quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo!


Corte de luz.  Isso tem. Além disso, tem jeito de sabotagem. Jeito de gente que pensa em roubar e nada mais. Governo do PT? Nunca tanta gente foi punida, mas a corrupção transcende à política. E os  "empresários" com interesses contrariados, não terão mãos a medir para fomentar o caos. Isso nem chega a ser novidade.
E a Prefeitura de Vassouras devolve ao MEC recursos de investimentos não realizados. Em compensação, falta muita coisa nas escolas. Incompetência, incompetência até para roubar.
Pior: Le Monde adverte que o degelo da calota polar pode acontecer antes do previsto. No Rio, calor nunca registrado. No sul, ventos destroem cidades. Seca, seca intensa no nordeste. E os governantes do mundo continuam agindo como se o estrago não tivesse importância.
Mas tem o circo, Os fogos em Copacabana - pobres moradores - gente bebendo, roubo e mais roubo. O Prefeito anuncia o esquema de fechamento do bairro, enquanto enfrento horas de engarrafamento entre Rio e Niterói: linha Vermelha e Ponte exigiam dos motores e dos equipamentos de ar condicionado dos carros.
Assim mesmo, teremos mais um ano. Sei lá, fico meio encabulado em desejar um Feliz Ano Novo mas, como a esperança persiste, deixo uma mensagem positiva, um abraço aos amigos na certeza de cada um lutará para um mundo menos violento, onde a paz seja verdade e a defesa do meio-ambiente se torne bandeira do cidadão comum e não discurso vazio de politiqueiros travestidos de ecologistas.
Enquanto a água não invade as cidades, vamos aproveitar o mar na esperança de que os ventos possam trazer dias melhores no próximo ano.
Grande abraço.

domingo, 9 de dezembro de 2012


 Segredo da noite

Foge o poema.
 olhos  
 iluminam a noite.
Que mulher passa,
 passa esvoaçante
no escuro do quarto?
Será a dona dos sonhos,
sonhos passados
nas ondas da vida?

Não importa.
O sonho concreto
- carne, osso, emoção –
continua a meu lado
entre a realidade vivida
e a noite compartilhada
nesse calor de outono.

Toco sua pele
volta o sonho,
 real, simples, concreto
 amor devorado
entre as cores da madrugada.
Um beijo me tira do sono
para essa gostosa
sensação de felicidade.

Seria sonho ou realidade?
A resposta se esconde na noite
e a noite,
ora, a noite é silêncio,
mistério,
a noite não conta seus segredos
prisioneiros da escuridão do imaginário.

Quem será mesmo a sombra
no escuro do quarto?
A senhora dos sonhos
a deusa da poesia
ou simplesmente a inspiração perdida
entre realidade e imaginação?
A resposta mora na nuvem
E a luz acesa do quarto
Espanta toda ilusão:
acorda, é hora de trabalhar.

                                               26/03/2010 e 09/12/2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


 Mar perdido

Ruído de mar na pedra
água em verde azul
boca da barra                                                                   
Cristo Redentor

Onda espuma na pedra
caniço verga de peixe
olhos se espalham na baía
Pedra do Morcego
Jurujuba
São Francisco
Icaraí

Eu pescador
confesso a saudade
do tempo de menino
pescando nas Itapucas
sonhos de peixes
esperanças de sereias
encantadas na praia.

Lembranças da casa da minha avó
Meu avô muito sério
Televisão
E de novo praia.

 Envelheci.
As pedras me falam
de água limpa
praia cheia
peixes.

Os olhos não escutam.
Só vêem sujeira
óleo, urubus, plásticos.

Perdeu-se no tempo
o mar de Icaraí.
                      Tião Freitas
 16/04/2008

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Direitos autorais: idiota é a mãe

ais uma vez, texto que escrevo fica bloqueado para meus amigos compartilhares e entra um item chamado "patrocínio". Não gostei. Resultado: fui ver a lei 9610, de 19/02/1998, sobre direitos autorais. A lei é clara. A criação de obras intelectuais, artísticas e científicas está protegida, independente de registro (art. 7º). Pertencem ao autor os direito morais e patrimoniais sobre a obra que criou (art. 22). Em seu art. 28, a lei diz que cabe ao autor o direito exclusivo e utilizar, fruir e dispor da obra literária artística e científica. Ainda segundo a lei, a utilização depende de de autorização expressa e mais: a obra fraudulentamente reproduzida acarreta punição penal, indenização e a autoridade mandará suspender a reprodução. O site "ecommerce.org registra o seguinte: "Uma mensagem em formato de texto jurídico vem se espalhando pelo Facebook. A corrente alerta contra uma tentativa da rede social de fazer uso comercial de dados, fotos e conteúdos postados pelos usuários. O texto é falso e não serve para nada, garantem advogados e porta-vozes da empresa, que se viram obrigados a emitir um comunicado para tentar deter o boato. Mas para especialistas, a corrente mostra que os usuários desconhecem os direitos autorais que detêm sobre suas informações postadas em redes sociais. A mensagem que circulou tanto em inglês como em outros idiomas advertia que o Facebook é agora uma empresa de capital aberto e recomendava aos usuários postar em seus murais o texto jurídico que supostamente os protegeria contra tentativas da rede social de utilizar seus textos, fotos e demais dados. Mas, de acordo com a empresa, “qualquer pessoa que use o Facebook é dona dos conteúdos e das informações que publica, e as controla, tal qual especificam nossos termos de utilização. Elas controlam como essas informações e conteúdos são compartilhados”. Em seus “Direitos e Responsabilidades”, a rede social diz que o usuário retém os direitos de propriedade intelectual dos conteúdos que posta, mas ao publicá-los em seu perfil, dá ao Facebook uma licença para usá-los e mostrá-los dentro de seu sistema." Outro site pega pesado: o "página da notícia.com" simplesmente publica o depoimento de um publicitário muito educado que nos chama a todos de idiotas: "É tudo falso. Robert Scoble, um ícone de mídia social, expressou sem rodeios seus pensamentos sobre a farsa para seus 434 mil assinantes. "Se você está postando sobre direitos autorais no Facebook e não fez uma pesquisa antes, é um idiota." A privacidade do FB é fonte frequente de debate e controvérsia, e a rede social não é sempre a melhor administradora dos direitos de privacidade. Apesar disso, o Facebook fornece um conjunto diversificado de controles de privacidade, e permite aos usuários escolher onde e como a maioria das atualizações de status, fotos, e outros posts é compartilhada. Antes de reclamar sobre privacidade - ou a falta dela - na rede social, certifique-se de, pelo menos, ter tempo o suficiente para explorar os controles de segurança disponíveis para você. E, antes de copiar e colar, ou encaminhar qualquer coisa, siga sempre o conselho de Scoble e faça um pouco de lição de casa primeiro". Recebo o puxão de orelhas, repudio a grossura e digo que eu já estava mesmo fazendo a pesquisa quanto encontrei este texto. Se a lei nos garante? Sim, é certo mas não gosto da história do patrocínio e não gostaria de entrar na Justiça contra o FB. Mas se o FB faturar - seja quanto for - com os meus textos é atitude fraudulenta. Será que terei que voltar para a máquina de escrever ou será que, se eles conseguirem patrocínio, terei que buscar meus direitos na Justiça? Depois o povo se queixa de uma provável indústria de danos morais. Prefiro não demandar. É simples: respeitem o meu, os nossos direitos. E vamos conviver em paz. Não admito a apropriação indevida do que produzo. Ou será que vão querer patrocínio também para este texto?

