Um beijo atrevido. Abraço inesperado, inesperado olhar a provocar uma dança de pernas sem fim. Como? Nesse imobilismo onde todas as conversas são pela Internet? Sim, certo, mas a saudade abre teatros no peito e monta mundos onde o menino ainda vive.
Vale lembrar um olhar percebido que, dia seguinte, virou combate, o bom combate a que se refere o profeta Vinícius. E os olhos dela, perdidos e confusos entre a areia e mar, a me dizer que o atrevimento foi bem vindo.
Hoje, a chama vai chegando ao fim. Vive-se um amor tranquilo, de paz e momentos interessantes. Mas as lembranças - ah, as lembranças ficaram.
Era mulata, de óculos, bela. E lá vinha eu saindo da Ilha, de ônibus, agarrado com ela, quando minha irmã e colegas entraram no ônibus ... Ainda era tempo de constrangimento, mas ficou por isso mesmo, que o carnaval ia começando e a noiva nem sabia por onde eu andava.
A pele negra acende reflexos na noite. E a vida caminha em corcéis de fogo num hotel da cidade. Negra. E linda. Foi querida, namorada, mas não ficou. E, sem emprego, sem destino, como estabelecer qualquer coisa mais séria?
Pior - e isso acontece ainda no tempo do Pedro II - é trancar no peito a paixão por entender que ela, paquerada pelos mais velhos, atacada por quem podia falar em casamento, pior entender que ela jamais iria me namorar. Fomos amigos, amizade gostosa e eu me deixava perder nos olhos verdes, em nossas intermináveis conversas no ponto do ônibus. Nunca falamos de amor.
Um dia, um beijo, uma pele clara - logo eu, que sempre tive namoradas morenas e daí para mais - me crava um sentimento no peito. Não, não era hora. A música fica eterna, plantado fica o sentimento, com gosto de vinho branco e olhos de não esquecer.
- Quantos casamentos, Tião? - Perguntava meu pai.
- Três, pai.
- Só? Vou contar.
- Não. Só valem os que resultaram em filhos!!!
Ele ria, divertido em saber das minhas loucuras.
Caminhos. Tentativas. Mulheres, sempre belas dentro do momento vivido. A elas agradeço a beleza da vida, o poder recordar e reviver o que aconteceu.
Vale, como sempre relembrar o poeta: Xangô meu pai me deu muitas mulheres para amar ... E, como ele diz, fui atento ao amor em cada tempo, embora tenha causado vergonhosas decepções a algumas companheiras.
Hoje, as pernas cansadas, os bailes acontecem no salão da saudade e têm o colorido alegre dos muitos bons momentos vividos. Só posso mesmo agradecer as mulheres o baú imenso de sensações que elas me deixaram e exibir, com certo orgulho, as cicatrizes marcadas no peito que nem o tempo consegue apagar.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Dia das mães

Dia das mães. Sabe o que irrita? Aquele e.mail dizendo: o presente de sua mãe está aqui. Só que ela não está mais entre nós. Foi uma guerreira, criou nove filhos - sete homens, duas mulheres - deu o melhor de si para estes filhos e ficou muito triste quando perdemos um irmão aos 16 anos de vida.
Ah, como eu me lembro das aulas de Português que me dava, andando pelo quintal com filho no colo, porém firme no conhecimento, orgulhosa de ter sido aluna do Pedro II.
Já mais tarde, sua imagem volta quando saímos na madrugada, na Ilha do Governador, para a pescaria de siris e camarões.
Nossa casa era uma casa farta e amiga, uma mesa sempre pronta, um canto para receber um colega dos filhos - alguém que chegasse de surpresa.
E não dá para ouvir um piano sem me lembrar dela.
Tivemos brigas, divergências principalmente sobre as mulheres da minha vida. Mas, na hora do sofrimento, como era bom saber que ela estava ali, para um carinho, um corretivo, uma palavra amiga.
A fé em Nossa Senhora era inquebrantável, talvez mais forte que o ciúme que sentia de meu pai. O coração não resistiu, ela se foi.
Hoje, quando se fala em dia das mães, recordo um sorriso, os cuidados com todos nós, um som de piano na sala, o perfume de uma comida gostosa.
Do muito que me ensinou, vem grande parte desse amor pela terra, pelos bichos, formado a partir das histórias da Prata, a fazenda de meu avô lá pras bandas do Maranhão. Ela era piauiense, sempre pronta a defender as delícias do seu Estado.
Com seus ensinamentos, me repassou também boa parte do gosto pelos livros.
Minha mãe, com seu jeito simples, enérgico quando preciso, alegre no reconhecer as pequenas grandes coisas da vida, me garantiu - eu nem percebia - tanta coisa boa no meu dia a dia.
Hoje, por sua lembrança, deixo um abraço para todas as mães que participam desta comunidade, amigas e familiares.
Não, não vou ao cemitério. Entendo que vou encontrá-la na flor do jardim, no marulhar da onda, no despencar da cachoeira, ou até mesmo na imagem de Nossa Senhora que lhe dei de presente e que conservo até hoje.
A luz de seu espírito me fez amar a poesia. E vou me lembrar dela sempre como se ela estivesse comigo, ali no sítio. Junto com ela, com seu jeito calmo, vejo meu pai.
Dia das mães. Me emociono. Só me irritam estas mensagens marqueteiras que só querem vender qualquer coisa.
As mães não estão no mercado, estão na alma de cada um de nós.
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