.
Transferi a RPG para amanhã - isso porque iria chegar atrasado. Isto quer dizer que estou me cuidando, ando em busca do caminho da recuperação, para melhorar minha qualidade de vida. Ainda falta: preciso definir mais um exercício, quem sabe uma academia, quem sabe a simples bicicleta, para ajudar no fortalecimento de músculos e ossos no combate a este princípio de osteopenia. Nada de vaidade, apenas busca por saúde.
Agora, venho para esta roda de amigos, saber de irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos, amigos e amigas que sempre me dão força, me acompanham e, mesmo de longe, me tratam com muito carinho.
Existem amizades fortes vindas através da ligação com o Pedro II. Existe o reviver de amizades antigas, do tempo do trabalho na Embrapa, ou ainda da Faculdade.
Interessante é como o velho símbolo imperial do Colégio fala mais forte e marca a maioria dos conhecimentos existentes.
Sei que o meu gosto maior está na atividade rural, só que nem sempre é possível estar na roça. O remédio é aceitar as mudanças do mundo. foi assim quando comecei a trabalhar com o computador. Depois veio a Internet.
Hoje, sozinho em casa, tenho o privilégio de entrar em contato com uma bela roda de amizades. E essa roda me ajuda a perceber detalhes da vida que me fazem aceitar melhor as dificuldades. Cada abraço, cada beijo, cada elogio me ajudam a responder a pergunta inicial - porque quero viver - e a resposta é sim.
A comunidade a que pertenço sempre me dá de presente o incentivo para querer continuar vivo. E fico feliz por isso.

Encantamento


E o remo corta água na direção do sol. Água lisa, marulho de proa largada, remo apoiado, da ponta do remo gotinhas voltam para a lagoa, no silêncio que se faz na distância da margem. Pula parati, corre ubarana, mergulham perumbebas invisíveis. Lembrar de quê? De um olhar distante, um sorriso preso no fundo da memória. No silêncio, a gente conversa com Deus. Além disso, rostos que são importantes parece que nos acompanham na travessia. Vou, volto, a vida está ali, concreta mas uma vida abstrata nos cerca, como se outra dimensão estivesse bem perto de nós. Na dimensão dos sonhos, as distâncias físicas desaparecem. As palavras chegam encantadas ao nosso dia a dia. Ainda quero uma vela para correr no vento. E será que ela virá comigo neste velejar ou vou seguir sozinho, discutindo os enigmas da vida? Certo é que capturo um sorriso, um olhar e faço deles amuleto para espantar a tristeza. As gotas da água que correm do remo parecem palavras de puro encantamento.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Atrevimento

Um beijo atrevido. Abraço inesperado, inesperado olhar a provocar uma dança de pernas sem fim. Como? Nesse imobilismo onde todas as conversas são pela Internet? Sim, certo, mas a saudade abre teatros no peito e monta mundos onde o menino ainda vive.
Vale lembrar um olhar percebido que, dia seguinte, virou combate, o bom combate a que se refere o profeta Vinícius. E os olhos dela, perdidos e confusos entre a areia e mar, a me dizer que o atrevimento foi bem vindo.
Hoje, a chama vai chegando ao fim. Vive-se um amor tranquilo, de paz e momentos interessantes. Mas as lembranças - ah, as lembranças ficaram.
Era mulata, de óculos, bela. E lá vinha eu saindo da Ilha, de ônibus, agarrado com ela, quando minha irmã e colegas entraram no ônibus ... Ainda era tempo de constrangimento, mas ficou por isso mesmo, que o carnaval ia começando e a noiva nem sabia por onde eu andava.
A pele negra acende reflexos na noite. E a vida caminha em corcéis de fogo num hotel da cidade. Negra. E linda. Foi querida, namorada, mas não ficou. E, sem emprego, sem destino, como estabelecer qualquer coisa mais séria?

Pior - e isso acontece ainda no tempo do Pedro II - é trancar no peito a paixão por entender que ela, paquerada pelos mais velhos, atacada por quem podia falar em casamento, pior entender que ela jamais iria me namorar. Fomos amigos, amizade gostosa e eu me deixava perder nos olhos verdes, em nossas intermináveis conversas no ponto do ônibus. Nunca falamos de amor.
Um dia, um beijo, uma pele clara - logo eu, que sempre tive namoradas morenas e daí para mais - me crava um sentimento no peito. Não, não era hora. A música fica eterna, plantado fica o sentimento, com gosto de vinho branco e olhos de não esquecer.
- Quantos casamentos, Tião? - Perguntava meu pai.
- Três, pai.
- Só? Vou contar.
- Não. Só valem os que resultaram em filhos!!!
Ele ria, divertido em saber das minhas loucuras.