domingo, 18 de novembro de 2012

Artesão e tv

Artesão e TV Corina repassa: por um mundo melhor, diminua o conforto, aumente a simplicidade. Não se exiba, não demonstre riqueza. Abra mão de tantos aparelhos. Em princípio, concordo. Nossa vida é simples, sem ostentação. Conforto, sim, temos, o suficiente par levar uma vida tranquila. Dívidas? Inevitáveis. Se der - estamos trabalhando para isso - não deveremos mais nada. Por que as recomendações? Reflexo da crise. Esperança de um mundo melhor. Inevitável: a memória atávica, aquele cromossomo transmitido de outras gerações, me faz pensar numa aldeia, simples aldeia, aldeia de muito antigamente. Bem ali, o artesão vive seu dia. Marreta sobe, desce. Ferro incandescente se amolda, vira enxada, ponta de seta, ferradura. Madeira, cortada, recortada, alisada se transforma: cadeira, mesa, estrutura de sela, carroça, armário. Madrugada, sai o artesão em seu caminho. Imagina, pensa, cria, se inspira. E vai a feiticeira, rumo à mata, em busca de ervas, folhas, raízes. Volta alegre, vem trazendo um filhote de pássaro, um ser que precisa de ajuda. Feiticeira. O caldeirão que ferve, a oração fascinante. Mão que cura, palavra que acalenta. Há, nessa memória, infalível tropel de cavalos, homens que chegam com a caça, uma pequena roça plantada num quintal fechado, umas poucas galinhas circulando nos caminhos. Para viajar, era preciso tempo. E sobrava tempo para uma longa conversa, ou para o silêncio imaginativo de quem precisa criar um objeto a partir da própria experiência. Tempo passa, meu Deus, como passa. Eu, artesão, fiz a bancada onde escrevo, mas a máquina depende de energia e a pena se perdeu no tempo. Fiz a estante, o tampo da mesa, o banco de madeira sofrida. Plantei roseira, samambaias e resgatei uma avenca, nascida na parede. Linda avenca. Ainda prefiro o caiaque que o motor do jetsky. Apesar dos quase 70 anos, ainda tenho a esperança de velejar, seja na vela improvisada no caiaque, seja no barco - o velho bote de madeira. Mas meu serrote é elétrico, a furadeira não é arco de pua e os olhos trazem lentes poderosas - pura tecnologia - que me permitem continuar enxergando mesmo depois que o cristalino ficou opaco. Se parte da comida vem da roça, grande parte vem do mercado: as crianças de hoje não sabem de onde saem os ovos, o alface, a beterraba. Querem mesmo é sanduíche de caixinha e nem imaginam como se faz um queijo. Na aldeia, era possível reunir pessoas sob a árvore, para conversar. E era possível escutar, da feiticeira, história incríveis. A feiticeira virou tv, onde os pequenos assistem histórias loucas e podem ver toda sorte de crimes. E a violência toma conta do noticiário. Talvez não acontecesse tanta coisa, mas a violência é antiga. Os homens se preparavam sempre para lutar, defender a aldeia. E cada cidadão era um soldado, cada morador o compromisso de enfrentar o inimigo, que vinha sem avisar. Os ancestrais índios também guerreavam. Tacape, arco e flecha. Veio a pólvora, o estampido, a morte. A tecnologia sofisticou o padrão de agressão. Eu, artesão, aqui parado em frente a uma tela, desenho coisas que a memória sugere. Enquanto isso, o mar parece que cresce e ninguém sabe o que vai acontecer. O fim do mundo??? Ninguém se preocupe. Ele acontece, a cada minuto, para cada um de nós. O remédio é mesmo viver a vida o melhor possível porque, cedo ou tarde, o fim do mundo virá. Com certeza.

domingo, 11 de novembro de 2012

Só hoje. Só hoje, eu queria de novo as minhas pernas. Não que eu as renegue, como estão - nada disso. Ainda consigo me movimentar, posso nadar, andar de bicicleta; dá para viver sem mágoa desse artrose doída. Sim, queria minhas pernas para sair por aí, comprar um baio, calçado nas quatro, palomino de preferência, peito largo, retaco, pescoço bem lançado, bom de aprumos, olhar esperto. Um baio, que não fosse muito arisco, porém esperto no toque do calcanhar, capaz de me levar por aí, sem reclamar. Queria escolher o melhor arreio, a sela australiana que comprei de Paulo, sela grande, confortável, com barrigueiras largas, para firmar o arreio, sem incomodar a montaria. Os estribos são forrados, loros fortes para aguentar o peso das pernas esticadas na marcha contra o vento, a cortar sol e chuva, sem muita direção. Queria forrar a sela com o pelego, vindo lá do Rio Grande, onde o gaúcho não monta sem ele. Freio inox, cabeçada fina e a rédea curta que eu mesmo arrumei. Queria calçar as botinas, a calça jeans de sempre, um blusão qualquer, chapéu de abas não muito largas ou até mesmo o velho chapéu de couro, comprado lá em Petrolina, bem nordeste, bem sertão. É um querer doído, pena do que não fui, saudade do campo, das trilhas de serra, da cerveja bebida longe, sem preocupação com dirigir. Fica registrado. É sonho, sonho que pode ser realidade. Por enquanto, é ginástica, tentativa de refazer peças estragadas dessa máquina que usei além da conta. Enquanto isso, uma nova aventura aparece: vou na madrugada, ali para Charitas, tomar contato com a canoa havaiana. Perco a roça, mas vejo o mar como um grande coração, sem capaz de me receber - a todos nós - para viver ou morrer. De resto, é domingo, dia de comprar jornal, tomar um vinho, comer macarrão para engordar mais um pouco e assistir o futebol no meio da tarde. Acho que dormi de mau jeito: apertei os espinhos do peito, que se remexeram e estão me deixando com o pensamento atrapalhado. Ainda bem que existe o Facebook para a gente conversar com pessoas amigas. Sem problemas: o sol no rosto, lá na rua, vai me deixar feliz. Curtir ·

domingo, 4 de novembro de 2012

Celacanto

Cor do céu: celagem - "a cor do céu ao nascer e por do sol", ensina mestre Aurélio. E a cor do mar? Quem mora nele? Celacanto, diz Vinícius. Celacanto, mostra a tv. O enorme peixe desliza cinza brilhante a 150 metros de profundidade. Deslisa soberbo, olhos vidrados, cinza com remates de azul, nadadeiras que parecem pernas: pré-histórico, explicam os biólogos. parentes saíram do mar para a terra, o celacanto ficou para encantar os mares, majestade entre os peixes, trecho da história do mundo. Palavras loucas: celacantino. E mais: coanictes, crossopterígios do ordem dos coelacanthini. Isso não sei, sei que é um peixe, tranquilo peixe, gigantesco, de enormes escamas - parece armadura - a nadar tranquilo no mar da África, como um cavaleiro armado do tempo das Cruzadas. Mostraram tubarões enormes, cardume de sardinhas sob ataque, mas nada tão soberbo quanto este senhor dos mares a navegar tranquilo, como se os mergulhadores não estivessem ali, jogando luz sobre tanta história. Poeta, o peixe, o velho peixe é simplesmente deslumbrante.

sábado, 27 de outubro de 2012

E a "detenção" termina na próxima semana. Fiz perícia no Detran e a médica me considerou "apto". Nem tive coragem de pedir o selo do "deficiente": acho que a vaidade não deixou!!! Preferi ser considerado apto a poder contar com vaga especial. Pode ser que, dentro de um ano, eu me proponha a comprar um carro novo, quem sabe, um automático, e aí os 40% de desconto podem me tentar. As mudanças foram muitas nos últimos sessenta dias. Primeiro, catarata. Cirurgia em dois olhos. Depois, CNH. Aprovado na perícia, posso dirigir qualquer tipo de carro. Continuo no Gol, arrastando carretinha com caiaques ou cargas. Depois, o início dos exercícios de Pilates. Acho que vou melhorar - pelo menos estabilizar. Planejado está o recomeço lento na bicicleta. Quem sabe, consigo me sentir um pouco mais "apto", como disse a médica lá no Detran. Por sinal, surpreendente o tal do "Poupa Tempo", no Shopping São Gonçalo. Lá, o cidadão tem atendimento em áreas do Estado e da Prefeitura. Tudo limpo, climatizado, organizado. Nem parece atendimento ao público neste Estado do Rio. Um verdadeiro contraste com as instalações do Detran que conhecemos. Fiquei feliz com o "apto". A gente envelhece, passa a usar muletas e as pessoas nos olham com ar de piedade: - Ajuda a ele, diz a senhora do restaurante para meu filho. - Ajudar para quê? Não, ainda posso fazer muita coisa sozinho e isso é importante para mim. Se aceito ajuda? Sim. Felipe, muitas vezes, me entrega as muletas quando vou sair do carro, além de muitas coisas mais. Dil - numa inversão de tarefas - carrega bolsas e abre portas e não permite que nada me falte. Sou muito protegido. Mas, quando caio na água, estou só e feliz. E parto no caiaque - mas dependo do filho para colocar o caiaque sobre o carro. O grave é que não fiquei amargo: gosto da vida, de ler, de rir, de uma boa música, de uma reunião com os amigos. Não consigo viver de queixas e, quando o desespero bate, corro dele. Encaro a minha limitação como algo a ser enfrentado a cada dia, numa batalha constante e surda. Vaidade? Nem me preocupo. Fiquei feliz com o "apto". O plano é procurar me mexer mais ainda, superando as dificuldades inerentes aos males que infestam minha coluna. E como alguém que muda o curso de um barco, vou mudando o curso da vida, o jeito de viver. Vamos ver o que consigo. Ainda mais se existe alguém que me considera "apto". Essa palavra apaga o mal que me faz a onda de olhares de piedade. Gosto de ajuda - é necessária em muitos momentos, fundamental mesmo - agora é muito bom conseguir superar as dificuldades e chegar um pouco mais longe. Isso me deixa feliz. Afinal, estou "apto".

