
Gripe - que adianta vacina? - coração que bate preguiçoso e sem ritmo. Acho que é por isso que não consigo batucar .. nem o coração tem ritmo e o peito racha na insegurança das possibilidades médicas. Não importa: quero mesmo é deslizar no caiaque pelas águas da lagoa. Olho a foto do meu perfil e a saudade bate dura. Mas amanhã vamos viajar, ih, até me lembrei: "vamos indo de carona, na garupa leve do vento macio" - Nada, vamos mesmo é enfrentar estrada, maluco ultrapassando de qualquer jeito, placas de sinalização enlouquecidas, carrinhos escondidos para nos multar. O menos grave ainda são buraco e poeira nas estradas da Bicuíba. Mas aí tem a paz das grandes mangueiras, o gemer dos bambus gigantes, a vibração do pé de jamelão que cobre a capela. Cavalos pastam calmos, galinhas ciscam no terreiro e a galinha d'Angola abre o berreiro de sempre - tô fraco, tô fraco - só que fraco não é grupinho das pintadinhas, capazes de matar um galo, se cismarem com ele. Que tem o coração a ver com isso? Simples. o peito puxa o ar gostoso, o sorriso é inevitável e o corpo parece que muda de direção, para achar Deus em cada folha, em cada inseto - lá vem a enorme borboleta azul - em cada flor. Lá vem o Tonho com um saco de tangerinas, vai buscar dúzia de ovos e os últimos queijinhos. Isso é a minha roça:simples, sem enfeites, porém capaz de fazer o coração bater de pressa e a cabeça entender que a vida vale a pena, principalmente no carinho dessa atmosfera que me abraça. Desse jeito, adeus gripe e o coração fica feliz. Para completar, um café na varanda. Aceita? Só falta mesmo acender o "tucunduva" - fogão de lenha - para cozinhar uma costela com aipim. Tem coisa melhor que uma vaca atolada, com uma cachacinha para acompanhar?