Caminhos. Tentativas. Mulheres, sempre belas dentro do momento vivido. A elas agradeço a beleza da vida, o poder recordar e reviver o que aconteceu.
Vale, como sempre relembrar o poeta: Xangô meu pai me deu muitas mulheres para amar ... E, como ele diz, fui atento ao amor em cada tempo, embora tenha causado vergonhosas decepções a algumas companheiras.

Hoje, as pernas cansadas, os bailes acontecem no salão da saudade e têm o colorido alegre dos muitos bons momentos vividos. Só posso mesmo agradecer as mulheres o baú imenso de sensações que elas me deixaram e exibir, com certo orgulho, as cicatrizes marcadas no peito que nem o tempo consegue apagar.

sexta-feira, 6 de maio de 2011



Dia das mães


Dia das mães. Sabe o que irrita? Aquele e.mail dizendo: o presente de sua mãe está aqui. Só que ela não está mais entre nós. Foi uma guerreira, criou nove filhos - sete homens, duas mulheres - deu o melhor de si para estes filhos e ficou muito triste quando perdemos um irmão aos 16 anos de vida.

Ah, como eu me lembro das aulas de Português que me dava, andando pelo quintal com filho no colo, porém firme no conhecimento, orgulhosa de ter sido aluna do Pedro II.

Já mais tarde, sua imagem volta quando saímos na madrugada, na Ilha do Governador, para a pescaria de siris e camarões.

Nossa casa era uma casa farta e amiga, uma mesa sempre pronta, um canto para receber um colega dos filhos - alguém que chegasse de surpresa.

E não dá para ouvir um piano sem me lembrar dela.

Tivemos brigas, divergências principalmente sobre as mulheres da minha vida. Mas, na hora do sofrimento, como era bom saber que ela estava ali, para um carinho, um corretivo, uma palavra amiga.

A fé em Nossa Senhora era inquebrantável, talvez mais forte que o ciúme que sentia de meu pai. O coração não resistiu, ela se foi.

Hoje, quando se fala em dia das mães, recordo um sorriso, os cuidados com todos nós, um som de piano na sala, o perfume de uma comida gostosa.

Do muito que me ensinou, vem grande parte desse amor pela terra, pelos bichos, formado a partir das histórias da Prata, a fazenda de meu avô lá pras bandas do Maranhão. Ela era piauiense, sempre pronta a defender as delícias do seu Estado.

Com seus ensinamentos, me repassou também boa parte do gosto pelos livros.

Minha mãe, com seu jeito simples, enérgico quando preciso, alegre no reconhecer as pequenas grandes coisas da vida, me garantiu - eu nem percebia - tanta coisa boa no meu dia a dia.

Hoje, por sua lembrança, deixo um abraço para todas as mães que participam desta comunidade, amigas e familiares.

Não, não vou ao cemitério. Entendo que vou encontrá-la na flor do jardim, no marulhar da onda, no despencar da cachoeira, ou até mesmo na imagem de Nossa Senhora que lhe dei de presente e que conservo até hoje.

A luz de seu espírito me fez amar a poesia. E vou me lembrar dela sempre como se ela estivesse comigo, ali no sítio. Junto com ela, com seu jeito calmo, vejo meu pai.

Dia das mães. Me emociono. Só me irritam estas mensagens marqueteiras que só querem vender qualquer coisa.

As mães não estão no mercado, estão na alma de cada um de nós.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