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Quem me acompanha?

Mania de velho é isso: fica revendo o que foi e ruminando o mundo em que vive. As informações rodam na cabeça; já não há tanta força no braço, mas se mexer na gaiola, as ilusões voam em todas as formas e cores. Calma, não dá mais para atravessar o oceano em caiaque. É, mas dá par remar em fim de semana. O braço dói e quebra a confiança em enfrentar o vento forte na lagoa. Também, que importa? Sobra a sensação da água na pele, o marulhar da água no casco da embarcação. Roda cabeça para lembrar que você, um dia, resolveu estudar Direito. Foi sair do velho e bom Pedro II para a Nacional de Direito, antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Até aqui, a vida veio mansa, professor era autoridade, trabalho era reportagem no Jornal do Commercio (desde os tempos do CPII) , polícia era o guarda amigo da frente do colégio e professor muito admirado era Aurélio Buarque de Holanda, capaz de nadar do Calabouço à Urca e nos encantar com sua paixão por Cecília. Direito. A defesa de quantos precisem. Mas a data é importante: 1964. Direito e liberdade. Fecharam o diretório, balearam a faculdade.Éramos todos comunistas, exceção do povo da ALA, capaz de denunciar colegas na comissão de inquérito. E teve professor - Theóphilo - correndo atrás de alunos nos corredores. E diretor - Hélio Gomes - que mandou recolher identidades no salão do Caco, nosso centro acadêmico. Em síntese, em vez de Direito, política. Política do enfrentar repressão. Mangabeira, o grande mestre da Economia, substituído e cassado. Não era escola amiga, era um ringue. Dor de colegas perseguidos, distância do estudo. Qual a diferença entre Direito e Justiça? E a diferença entre lei e direito? E prossigo trabalhando. Cobertura do CGT. E as brigas com a direita estudantil organizada. Democracia? Que direito tenho de dizer o que penso? E hoje? Onde anda o Direito, num lugar onde os legisladores garantem seus salários, salários de funcionários enquanto médicos e professores, que atendem à população, ganham miséria. Há um componente novo, o marketing, filho dileto da propaganda, que nos faz acreditar na honestidade de políticos em campanha e gente honesta não consegue se eleger. Onde o Direito, em sua forma mais pura, onde a mensagem de que a norma se estabelece em favor do coletivo? Nada disso. A norma existe como espada sobre a cabeça de poucos. Irmã do marketing, a burocracia inferniza a vida do cidadão. A norma fala em prazos - advogados os sabem fatais - mas a burocracia protela e distrata o cidadão nas coisas mínimas, em processos sem visibilidade para a mídia. O juiz manda publicar um edital. E lá se vão mais de 30 dias para que se cumpra a ordem. Quando se fala de saúde, o caos é pior. No lugar de enfermeiras - leia-se gente que cursou faculdade, nível superior - contratam-se meninas que não sabem a diferença entre um dreno e um agulha. A sucessão de mortes por incompetência, por desconhecimento está assustadora. Lógico. Hospital virou comércio recrutador de mão de obra barata. E quantos casos desses acontecem sem que se apure. O ditado é velho. O agrônomo erra, a terra mostra. O médico erra, a terra esconde. Onde a lei? Onde o estado? Onde a fiscalização? Soube que, em município do Estado do Rio, há devolução de recursos enquanto falta merenda nas escolas. O cidadão comum não pode andar armado; as quadrilhas circulam nas cidades com armamento pesado. Direito. A lei seria a expressão do Direito, a formulação do norma de conduta a ser seguida pelo cidadão, em benefício da vida em comum. Nada disso. A aldeia cresceu e abriu espaço para que se cultive o direito da força, o direito da elite esmagar os demais. O comércio - onde circula o dinheiro - apresenta o quilo de 900 gramas, o metro encolhido, embalagens com menor peso, produtos de menor qualidade. E as geladeiras, desligadas à noite, significam economia e um risco para a saúde. A norma existe, quem cumpre? Sobra ao cidadão o direito de ser agredido no meio da rua, o medo da polícia, do fiscal e até do bandido. A cabeça volta ao tempo da Faculdade, ao tempo das brigas na rua. O poder sem limites. E agora? Quem limita os grandes interesses que fazem crescer as cidades de forma desordenada? Por que pretender regulamentar o uso do meio-ambiente no campo, quando as cidades explodem em absurdos? No final, velho e, pelo menos agora, travado em casa, penso que exerci meu direito de cidadão, quando pedi que apurassem a morte de meu pai. O Ministério Publico mandou apurar, mas o aparato policial perdeu-se na burocracia e nada fez. A prova maior está no próprio atestado de óbito, mas o que adianta? Como faço para que prevaleça a meu direito de ver o fato apurado? Lei. Direito. Sobra, ao homem comum, a condução superlotada. Já a elite se vê obrigada a colocar cadeirinhas em seus carros para o transporte da prole. E se eu, num carro sem cadeirinha, preciso dar uma carona à mãe e filho, que vão caminhando no sol, como faço? Deixo os dois na estrada, ou contrario a lei? Sociedade estranha, onde os viciados financiam o tráfico, a bandidagem que cresce, formando verdadeiros exércitos nas "comunidades". Sociedade descomprometida, que financia o luxo dos tribunais, das casas legislativas e deixa à míngua pacientes de hospitais públicos e estudantes de escolas municipais. Sociedade onde o intrincado do poder se realimenta da ignorância e usa todos os meios - comunicação de massa - para manter na ignorância e na desinformação a maior parte da população. E eu, velho, aposentado, sem movimento, fico pensando que o mundo está cada vez mais estranho, com muita obesidade e muita fome. Só mesmo fazendo como o poeta: pára o bonde que eu quero descer!!! Do contrário, além do desabafo, vou partir para beira do mar e esquecer lei, Direito - estas coisas - em benefício da poesia, que nos permite olhar a flor, a mulher encantadora ali na areia, sem pensar no monstro incrustado entre o prédios da cidade. É melhor mesmo - para não explodir - tomar uma cerveja no quiosque da Bel. Quem me acompanha?}

sábado, 20 de outubro de 2012

Sem mau humor

Pastorinhas" - eu nem sabia, a primeira versão falava em "moreninhas". O CD, fora de mercado, tem por base um programa da rádio da USP sobre cem carnavais. Omar,,,, (não consigo entender o sobrenome) vai contando as particularidades das marchas que fizeram sucesso em carnavais e conta que "mamãe eu quero" data de 1936! "A Jardineira é de l939"! E o Tião nem era nascido! Som, Face, um vinho daqui a pouco, pedaços da "Vandé Globe" com seus navegadores solitários e veleiros dispostos a enfrentar o mar em torno do pólo norte. Nada de rua. Nem de praia. Apenas as imagens da internet, os contatos necessários, a descoberta de que a FioCruz atende emergências de gente picada de peçonhentos até nos finais de semana. Recheio o dia com as pequenas rosas do quintal, rolinhas com seus arrulhos discretos, gaviões que, do alto, buscam presas nas áreas verdes. Tempo passa lento, arrumo textos de trabalho enquanto o CD muda em chorinho para ninguém botar defeito. Como será a vela do caiaque? Que vai acontecer na perícia do Detran na próxima sexta-feira? Como estará o mar sob esse sol que vai arrebentando com as nuvens? As respostas se perdem nesse ruminar solitário nas teclas do computador. Sil diz que é bom mudar e acha bonito quando comento sobre o tempo que tenho de casado. E acho bonito como essa amiga está sempre presente e se agrada dos textos que vou escrevendo por aqui. Mas que tudo, o que faço é garimpar paciência, paciência para ficar preso, paciência para agradecer a vida, mesmo longe da roça e do mar. E paciência para encarar essa possibilidade como uma virada definitiva, povoada de Pilates e, provavelmente, de passeios de bicicleta. A velhice tolhe movimentos, quebra esperanças mas nos deixa refazer planos. É preciso imaginação para procurar novas formas de encantamento, mares imaginários onde o barco da vida navega saberes ainda não experimentados. E o choro, um cavaco a gemer sob a bancada, me dá asas para voar em direção à alegria de estar vivo. Enquanto houver um sopro de amor, ainda que doa o peito, que a coluna reclame, será preciso encontrar um fio de esperança para garantir um sorriso e, quem sabe, uma postagem da Corina para rir com a Mafalda. Vale, por que não, achar as brincadeiras da Lili, sempre alegre e depois chorar de saudade com os queijos de leite de cabra. Apesar da violência presente, das dificuldades, ainda consigo acreditar na luz do sol como remédio para a tristeza e achar beleza até na preguiça que tv mostra. Quero fechar a porta ao mau humor.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aniversário, de novo!

