terça-feira, 21 de agosto de 2012
Aniversário, de novo!
Aniversário: de novo!
A festa já começou. De Curitiba, João me manda “civilização” de Niall Ferguson. A emoção começa a pular no peito. Os amigos não são poucos. Resultado é que as surpresas se tornam inevitáveis : trazem um sentimento gostoso, que sacode o peito. A cena, 69 vezes repetida, me agrada. Gosto do meu aniversário. Gosto de reunir as pessoas, de oferecer uma comida e partilhar nossa mesa com gente que gosto. Este ano, teremos um programa diferente: praia. Prainha no Arraial. Vamos os três: eu, Dil e Felipe. Espero que o sol nos ajude e o mar dê uma força. A vontade é almoçar um peixe e aproveitar o dia, o dia 23 de agosto.
O início da trajetória acontece em 1943, ali na Casa de Saúde São Sebastião, na rua Bento Lisboa, próximo ao Largo do Machado, no Rio. Reza a lenda que, enquanto eu nascia, os sinos da Igreja de N.Sra. da Glória marcavam o meio-dia. A mesma Nossa Senhora me protege no batismo, desta vez na Igreja do outeiro. Não faz muito tempo, Débora, a única filha casou-se na Igreja do Largo do Machado.
Fui criado no Rio. Logo, papai transferiu-se para volta Redonda – foi pioneiro quando criaram a Companhia Siderúrgica Nacional. É na casa da Bela Vista que começam as recordações: papai de bicicleta, mamãe tocando piano – o velho junto – e eu, junto ao pé do piano, aprisionando besouros; lembro do fogão de lenha, a espargir doce de goiaba; a coruja de asa quebrada no fundo da garagem; banda de música, trombada de automóvel . “Trombada” era uma palavra tão estranha.
Voltamos ao Rio. Desta vez, para a roça: era o ano de 1950 e fomos morar em Jacarepaguá. O bairro era um paraíso. Feira aos domingos, missa na Igreja do Loreto, A Igrejinha da Pena lá no alto do penhasco . No batizado do meu irmão, ainda era uma aventura chegar de carro até lá. Fui crescendo e, de bicicleta, andei o bairro inteiro. Subi a estrado do Quitite até a serra. Menino, fui feliz no bucolismo daquele bairro, com direito a amigos, fogueira, leite no curral, tombo e mais tombo de bicicleta.
Aniversário. Avós, tios, primos reunidos nos almoços lá de casa. Passa o tempo e já posso escolher a comida: carne assada costurada com recheio de farofa, refresco de maracujá e a torta de banana – torta que ninguém faz igual à que minha mãe preparava.
O tempo passa, a vida muda, mas fica o gosto da alegria de reunir pessoas. Já na Praia Seca, fizemos uma bela vaca atolada. Amigos, amigos vindos pela mão de terceiros, muita gente. Irmãos que chegam. Mas nem todos chegaram para partilhar. Súbito, chega uma panela de vatapá, uma comida diferente do que estava sendo servido. Muita gente queria. Vexame. A panelinha era especial para o moço refinado, moço importante da zona sul, que não queria saber de costela e outras coisas mais. O remédio foi pedir desculpas aos demais presentes, porque a iguaria não deu para quem quis. Acontece. Superado o vexame, a alegria continuou e o dia terminou na praia, na velha e bela Massambaba.
Outros aniversários, outros churrascos, colaborações interessantes como o leitão assado que nos foi presenteado por Beto e Vanessa. Vale lembrar o violão de Emanuel – Vanessa colocou no Youtube uma interpretação de Asa Branca. Claudinha sempre nos brinda com alguma delícia entre as muitas que faz com maestria.
Houve um aniversário, aqui na Maria Paula, que passei o dia comendo aos poucos, bebericando alguma coisa e montando Fandango, o cavalo doido que me obedecia, mas que era um perigo em potencial. Ary e tia Ivette sempre presentes.
Uma nota triste: foi em agosto, entre o dia dos pais e uma data antes do final do mês que papai nos deixou. Era presença em nossa mesa e, quando se cansava, ia para sua própria casa , parede-e-meia com a nossa.
Como os dois filhos mais velhos também são de agosto – 30 e 31 – a comemoração do ano passado foi conjunta, com o sempre agradável violão do Emanuel. A ideia me agrada e se vai se repetir sempre que possível.