limitação administrativa

O mestre Hely Lopes Meirelles, conhecido por suas obra em Direito Administrativo, diz que toda vez que o Estado interfere no patrimônio privado, há que indenizar.
Bem, mas as contradições existem. A Constituição Federal se, de um lado, instituiu a garantia ao direito de propriedade, de outro, criou a função social da terra, abrindo brechas para que a burocracia invente formas de interferir na propriedade alheia sem pagar.
A figura de direito - limitação administrativa - não é nova e serve para criar restrições como alternância de circulação de placas em São Paulo, limitação do gabarito de construção de prédios, recuo de muros para construção de calçadas. Mas ensina o mestre que estas restrições não podem aniquilar o patrimônio alheio ou não podem criar prejuízo ao aproveitamento do bem.
Passados os limites quando a restrição é exagerada, cria-se a figura da restrição e da expropriação. A discussão não é nova o Estado de São Paulo, com a criação do Parque da Serra do Mar, vem sendo obrigado a pagar indenizações a diversos proprietários. Surge a figura da desapropriação indireta, do tombamento e outras mais.
Apoiados nas limitações administrativas, autoridades do meio-ambiente criam, por exemplo, "APAs" - Áreas de Proteção Ambiental - interferindo no patrimônio privado sem que sobre para o erário público quaisquer ônus. Se o cidadão não estiver satisfeito, que procure a Justiça.
Bem, nunca imaginei como isso poderia acontecer, mas aconteceu comigo. Com o estabelecimento da APA da Massambaba, o bairro da Praia Seca, zona urbana de Araruama, foi considerado área a ser preservada. Foram estabelecidas Zonas de Ocupação Controlada. O loteamento Vila São Jorge - cinquenta anos de matrícula no RGI - ficou com a pior fatia: só é possível a utilização de 15% dos terrenos. O restante deve ser replantado com vegetação nativa.
Ora, quem já havia construído até dois anos atrás, ficou isento. E os que não construíram e não desmataram - o meu caso - perderam 85% da área útil do terreno.
Plano de manejo, orientação para reconstruir a vegetação, encargos do Estado, são coisas que não existem. A cobrança de impostos continua a mesma. E quem quer manter escrituras e registros em dia, suporta o ônus da perda.
Em contrapartida, quem colocou quiosque e o transformou em casa na beira da praia, continua firme, impedindo a visão do mar pelos demais moradores. Um visão dos mapas pela Internet mostra que a região já está bastante urbanizada, com habitações multifamiliares e um verdadeiro conjunto habitacional.
Dentro da reserva, a invasão prossegue. Ali, ninguém se preocupa com documentos e os prédios têm o gabarito desejado pelos proprietários. A alegada "baixa renda" constrói casarões em pequenos terrenos e cria um bairro onde a luz elétrica está presente em todas as casas.
Quer dizer: construção ilegal, invasão de praias e reservas são atividades possíveis. Há mesmo, por dentro da reserva, uma linha de transmissão de energia que serve a uma casa - dizem que de uma autoridade judiciária.
O cidadão que comprou um terreno e quer se manter em acordo com a lei, suporta o ônus de um confisco que aniquila seu patrimônio.
E quem parte para a informalidade, constrói na beira da praia, conta com a complacência do aparelho administrativo estatal que não se manifesta.
Que fazer? Tocar fogo no mato e chamar os Bombeiros?
Tenho a mata porque gosto. Mas, na área desmatada, quero ter o direito de construir o que precisar. Ou será que o fato de preservar a vegetação nativa por gosto só resultará em perda de patrimônio?
A diabólico estrutura democrática acha sempre um jeito de criar encargos para o cidadão comum. Porém, na hora de orientar e realmente garantir a preservação de áreas de reserva, o aparelho estatal falha.
Resta ao cidadão pagar taxas na Prefeitura, certidões nos cartórios, custas na Justiça. Tudo na forma da lei.
Por essas e outras é que a informalidade só faz aumentar.
Como não vou tocar fogo no mato, só me resta processar o Estado. Com a palavra os senhores juízes.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Desarmamaneto

Lá vem de novo esta história de desarmamento. Será um novo plebiscito, o presidente do Senado a deitar falação. Para quê? Dó para gastar dinheiro público e abrir espaço na mídia.
As estatísticas de uso de arma pelo cidadão comum são falhas porque as hipóteses onde os meliantes correm por medo de tiro, não são computadas na estatística.
Os traficantes importam arma do jeito que querem. Nas apreensões, vemos metralhadoras, armas privativas das forças armadas e por aí vai. A lei pune severamente o portar, transportar, disparar - o que não se faz é cumprir a lei.
As imagens de gente andando armada, de traficantes armados em meio aos bailes são inúmeras. Reprimir esta gente é função do Estado, que organiza a polícia. Insisto: novas normas não são necessárias. É só cumprir a lei.
Mas o Estado falha. Falha em educação, segurança, saúde. As imagens dos hospitais são caóticas. As escolas se tornam palco de todo tipo de violência. Esse louco - o que não justifica a reação que teve - foi posto de cabeça para baixo tanto numa lata de lixo quanto numa latrina. E a segurança, via de regra, não existe.
Arrochar a lei serve para complicar a vida do cidadão comum, porque os "bondes", com gente armada de todo jeito, são comuns na cidade. Quem não tem medo de sair à noite? Entendo que é função do Estado garantir a segurança do cidadão comum e apurar os crimes - inclusive roubo de armas.
É a história da cadeirinha: se encontro um amigo na rua, com filho pequeno, não posso oferecer uma carona sob pena de punição séria. Mas a criança pode andar de taxi sem cadeirinha, em pé no ônibus, espremida no trem. Brilhante lei. A corda arrebenta do lado mais fraco. E a tv acha uma graça fazer matéria defendendo o "lobby" da cadeirinha. Mercado é mercado.
Quanto à polícia, defendo o uso de armas não letais, à base de choque elétrico. Muitas mortes podem ser evitadas. Em caso de combate, há que treinar melhor os policiais porque muito tiro é dado sem pontaria.
Por fim, seria bom que os consumidores de drogas, sustentáculos dos traficantes, fonte de renda para o pagamento das armas, deixassem o consumo de lado. Quem conseguirá isso? O bispo, papai noel ou a mula sem cabeça? É só escolher.