Aniversário: de novo! A festa já começou. De Curitiba, João me manda “civilização” de Niall Ferguson. A emoção começa a pular no peito. Os amigos não são poucos. Resultado é que as surpresas se tornam inevitáveis : trazem um sentimento gostoso, que sacode o peito. A cena, 69 vezes repetida, me agrada. Gosto do meu aniversário. Gosto de reunir as pessoas, de oferecer uma comida e partilhar nossa mesa com gente que gosto. Este ano, teremos um programa diferente: praia. Prainha no Arraial. Vamos os três: eu, Dil e Felipe. Espero que o sol nos ajude e o mar dê uma força. A vontade é almoçar um peixe e aproveitar o dia, o dia 23 de agosto. O início da trajetória acontece em 1943, ali na Casa de Saúde São Sebastião, na rua Bento Lisboa, próximo ao Largo do Machado, no Rio. Reza a lenda que, enquanto eu nascia, os sinos da Igreja de N.Sra. da Glória marcavam o meio-dia. A mesma Nossa Senhora me protege no batismo, desta vez na Igreja do outeiro. Não faz muito tempo, Débora, a única filha casou-se na Igreja do Largo do Machado. Fui criado no Rio. Logo, papai transferiu-se para volta Redonda – foi pioneiro quando criaram a Companhia Siderúrgica Nacional. É na casa da Bela Vista que começam as recordações: papai de bicicleta, mamãe tocando piano – o velho junto – e eu, junto ao pé do piano, aprisionando besouros; lembro do fogão de lenha, a espargir doce de goiaba; a coruja de asa quebrada no fundo da garagem; banda de música, trombada de automóvel . “Trombada” era uma palavra tão estranha. Voltamos ao Rio. Desta vez, para a roça: era o ano de 1950 e fomos morar em Jacarepaguá. O bairro era um paraíso. Feira aos domingos, missa na Igreja do Loreto, A Igrejinha da Pena lá no alto do penhasco . No batizado do meu irmão, ainda era uma aventura chegar de carro até lá. Fui crescendo e, de bicicleta, andei o bairro inteiro. Subi a estrado do Quitite até a serra. Menino, fui feliz no bucolismo daquele bairro, com direito a amigos, fogueira, leite no curral, tombo e mais tombo de bicicleta. Aniversário. Avós, tios, primos reunidos nos almoços lá de casa. Passa o tempo e já posso escolher a comida: carne assada costurada com recheio de farofa, refresco de maracujá e a torta de banana – torta que ninguém faz igual à que minha mãe preparava. O tempo passa, a vida muda, mas fica o gosto da alegria de reunir pessoas. Já na Praia Seca, fizemos uma bela vaca atolada. Amigos, amigos vindos pela mão de terceiros, muita gente. Irmãos que chegam. Mas nem todos chegaram para partilhar. Súbito, chega uma panela de vatapá, uma comida diferente do que estava sendo servido. Muita gente queria. Vexame. A panelinha era especial para o moço refinado, moço importante da zona sul, que não queria saber de costela e outras coisas mais. O remédio foi pedir desculpas aos demais presentes, porque a iguaria não deu para quem quis. Acontece. Superado o vexame, a alegria continuou e o dia terminou na praia, na velha e bela Massambaba. Outros aniversários, outros churrascos, colaborações interessantes como o leitão assado que nos foi presenteado por Beto e Vanessa. Vale lembrar o violão de Emanuel – Vanessa colocou no Youtube uma interpretação de Asa Branca. Claudinha sempre nos brinda com alguma delícia entre as muitas que faz com maestria. Houve um aniversário, aqui na Maria Paula, que passei o dia comendo aos poucos, bebericando alguma coisa e montando Fandango, o cavalo doido que me obedecia, mas que era um perigo em potencial. Ary e tia Ivette sempre presentes. Uma nota triste: foi em agosto, entre o dia dos pais e uma data antes do final do mês que papai nos deixou. Era presença em nossa mesa e, quando se cansava, ia para sua própria casa , parede-e-meia com a nossa. Como os dois filhos mais velhos também são de agosto – 30 e 31 – a comemoração do ano passado foi conjunta, com o sempre agradável violão do Emanuel. A ideia me agrada e se vai se repetir sempre que possível. Enfim, são 69 anos. O sítio está de pé, o corpo é que não. Perdi altura, a coluna entortou , o coração hipertrofiou, os rins querem virar pedra, o sistema digestivo – a moedeira – virou artigo de luxo: nada de comida pesada. Pelo menos a companheira continua a meu lado, num caso de amor que já dura mais de 30 anos e, se depender de mim, seguirá até o dia em que Deus resolver que não faço mais aniversário. Até aí, terei devorado todos os churrascos possíveis, as feijoadas, as cervejas, as cachacinhas. Afinal, sou um guloso assumido, vício que não tem mais jeito. Brincadeira. Este velho anda comedido, pedindo salada em vez de carne, nem sempre , mas é o necessário. Certo é que, como nos tempos de menino, não escondo a expectativa com o que virá, esperando abraços que me falam de amizade, de carinho e de bem-querer. Se vier uma chuva de pensamentos positivos, não nego, ficarei feliz comemorando mais um aniversário. E falta só um ano para chegar aos 70. Quero chegar até lá para comemorar e agradecer novamente a Deus tudo que a vida tem de bom. Continuar vivo já é um milagre. O segundo milagre é gostar da vida como eu gosto e – apesar dos problemas – seguir feliz a maior parte do tempo. Para completar, só mesmo um mergulho na água limpa, para sentir a força de estar vivo. E feliz.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Coração bagual