Enfim, são 69 anos. O sítio está de pé, o corpo é que não. Perdi altura, a coluna entortou , o coração hipertrofiou, os rins querem virar pedra, o sistema digestivo – a moedeira – virou artigo de luxo: nada de comida pesada. Pelo menos a companheira continua a meu lado, num caso de amor que já dura mais de 30 anos e, se depender de mim, seguirá até o dia em que Deus resolver que não faço mais aniversário. Até aí, terei devorado todos os churrascos possíveis, as feijoadas, as cervejas, as cachacinhas. Afinal, sou um guloso assumido, vício que não tem mais jeito.
Brincadeira. Este velho anda comedido, pedindo salada em vez de carne, nem sempre , mas é o necessário. Certo é que, como nos tempos de menino, não escondo a expectativa com o que virá, esperando abraços que me falam de amizade, de carinho e de bem-querer. Se vier uma chuva de pensamentos positivos, não nego, ficarei feliz comemorando mais um aniversário. E falta só um ano para chegar aos 70. Quero chegar até lá para comemorar e agradecer novamente a Deus tudo que a vida tem de bom. Continuar vivo já é um milagre. O segundo milagre é gostar da vida como eu gosto e – apesar dos problemas – seguir feliz a maior parte do tempo.
Para completar, só mesmo um mergulho na água limpa, para sentir a força de estar vivo. E feliz.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Coração bagual
Quem tem coração historicamente bagual, vagabundo, incoerente, nem sempre está feliz. Foi assim que, outro dia, bati na tristeza que nem gente ruim bate em cachorro louco. Tranquei a mágoa no peito, chorei para dentro da alma, sem dizer nada, sem reclamar. Pior é essa água teimosa, que quer escorrer dos olhos. Nada feito. Não me entrego. A represa está cheia, o coração repica que nem sino desafinado, falha, remancha , mas não para. É tudo que preciso. Vinicius , em CD, dá seu recado. O Quarteto em Cy esbanja melodia. A música popular brasileira desfia em poesia os revezes do amor.
E vou transformando a mágoa em esperança nesse dia chuvoso. Nem sempre a gente escuta o que espera. Nem sempre a saúde é a que a gente quer, nem sempre o corpo nos deixa vier como queremos. Há um cansaço dilacerante no acordar. E a música que se houve parece vento desencontrado, sem direção firme. Então, abro a vela do silêncio e deixo que o barco da vida vá singrando águas desconhecidas e rezo para não perder a rota. O peito dói, coração que falha de novo, artrose que me tolhe os movimentos, estômago que não me deixa comer queijo. Viajo na internet. Fico feliz com a flor e o cavalo branco, fico feliz com a cabra e ovelha postadas ali no Facebook. Rememoro caminhos que andei, busco alegria nos bichos, danço danças imaginárias que me fazem encontrar trilhas para achar a vida melhor.
O frio não me incomoda. O que me incomoda é perder o leme, é perceber a impotência para mudar o destino. Nessa história de ficar em casa, acho que ando vendo novela demais, TV além da conta. Do contrário, qual seria a explicação para me lembrar de lances já tão antigos, como a gaúcha que me chamava de negrinho, nas belas cartas de letra miúda e caligrafia caprichada. Foi um amor de relâmpago – “Xangô meu pai me deu tantas mulheres para amar”, diz Vinícius. A imaginação viaja. Penso que, daquele amor, quem sabe, poderia ter nascido uma criança- outra filha? Não sei. A vida tem tanta novela, que as novelas da telinha não me surpreendem. Nunca mais nos vimos e nos perdemos no mundo. A criança, hipótese possível, surge no imaginário deste escriba. Até pouco tempo, ainda tinha a bolsa de viagem com que ela me presenteou, quando nos encontramos em São Paulo. As cartas eram apaixonadas. Não fui parar em Porto Alegre, preso enredado em amores, na pele morena de mulheres daqui do Rio. Eu e a gaúcha de olhos claros nos perdemos na rotina da vida.
O fato das mulheres morenas marcarem a trilha da minha vida não é uma verdade absoluta. O tom da pele variou de um extremo ao outro. Não fica uma gota de arrependimento. Sempre mulheres que me encantaram sem explicações. É assim mesmo: viver não tem muita explicação. Meu pai era de Petrópolis, minha mãe, do Piauí. Criado na roça, em Jacarepaguá, sempre me encantei pelas coisas do nordeste, mas me apaixonei pelo Rio Grande do Sul. Nunca fui um carioca típico. As pessoas postam na internet o fato de serem cariocas de verdade. Sou falso. Nasci no centro do Rio, mas gosto da vida rural. Gosto desse jeito gaúcho de amar a terra, de falar em querência - o amor ao torrão em que se nasce. Fui do samba, da cerveja, da passeata, mas tudo passou. Criou-se no peito um amor por um país sem praia, cheio de rios, montanhas, planícies, de gente que dança, canta, bebe, monta a cavalo, que é pobre, que é rica, mas que fala ocê e não tem medo de ser caipira.