terça-feira, 29 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Vela, paixão e saudade

Mar, vela, paixão, saudade.
Mar, nem tanto. Lagoa, sim. É na água, exercitando o corpo, é no caiaque, remando por gosto que percebo a vida renascer. E, caminhando nesta infovia, começo a ver novidades como o caiaque a vela. Fui ao encontro de Danilo, para ver as adaptações que fez. Fui apresentado a Genilson, mas não foi possível esperar o regresso dele para conversarmos no dia em que navegou em Itaipu.
Genilson quer dizer Hidroglass e seu veleiro está na página de sua empresa.
Através de Danilo, cheguei a Paulo Cesar, da Pau Brasil, que fabrica barcos a remo sensacionais. O preço não é convidativo, mas as embarcações deixam um remador com água na boca.
Bem, tenho um velho bote para reformar. E tenho uma vela sucateada, guardada faz algum tempo. Quando falo em reformar o bote, os mais experientes torcem o nariz. Ainda não desisti. Trata-se de um casco de madeira maciça, com fundo chato e borda de 60 cm, mais ou menos.
Nessas horas, me dá saudade de meu pai que morreu sem que conseguíssemos comprar um veleiro de certo conforto para andarmos na lagoa. Parece que a saudade me dá mais forças para pensar no som tranquilo do casco cortando água impulsionado pelo vento.
Se o mais velho se foi, o filho mais novo é o interlocutor, o companheiro das saídas em caiaque, é também quem me acompanha nestas viagens pela Internet.
Em nossas conversas, fica a pergunta: o que seria mais viável? Possivelmente, adquirir um dingue - o monocasco mais simples - para aprendermos os segredos da vela já que sempre fui remador, assim como Felipe que tem caiaque desde 10 anos de idade.
Um laser seria muito arriscado e o HC (não é habeas-corpus, é catamarã mesmo) é arisco demais para um velho pesado e com limitações no andar.
Bom, o primeiro passo está acontecendo, que é arrumar o quarto-depósito de Praia Seca que vai se transformar em oficina.
O segundo passo será uma incursão pelo mundo da fibra. O caiaque de Felipe, com mais de 20 anos, exige alguns reparos e logo farei essa primeira experiência com fibra de vidro.
Como tenho um caiaque largo e ando encantado pelos vídeos de caiaques trabalhando ao vento - bujas, adriças, moitões, manilhas, escotas são termos que vão se pendurando em meu vocabulário - ando decidido a tentar uma experiência com o caiaque, para ver o que acontece. De mais grave, a consequência será voltar remando e, lógico, não vou começar em dia de vento forte, coisa comum na lagoa de Araruama.
O bote vai, depois do caiaque, para o cavalete. Ainda não sei se lhe darei novas cavernas em "V", melhorando o perfil do casco. Sei que terá encaixe para forquetas, um caixa de bolina, enora e carlinga para um mastro, proa levantada - esses planos são antigos mas começam a chegar perto da execução. Comprei uma lona, o barquinho não está mais na chuva e essa lona vai virar uma barraca para garantir o trabalho no quintal.
Outra paixão: as canoas. E se eu transformar o velho bote numa canoa??? Certamente estará mais próximo do tipo de embarcação que estamos acostumados a lidar. Nada decidido ainda.
Por fim, pode ser que, apoiado nas plantas que me enviou a FAO, surja um novo barco, com possibilidade de vela, capaz de garantir conforto até mesmo em situação de águas agitadas.
De mais verdadeiro é o fato do sonho que não morre, da saudade que nos anima e a vontade de superar essa limitação física, que me faz mais lento, porém não conseguiu ainda me aniquilar. E a proximidade do mar, a gana de remar fazem com que a vida ganhe novos nuances de prazer. Fica ainda registrado o companheirismo de Felipe, que muito me ajuda a chegar na água, assim como me cobra o ativação do blog, que andava um tanto esquecido.
Para mim, isso tudo significa viver.