Quem tem coração historicamente bagual, vagabundo, incoerente, nem sempre está feliz. Foi assim que, outro dia, bati na tristeza que nem gente ruim bate em cachorro louco. Tranquei a mágoa no peito, chorei para dentro da alma, sem dizer nada, sem reclamar. Pior é essa água teimosa, que quer escorrer dos olhos. Nada feito. Não me entrego. A represa está cheia, o coração repica que nem sino desafinado, falha, remancha , mas não para. É tudo que preciso. Vinicius , em CD, dá seu recado. O Quarteto em Cy esbanja melodia. A música popular brasileira desfia em poesia os revezes do amor. E vou transformando a mágoa em esperança nesse dia chuvoso. Nem sempre a gente escuta o que espera. Nem sempre a saúde é a que a gente quer, nem sempre o corpo nos deixa vier como queremos. Há um cansaço dilacerante no acordar. E a música que se houve parece vento desencontrado, sem direção firme. Então, abro a vela do silêncio e deixo que o barco da vida vá singrando águas desconhecidas e rezo para não perder a rota. O peito dói, coração que falha de novo, artrose que me tolhe os movimentos, estômago que não me deixa comer queijo. Viajo na internet. Fico feliz com a flor e o cavalo branco, fico feliz com a cabra e ovelha postadas ali no Facebook. Rememoro caminhos que andei, busco alegria nos bichos, danço danças imaginárias que me fazem encontrar trilhas para achar a vida melhor. O frio não me incomoda. O que me incomoda é perder o leme, é perceber a impotência para mudar o destino. Nessa história de ficar em casa, acho que ando vendo novela demais, TV além da conta. Do contrário, qual seria a explicação para me lembrar de lances já tão antigos, como a gaúcha que me chamava de negrinho, nas belas cartas de letra miúda e caligrafia caprichada. Foi um amor de relâmpago – “Xangô meu pai me deu tantas mulheres para amar”, diz Vinícius. A imaginação viaja. Penso que, daquele amor, quem sabe, poderia ter nascido uma criança- outra filha? Não sei. A vida tem tanta novela, que as novelas da telinha não me surpreendem. Nunca mais nos vimos e nos perdemos no mundo. A criança, hipótese possível, surge no imaginário deste escriba. Até pouco tempo, ainda tinha a bolsa de viagem com que ela me presenteou, quando nos encontramos em São Paulo. As cartas eram apaixonadas. Não fui parar em Porto Alegre, preso enredado em amores, na pele morena de mulheres daqui do Rio. Eu e a gaúcha de olhos claros nos perdemos na rotina da vida. O fato das mulheres morenas marcarem a trilha da minha vida não é uma verdade absoluta. O tom da pele variou de um extremo ao outro. Não fica uma gota de arrependimento. Sempre mulheres que me encantaram sem explicações. É assim mesmo: viver não tem muita explicação. Meu pai era de Petrópolis, minha mãe, do Piauí. Criado na roça, em Jacarepaguá, sempre me encantei pelas coisas do nordeste, mas me apaixonei pelo Rio Grande do Sul. Nunca fui um carioca típico. As pessoas postam na internet o fato de serem cariocas de verdade. Sou falso. Nasci no centro do Rio, mas gosto da vida rural. Gosto desse jeito gaúcho de amar a terra, de falar em querência - o amor ao torrão em que se nasce. Fui do samba, da cerveja, da passeata, mas tudo passou. Criou-se no peito um amor por um país sem praia, cheio de rios, montanhas, planícies, de gente que dança, canta, bebe, monta a cavalo, que é pobre, que é rica, mas que fala ocê e não tem medo de ser caipira. Fiquei perdido. Não sou da roça, nem da cidade. E hoje, enquanto a chuva cai, vejo meu universo se despedaçar – parece coisa de igreja, universo em desencanto – não só viajo pelo passado, como busco alegria nas postagens das redes sociais, onde a amizade sempre oferece um apoio a quem anda fora do prumo. É preciso sacudir a poeira. Em busca de alternativa, vou para o jardim. Quem sabe, para alegrar o dia, uma inesperada flor tenha desabrochado na estufinha? Ou será que terei que cortar muitas estradas para achar um poente encantado, capaz de curar o peito desse sentir sem sentido? Relembro estradas na caatinga, cerrados de flores e frutos, gigantescas árvores da floresta. Viajo no imaginário das terras por onde deixei minhas pegadas, seja na areia da praia, nas coxilhas gaúchas, na poeira das estradas, ou no asfalto sem alma. Meu coração – diria o gaúcho – é bagual. Ainda bem. Certo que é bagual velho, que não tora cerca, nem procura briga. A vida me fez entender que é preciso permanecer calado – não se larga o porto em meio à tempestade - até que o gelo se derreta e o sol crie reflexos na pá do remo que corta a água. Firme no leme, fujo do abismo e a música sempre trará novos encantos para alegrar o peito.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia dos pais. Felipe chega com um livro de presente para mim: "O mar esquecido por Deus", de Derek Lundy. Mas do que isso, ficou conosco desde quinta-feira até segunda, nas andanças entre Bicuíba e Praia Seca. Fomos remar juntos por duas vezes. E, com nordeste pesado, ele atravessa, no fim de tarde, no remo, a distância entre a praia dos pneus e a Pernambuca. Débora chega no sábado. Chega cansada, agitada, depois de ir a Vassouras, ajudar o irmão. Mas chega. E traz um presente lindo, um pequeno "três mastros" numa garrafa. Mas que tudo, veio e trouxe Marcelo e Sofia. Fica conosco no domingo o tempo possível para quem tem atividade na segunda-feira. Sofia me trouxe um singelo terço, agarrado a um texto - coisa do colégio onde estuda. Se os presentes me agradam, a presença física, o abraço são fundamentais. Como foi bom cortar a lagoa de novo no caiaque, como foi bom nadar, andar de bicicleta neste fim de semana. O almoço de domingo foi na casa do meu irmão Odilo. Sobrinhos presentes, comida maravilhosa. Ali, na Praia Seca, o dia amanhece e a saudade faz relembrar os passos do velho, vindo lá da casa dele,para tomar um café conosco. Era sempre uma conversa gostosa, uma vontade forte de continuar vivo e de superar a doença. Foi papai que nos levou para Praia Seca, no tempo em que aquilo ali era deserto. Os 14 quilômetros de estrada de chão eram uma longa sequência de buracos. Ele, ainda bem, entrava na água sem medo. O pescador me chama: cuidado com seu pai, ele entre nesse mar e a correnteza é um perigo! Nada. Ele tinha um grande apego pelo mar. Já no final, ia constantemente à beira da praia, apenas para olhar as ondas. E ficava feliz com isso. Era feliz com uma boa mesa, rodeado de filhos, noras, netos, netas, amigos. Era feliz com uma boa música que, ao final, ouvia alto por conta da dificuldade auditiva. Chegou ao fim sem negar o gosto por uma mulher. E não se fazia de rogado se chance lhe dessem. O coração era do tamanho do mundo. Ajudava a todos, sempre que possível. Mas que isso, foi um batalhador incansável para criar seis filhos e duas filhas. Seu lamento era a saudade do que ficou, ainda jovem, no caminho. E hoje, quando Ian publica as fotos do mar, do mar da Massambaba, o Mar da Praia Seca, parece que ele está ali, nadando entre as ondas, curtindo o frio da água com suas braçadas cadenciadas de campeão de natação. Na emoção dessa saudade, deixo um abraço a todos os pais. Enquanto puder, vou continuar apreciando as ondas, a pequena mata na frente de casa para lembrar do pai que nos levou para aquele canto de praia onde, de alguma forma, nos mantemos unidos. Apesar da morte, a alegria prossegue quando a gente monta um almoço na mesa comprida da varanda. Nessas horas, dá para perceber a presença de meu pai,mantido vivo nas lembrança de cada um de nós. A vida se renova sempre. A presença dos bisnetos, a referência dos netos faz com que, no exemplo de meu pai, eu arranje forças para superar dificuldades e continuar vivo. a água gelada não me mete medo. Só tenho dificuldade com o gelo das pessoas. Mas quando o azul do mar rebrilha junto à areia, eu entendo que há força para prosseguir.Nessa hora, é fundamental o apoio dos filhos. Essa relação pai-filho é melhor que qualquer remédio. Por isso fica um abraço a todos os pais.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Feiticeiras Docemente feiticeiras Abrigadas entre paisagens Coloridas, diáfanas paisagens Capturadas entre sonhos Delicados sonhos indecifráveis. Feiticeiras, amigas feiticeiras Amigas de outras vidas? De quanto sofrimento superado? Amigas, doces amigas Já sem vassouras, usam turbinas E cifram mensagens pela internet. Fazem feitiço de chocolate e açúcar Cultivam flores Adoçam frutas Cuidam de animais Salvam filhotes E precipitam cascatas encantadas De sentimentos irretocáveis Entre olhares deliciosamente ternos. Nos bosques em que caminham Plantam esperança de um mundo melhor. E, banhadas de poesia, Mais parecem fadas A nos dizer que o mundo – paralelo mundo – tem lua cheia, por do sol, aurora esse mundo tem a beleza do amor compartilhado amor a nos guiar – como bússola – no sentido de toda a felicidade. Só mesmo feiticeiras para desvendarem Em cada texto A forma simples de sorrir para a vida E transformar desesperança Numa trilha onde nada nos agride E o coração bate feliz Ouvindo ao longe O cantar terno – eterno das feiticeiras. SCTFreitas – 17/07/2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Olhares Um olhar. As pessoas choram, sorriem, falam apenas com os olhos. E, nos olhos que me procuram, acho imagens que ficam gravadas na memória. Ah, a memória. Memória que revive fatos, fatos que revelam o olhar. Tudo vai do momento. Ficou na lembrança o olhar doído – quanta dor havia ali – de minha irmã, quando. ainda no hospital, teve a notícia de que havíamos perdido um irmão. Um belo irmão. Um estudante do Pedro II, menino de muitas namoradas, menino de chegar do colégio trazendo um jornal de baixo do braço. Havia muita dor naqueles olhos que remetem às lembranças tristes daquele dia. Mas há olhares mais amenos – os olhos claros da colega do Colégio, minha amiga, muito amiga, que nunca foi namorada. Eram olhos verdes, belos olhos que – sem dúvida – foram motivo de paixão. Dona de um belo cabelo negro, de um sorriso que me encantava, me seduzia, ela nunca soube o quanto fui apaixonado por ela. Mas ela tinha namorados mais velhos, que podia casar com ela e eu, apenas um estudante capaz de dar aulas de matemática – acreditem, é verdade – ficava perdido no sonho que nunca revelei. O tempo do Pedro II terminou. Outra paixão foi inevitável. Ela soube, não adiantou. Foi então que um amor se fez forte. Fui em frente, sem acreditar nas advertências que me diziam que o sonho - a mulher belamente morena, de olhos negros e beijo interminável – podia trazer também muita atribulação. Que me importava? O necessário é viver a vida, vida que nos marca, fere, ensina. Ficou o aprendizado, ficaram conquistas, recordações indispensáveis. De novo, olhos claros entram em minha vida. A imagem que mais tenho relembrado diz dos tempos de luta, do desgaste em enfrentar a repressão a cada dia. Foi assim que quase deu um soco num amigo. Eu chegava para trabalhar. Na porta do elevador, ganhei um tapa no ombro e virei para revidar seguro. Ainda bem que parei. Era só um amigo, amigo brincalhão, de caminhadas e festas. Tudo terminou num abraço. Se o soco saísse, seria a respostas de quem sabia que, a qualquer momento, poderia ser atingido pelas garras do poder. Se fosse, o que adiantaria a reação? Viver era arriscar. Mãos desarmadas, poesia contra um monstro de garras e armas. E a gente fazia passeatas- grandes e pequenas manifestações, alfinetes no dorso do estrutura repressiva. Mesmo nessas horas tensas, havia ternura. Nesse dia, a Cinelândia era um mar de gente, principalmente estudantes. Acho que foi na passeata do cem mil, no centro do Rio. Entre os grupos, encontro uma colega de Faculdade. Ela veio sorrindo, os belos olhos azuis alegres. Sua mão delicada toca meu cabelo, num sinal de carinho. Gesto que encanta. Gesto que fica marcado. Passamos a ser companheiros. E, quantas vezes, esperamos juntos o início de passeatas, ali pelo centro do Rio. Como me lembro do dia em que, de braços dados, andávamos pela rua Uruguaiana, como se nosso interesse fossem as vitrines. Eu, de terno, ela num vestido amarelo, muito bonita, cabelo comprido, solto – um belo cabelo, não essas coisas de alisamento, que mais parecem filetes de madeira. A ansiedade, o medo nos aproximava mais e mais, até que o grito explodiu pela rua, em mais um episódio de protesto. Tantas vezes saímos juntos. E fui levá-la em casa. Tínhamos ainda amigas e amigos em comum. Ela da zona sul, eu já casado – casado e infeliz – mas capaz de deixar rolar manso um sentimento difícil de se realizar. O encanto não se quebrou: ela desconfiava, mas não soube exatamente o quanto foi clandestinamente amada. Olhos. Belos olhos. Olhos que falam de paixão, de bem querer, de tristeza, de alegria. Olhos que me disseram tantas coisas, coisas que não revidei e deixei que seguissem pela vida os muitos sonhos que estes olhos provocaram. Ainda bem que as lembranças coloridas ainda me falam da emoção que um olhar pode provocar. Um dia, olhos escondidos atrás de óculos me levaram por um caminho mais tranquilo e as emoções vividas se transformaram num tesouro que a memória guarda. Quando a noite é de lua, revisito os arquivos aprisionados e estes olhos saltam para o papel, como quem tira peças de um baú encardido pelo tempo. As oportunidades existem, viram verdade ou lembranças. Mas como é bom poder lembrar as emoções vividas e contar histórias de encantamento e paixão. É certo: as paixões aconteceram e a vida não me negou a alegria de saber dos muitos sorrisos que ganhei pelo caminho. No orgulho de ser velho, há um lugar especial para desentranhar as emoções, os gritos que ficaram presos na garganta. Recordar é festa que se transforma em texto. É sempre uma alegria relembrar os momentos onde o amor está presente. A alma agradece por conseguir abrir este velho baú de lembranças, pleno de recordações. Há sempre um orgulho nos olhos pela vida vivida – não importam erros e acertos. O Melhor foi viver.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

No tempo, sem vela Construir o barco desenhado na luz a luz refletida de teus olhos. Navegar o imaginário barco entre ondas de alegria depressões tristes na perspectiva esculpida de vento e mar. Navega comigo Vem decifrar a noite atravessar a tempestade para dormir em águas calmas sob um céu de lua cheia. Vem comigo nessa rota de sentir e amar azimute riscado a magia entre estrelas de noite sem nuvens. Vem comigo - já é dia - perceber o sal na pele o gosto de amar a vida nessa trilha azul de sonho e mar. Vem. Vem navegar comigo. Embarque sem promessas num tempo de pescar estrelas onde - se vai faltar o quê, não sei- haverá suprimento de carinho e tantos beijos quanto se puder contar. Vem para esse universo onde a delicada beleza de teu olhar faz flutuar nosso barco para um encontro - quem sabe porto - nesse mar onde sobrevive esperança de felicidade. Vem, vem navegar comigo sem velas, sem amarras vem simplesmente buscar comigo - sempre juntos - a rota riscada no céu chamada felicidade. Vem comigo. Juntos, vamos chegar. São Gonçalo, 9 de julho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

São João, 2012 Sexta-feira, dia 22. O dia amanhece noite, chuva que chega pesada. A fogueira, já pronta, ganha uma camisa de lona preta - parece um totem por trás do galpão. A chuva passa. Vamos para a rua - é preciso fazer compras. A chuva passa, o sol toma conta do dia, noite vem, fico até tarde, frente ao fogão de lenha - tucunduva - ajudando a preparar as carnes do feijão e assar os primeiros bolos. E o sábado amanhece iluminado, a chuva foi embora, abro a capela, monto o som e o som caipira toma conta do espaço. Chegam Felipe com Débora, Giselle e Marcelo, mais Sofia. Chega Tarso com Maria Eduarda e a família vai chegando para o almoço. Charrete no ponto, cavalos selados, Uno rebelado como se reclamasse pela ausência do dono. Seis horas, velas acesas, fogueira, de mais de 2 metros, espalha calor por todos os cantos. Chegam amigos, moradores da vizinhança. Irmãos, sobrinhos, primos, amigos e dois destaques: Maria Eduarda, de poucos meses e tia Vanda, com quase noventa anos, acompanhando Maurício e Vandinha. Idades extremas. Emoção. Já é noite, Felipe sai e vai buscar a tia em Bacaxá. Dionéia supera obstáculos e chega ao sítio, apesar das dificuldades.
Feijão para todos, aipim, batata doce, canjica. Tem pinga, tem cerveja - esqueci o quentão - e a brincadeira rola até tarde, com salsichão, linguiça e frango assados na beira da fogueira. O pinhão é o toque do sul. A festa só pára depois que Ian deixa o violão e Tarso abandona o pandeiro. Leandro, incansável, nos ajuda a guardar o necessário, Felipe segue para Praia Seca com Giselle e vamos dormir cansados, com gosto de satisfação no peito. O domingo - de novo começo na capela - já não é tão forte, mas tem feijão no almoço, verde da horta, pimenta. O tempo continua firme e, no fim do dia, mais dois cães chegam ao sítio, presentes de Antonio e Isabella. Quando o Gol deixa o sítio, Felipe na direção, a lua, em quarto crescente, divide com as estrelas a festa da noite. Tudo certo: o coração bate feliz em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro. Não tem como negar, a vida caipira me deixa feliz. Curtir ·

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Campo e cidade
Eu, cavaleiro, a Deus confesso que monto e gosto de tocar meu cavalo estrada a fora. E uso espora, uso cipó e novamente monto - minha espora é rombuda ou cega e pouco uso o cipó. E tenho cachorro, cachorro amigo, mas capaz de morder os outros. Eu, churrasqueiro, confesso o sal na carne, a pinga, a cerveja vez por outra. E gosto de ver vegetariano a se fartar de carne. E pesco o peixe, como. Mato o carneiro e ponho para assar. Mas respeito o peixe: não enfio um anzol na boca de um bicho só para me divertir. O peixe enfraquece, não come, perde a guerra pela sobrevivência nas águas. Isso é diversão de ecologista. Eu só pesco para comer. O escritor me condenou ao fogo da inferno. Derrubei árvores, é certo. Mas será que ela plantou tantas árvores como eu? Será que a mesa da casa dele não é de madeira? E as cadeiras, de que madeira serão? Hipocrisia. Indiretamente, ele também derruba árvores, na medida em que se utiliza de madeira e, gente fina, madeira de lei!! No entanto, como gosto de uma salada! E, muitas vezes, nem como carne. Guloso assumido, peno - como agora - para reduzir um pouco o peso. Mas planto horta, cuido das plantas (agora está difícil) compro a ração dos cavalos, gosto de ver as aves soltas no sítio, piso na terra e o prazer da pele cortando a água, eu não consigo dispensar. Fico pensando nessa gente que não quer consumir nem couro, mas consome - e aos montes - os derivados de petróleo. Fico intrigado com que destino dariam às aves, aos bovinos, ovinos caprinos e outros mais, se eles não servissem mais para alimentação humana. Quem iria cuidar dos animais? Bichinho é muito bonitinho. Mas não aconselho ninguém colocar uma vaca na área do apartamento. Não é poodle. Será complicado. Engraçado: a gente da cidade critica a turma do campo, mas ninguém quer reduzir a fumaça de carros e fábricas, o bafo urbano que esquenta o mundo. Nos empreendimentos rurais, será preciso recompor matas, proteger áreas ciliares - está certo - mas como será nas cidades? Vão continuar destruindo árvores e quintais para plantar prédios e estradas? Vão continuar invadindo as margens das lagoas, como em Itaipu e Jacarepaguá? A velha lagoa, dos tempos d'eu menino, já nem existe mais: é um fio d'água em comparação ao espelho que tinha. Não ignoro o degelo das calotas, a estupidez de muita gente com os bichos, a elevação do nível do mar, as chuvas descontroladas. A preservação não precisa de leis, mas de técnicos, de orientação ao produtor rural, de fiscalização inteligente. Fora disso, vejo muito jogo de mídia, muito modismo e um julgamento parcial, onde o homem da cidade transforma o mar em penico e quer prender quem produz alimentos. Ainda acredito no homem: um banho de bom senso, o aporte técnico poderão ajudar a resolver a questão da preservação e, espero, meu churrasco estará garantido por muito tempo. Quanto à salada, a gente planta. De resto, há um trio pesado, guerreiro, terrível: homem, cavalo e cachorro. Cada um mais parecido com o outro: os três se metem em batalhas juntos, matam o semelhante mas se harmonizam em belo trio andando pelos campos, como faz a gente do sul. E vamos continuar cavalgando, até as cidades transformem tudo em prédios. Só um detalhe: a onde vão produzir comida, fibras e energia? Nas áreas dos apartamentos? Curtir · · Seguir (desfazer) publicação

sábado, 12 de maio de 2012

Amélia, minha mãe

Amélia. Ex-aluna do Colégio Pedro II. Toca piano, pinta - é prendada. E estuda. Está no Complementar de Medicina, o passe para a Faculdade. Mas o dentista José Alvaro, a leva para outro destino. Os dois se casam. Filhos. Nove filhos. Vida simples, de luta, de muito carinho com essa tropa criança, sete homens e duas mulheres. E me ensinou português, com apoio da gramática do Antenor Nascente e sempre um filho escanchado no quadril. Mestra em comidas gostosas, sabia preparar um mocotó, um feijão, o bife nosso de cada dia, os quitutes baianos aprendidos com tia Lourdes. Enérgica, alegre, ciumenta. Amélia de verdade. Simples, muitas vezes briguenta, tantas vezes carinhosa. Trazia uma saudade alegre da terra, dos campos da Prata, do calor do Piauí - a terra sem montanhas. Minha mãe, que me quis no Pedro II, que foi fundamental para que oito filhos concluíssem o ensino universitário - apenas uma das mulheres formou-se por uma universidade privada. Todos se formaram em instituições públicas. Um dia, o menino que nascera no primeiro dia do ano, foi embora. Era um domingo de Páscoa. A tristeza tomou conta dos olhos de minha mãe - de meu pai também - mas ela não desistiu nem deixou que faltasse nada naquela bendita casa da Ilha do Governador. Gostava de poesia, de música e de conversa inteligente. Ciumenta? Sim sem dúvida. Eu também sou. Mas foi o traço de seu amor, o gostar do mar, do sol, da vida que ficaram em minha memória. A saudade é grande. Como também é imensa a saudade de meu pai. E hoje, quando vejo o sítio verde, com bichos espalhados por todos os cantos, não há como deixar de lembrar como ela gostaria daquele cantinho e como iria depositar, com muita fé, uma rosa aos pés de Nossa Senhora, no altar da capelinha. Minha mãe, Amélia de verdade, foi uma guerreira de coração doce e muita fé. Nessa saudade doída, fica minha homenagem a todas as mães, nesse dia em que, apesar do aspecto comercial, o mundo se curva diante das mulheres que têm a grande função de nos fazer viver. E são elas que podem nos ensinar a espalhar amor nesse mundo ensandecido. Meu abraço a todas as mães.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Veto: um grito sem sentido

Veta Dilma. O grito está no ar. Eu pergunto: veta o quê, cara-pálida urbanóide? Os loteamentos estão transformando os municípios em megalópolis. Ali na esquina, um shopping foi construído na beira o riacho. A urbanização está sendo responsabilizada por 40% dos grandes desastres. Será que vão reflorestar 15 m às margens o rio Maracanã? Para não perder a amazônia, o governo incentivou a ocupação e financiou o desmatamento. Assim mesmo, há claros sinais de que outras forças querem ocupar a região. Está certo: não é para desmatar. Há projetos sérios que mostram que a floresta pode ser explorada sem ser destruída. Os seringais são prova disso. Mas não é transformando o produtor rural em bandido que iremos resolver o problema do meio-ambiente no País. A vacância legal, em caso de veto, poderá ser bem pior. A questão não é política. É técnica. Não se pode querer que áreas de produção se transformem em florestas, mas também é certo que plantar em determinadas áreas é absurdo. Assistência técnica, orientação, pesquisa podem ser bem mais úteis que essa guerrinha do veta não veta. Diz a teoria: matem o campo, as cidades morrerão de fome. Matem as cidades, o campo as reconstruirá. A demanda por alimentos é crescente. E será difícil voltar a ser como em 1.500, até porque ninguém pensa em devolver à natureza os espaços ocupados pelas cidades. Culpar a área rural por problemas ambientais é fácil. Quero ver produzir alimento sem trabalhar a terra. Tem mais: a madeira da sua mesa, o algodão da sua roupa, a fibra de coco do estofamento do carro, a borracha dos pneus - isso para não falar em alimentos, tudo vem da produção rural. Será que quem produz merece ser encarado como bandido? A preocupação com meio-ambiente é válida, mas a presidente deve vetar exatamente o quê e por que???

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um piano me conta de Chopin nesta manhã. Cabeça roda, voa, varanda da casa da Ilha. o grande Flamboyant ( pétalas que flamejam na minha lembrança, vermelhas) e as folhas da jiboia coladas no tronco. O som do piano, polonaise, toma conta da casa, casa que se desmorona com a morte de minha mãe. E ontem? Jacarepaguá. Tia Yara me conta que demoliram a casa que foi de meu avô, ali na Gabinal, esquina de Caribu, a grande ladeira que descia para o curral do general, onde papai comprava leite todas as manhãs. Faz tempo, o curral virou indústria. Não foi só isso. Demoliram muito mais. Demoliram um Jacarepaguá inteiro, onde sítios viram prédios, onde os carros engarrafam ruas, como a Araguaia, que conheci sem calçamento, quase um caminho, por onde andei de bicicleta. A velha escola só tem entrada pela rua Mamoré, não pela três Rios, como era antes. Carros, muitos carros. Comércio. Onde foi parar o bairro onde estudei na escola pública, por ondei de bicicleta para todo lado, desde Cascadura até a serra do Quitite? Onde estão os sítios, o avião que caiu na serra, os pescadores e caçadores vindos da lagoa, o rio Fundo, cercado de pastagens por todas as margens? Nada mais existe. Recupero pedaços, rastros, lembro do taxi de seu Joaquim, ou de seu Alfredo que nos levavam para casa em situações emergenciais. Gado no meio da rua? Não, nada disso, Nem gado existe mais, nem Corumba montando belos cavalos. Há prédios enormes prédios. Passaram uma borracha no meu passado: as imagens sobrevivem apenas na memória. Tombos de bicicleta, galinhas no quintal, papagaio perdido no cajueiro, menino de braço quebrado, o velho Ford 37 do vovô. Tudo isso ficou mais vivo na viagem à Jacarepagua´. Uma das tias teve o apartamento desmontado e foi transferida para uma internação de idosos, onde conta com assistência durante 24 horas. Como vida se esvai. Já não existe mais a sala com os galos de prata, os álbuns de fotos estão à nossa disposição e ninguém valoriza os diplomas de dentista, emitidos pela então Universidade do Brasil, num papel muito especial. Quadros, louças, livros, enfeites, documentos - tudo se mistura às peças de pano necessárias a uma casa. As escrituras de imóveis - todos vendidos - já não têm a menor utilidade. O patrimônio, vendido, transformou-se em recurso financeiro, devidamente depreciado pelo sistema bancário, com suas regras onde só ganha o banqueiro. E a previdência, para o qual o tio contribuiu com 20 salários e depois 10 (limitação legal) corroeu a pensão da tia que anda próxima de dois salários. Fica uma dúvida sobre o viver, o guardar e a doença que consome o cérebro, memória das pessoas. Além disso, me pergunto como será minha roça, dentro de 50 anos. Olho o bairro onde moro - Maria Paula, em São Gonçalo - e não vejo mais terrenos baldios. O bairro sofre um processo de modernização assustador, com todas as consequências da urbanização. Que mundo, que tipo de cidade teremos? Quando se discute Código Florestal, os produtores rurais ficam na berlinda apesar da responsabilidade de produção de alimentos para cada um de nós. Na outra ponta, os loteamentos vão destruindo a natureza para implantação de novos bairros, emendando cidades que acabam se transformando em gigantescas megalópolis. O som de Chopin, pela manhã, teve gosto de mágica, de presente bem urdido, daqueles que a gente recebe, ri, chora, sente o peito tremer. Foi como se música viesse para compor a trilha sonora de tanta coisa vivida. Amizade é assim: nos manda um carinho, um mimo, sem nem saber que está enviando um vinho gostoso para clarear a trilha. De concreto, o dia de hoje teve peixe, vinho branco, farofa de dendê e banana. Fica marcada a sensação do prazer da comida gostosa, feita em casa. E a polonaise ressoa como uma benção no fundo dos meus olhos. Cada vez concordo: a alegria é necessária e é fundamento viver a vida com felicidade. É por isso que fujo para o verde. Quero me esconder na paz da capela à beira o lago, na sombra do bambuzal. Canta, sabá. Imita o compositor. E a música de Deus fala de paz na manhã ensolarada da Bicuíba. A neta virá. Só resta mesmo sentir a sensação de que o sonho existe e está presente no dia-a-dia. Ser feliz é simples. Basta olhar em volta a beleza da vida que se reconstrói. Um pouco do passado fica na cadeira de balanço do papai ou na cadeira de balanço que foi da minha avó. Meu orgulho é conservar coisas que foram deles. Assim, o exterior destrói imagens, mas a gente consegue elaborar dois sentimentos: a esperança nos passos dos filhos e netos e a saudade dos que vieram antes de nós. A vida segue, vou sem medo da morte, procurando fazer com que cada dia me dê de presente um sorriso de felicidade, que pode ser o som de Chopin, agarrado no e-mail da manhã. Tem o lado bom da modernidade: os amigos estão presentes em nosso cotidiano, apesar das distâncias. Analiso sentimentos, brigo com a tristeza, enfrento as limitações físicas e não deixo de gostar da vida, vida onde existe carinho, amor, companheirismo, solidão, livros, bichos, amizades: com certeza, eu sou feliz.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Lembranças na madrugada

Madrugada. 5.30. Acordo. Sono foge entre s cobertas. O ar não funciona direito, esquenta o quarto. Sono arisco! Vem e foge! E as lembranças - nem sei a razão - vão se enfileirando em lances mistos de sonho e realidade.
Rostos e mais rostos se apresentam, como se eu abrisse um baú de boas lembranças. Rostos. Principalmente rostos. Rostos de mulheres. É interessante como a face fala mais que os corpos.
Ah, aqueles olhos que eu acompanhava até a Praça Mauá, Um sorrir terno, ternura no falar e olhos de água, profundamente amigos. O tempo do Colégio acabou e só nos encontramos mais uma vez. Ficou a lembrança - que bela lembrança!
Passeata dos 100 mil. Uma mão amiga empurra meu cabelo testa acima, num gesto de carinho e encontro um belo sorriso de uma amiga de cabelos compridos. Conversamos muito, não passei disso. Mas a lembrança é minha, bem guardada.
Durmo. As lembranças ficam. Louras, morenas,negras, distantes, próximas. Sem preconceito, sem discriminação.
Acordo para a realidade de um coração fisicamente quebrado e - sorrindo - penso que há motivos de sobra para as encrencas sofridas.
Foram três casamentos, quatro filhos, três mulheres muito amadas, sem dúvida, sem medo. Outras foram também muito amadas - há sempre espaço neste peito bagual, um tanto irresponsável em sua forma de sentir.
Sempre um olhar, sempre um sorriso. Faz tempo, a porta anda fechada para o amor, mas escancarada para afetos, amizades. Há sempre espaço neste barco-peito, em mar aberto, ou nave, em asa do vento, a voar sem destino.
E, se num descuido, um sorriso, um olhar ultrapassarem a porta?
Acho que este coração, que ainda pensa que é gente, vai pular, vibrar mas vai ficar perdido na paisagem, inebriado em tempestades a sonhar com o tempo em que o mundo não tinha limites e nem se respeitava a distância - São Luiz do Maranhão que o diga - para achar um olhar, um sorriso capazes de acender a vida.
Já dizia seu Arthur - ele no desenho, eu no texto, quanto trabalho fizemos juntos - que cachorro comedor de ovelha, só matando.
Mas, apesar do coração fendido, continuo vivo. O patrão do céu ainda não me deixa pular do bonde.
Enquanto posso, curto as lembranças e me encanto com a beleza, o sorriso das mulheres, e me consolo com Vinícius a defender a importância de um certo molejo de amor machucado na beleza de todas as mulheres do nosso cotidiano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Animais: a pomba da paz

Acordei preocupado: assinei uma campanha em favor do direito dos animais.
Mas, que direitos? Vão acabar com meu churrasco? Ou será que vão proibir as senhoras da sociedade de maltratar seus animais, pendurando neles tudo que é tipo de enfeite?
Será que não poderemos mais montar a cavalo?
E se o cão violento do vizinho vier a morder uma pessoa na rua, não posso mais enfrentá-lo de cipó na mão?
Há uma proposta radical vegetariana que propõe que não se use nem se coma nada de origem animal. Adeus seda. Bom, sobram o algodão, as fibras sintéticas vindas do petróleo.Eca, fibra sintética é terrível.
Vamos ver: nada de cinto de couro, nem ovos fritos, nem queijo.
Fica a pergunta: o que o mundo fará com os rebanhos existentes? Quem irá criar galinhas, porcos, bovinos, caprinos e outros?
Mas vamos voltar à proteção aos animais. Existe uma Ong no Rio Grande do Sul que luta contra o chicote, usado por carroceiros. Justo. O castigo excessivo precisa mesmo ser combatido. Mas o Código Penal está aí. Lei existe, basta cumpri-la.
Falam muito do rodeio - e mal - porque os pobres " boizinhos" seriam maltratados. Perigo, ali, quem corre é o peão. Aqueles touros são tratados a pão-de-ló e nada mais fazem do que pular 30 segundos. Sedém? A corda é apenas ajustada. Se for muita apertada, não há animal que pule.
Não ligo pra rodeio porque acho monótono. Fica cansado. Daí a achar que estão maltratando o pobre boizinho, é coisa de urbano que nem sabe o que é touro, nem o que é corda, nem tem ideia de como a coisa funciona.
Agora, a culpa de tudo é da própria natureza. Aperte um touro holandês e ele não vai pular. Mas os mestiços zebuínos pulam e, se puderem, pisam o peão.
Não tem peixe e briga? Se juntar dois, um morre. E os franguinhos da ninhada de galos de briga arrebentam a cabeça uns dos outros, de tanto brigarem.
Está certo, almas piedosas, o homem se vale disso para se divertir. Não sei se é o social e politicamente correto, mas como não tenho pretensões a ser padrão de correção, acho exagero urbano a história de achar que todo animal é bonzinho.
Parece que a gente lá do mato só serve mesmo para produzir comida. E, assim mesmo, os urbanos acreditam que comida vem do supermercado: eu vi, na minha casa, uma menina de 15 anos dizer que não gostava de leite de vaca, mas sim de leite de caixinha.
A mesma menina disse que não queria ovos de galinha de quintal, mas sim de caixinha, "porque receberiam tratamento" .
Para finalizar, uma história de pombos. Eu era menino, o pai fez um pombal numa mangueira. Um dia, um filhote, quase pronto para voar, caiu do ninho de cima no apartamento inferior. Os donos do ninho arrebentaram a cabeça do pobre, que acabou morrendo. Bela pomba branca da paz ....