Fiquei perdido. Não sou da roça, nem da cidade. E hoje, enquanto a chuva cai, vejo meu universo se despedaçar – parece coisa de igreja, universo em desencanto – não só viajo pelo passado, como busco alegria nas postagens das redes sociais, onde a amizade sempre oferece um apoio a quem anda fora do prumo. É preciso sacudir a poeira. Em busca de alternativa, vou para o jardim. Quem sabe, para alegrar o dia, uma inesperada flor tenha desabrochado na estufinha?
Ou será que terei que cortar muitas estradas para achar um poente encantado, capaz de curar o peito desse sentir sem sentido? Relembro estradas na caatinga, cerrados de flores e frutos, gigantescas árvores da floresta. Viajo no imaginário das terras por onde deixei minhas pegadas, seja na areia da praia, nas coxilhas gaúchas, na poeira das estradas, ou no asfalto sem alma. Meu coração – diria o gaúcho – é bagual. Ainda bem. Certo que é bagual velho, que não tora cerca, nem procura briga. A vida me fez entender que é preciso permanecer calado – não se larga o porto em meio à tempestade - até que o gelo se derreta e o sol crie reflexos na pá do remo que corta a água. Firme no leme, fujo do abismo e a música sempre trará novos encantos para alegrar o peito.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Dia dos pais. Felipe chega com um livro de presente para mim: "O mar esquecido por Deus", de Derek Lundy. Mas do que isso, ficou conosco desde quinta-feira até segunda, nas andanças entre Bicuíba e Praia Seca. Fomos remar juntos por duas vezes. E, com nordeste pesado, ele atravessa, no fim de tarde, no remo, a distância entre a praia dos pneus e a Pernambuca.
Débora chega no sábado. Chega cansada, agitada, depois de ir a Vassouras, ajudar o irmão. Mas chega. E traz um presente lindo, um pequeno "três mastros" numa garrafa. Mas que tudo, veio e trouxe Marcelo e Sofia. Fica conosco no domingo o tempo possível para quem tem atividade na segunda-feira. Sofia me trouxe um singelo terço, agarrado a um texto - coisa do colégio onde estuda.
Se os presentes me agradam, a presença física, o abraço são fundamentais. Como foi bom cortar a lagoa de novo no caiaque, como foi bom nadar, andar de bicicleta neste fim de semana. O almoço de domingo foi na casa do meu irmão Odilo. Sobrinhos presentes, comida maravilhosa.
Ali, na Praia Seca, o dia amanhece e a saudade faz relembrar os passos do velho, vindo lá da casa dele,para tomar um café conosco. Era sempre uma conversa gostosa, uma vontade forte de continuar vivo e de superar a doença.
Foi papai que nos levou para Praia Seca, no tempo em que aquilo ali era deserto. Os 14 quilômetros de estrada de chão eram uma longa sequência de buracos. Ele, ainda bem, entrava na água sem medo. O pescador me chama: cuidado com seu pai, ele entre nesse mar e a correnteza é um perigo!
Nada. Ele tinha um grande apego pelo mar. Já no final, ia constantemente à beira da praia, apenas para olhar as ondas. E ficava feliz com isso.
Era feliz com uma boa mesa, rodeado de filhos, noras, netos, netas, amigos. Era feliz com uma boa música que, ao final, ouvia alto por conta da dificuldade auditiva.
Chegou ao fim sem negar o gosto por uma mulher. E não se fazia de rogado se chance lhe dessem. O coração era do tamanho do mundo. Ajudava a todos, sempre que possível.
Mas que isso, foi um batalhador incansável para criar seis filhos e duas filhas. Seu lamento era a saudade do que ficou, ainda jovem, no caminho.
E hoje, quando Ian publica as fotos do mar, do mar da Massambaba, o Mar da Praia Seca, parece que ele está ali, nadando entre as ondas, curtindo o frio da água com suas braçadas cadenciadas de campeão de natação.
Na emoção dessa saudade, deixo um abraço a todos os pais. Enquanto puder, vou continuar apreciando as ondas, a pequena mata na frente de casa para lembrar do pai que nos levou para aquele canto de praia onde, de alguma forma, nos mantemos unidos.
Apesar da morte, a alegria prossegue quando a gente monta um almoço na mesa comprida da varanda. Nessas horas, dá para perceber a presença de meu pai,mantido vivo nas lembrança de cada um de nós.
A vida se renova sempre. A presença dos bisnetos, a referência dos netos faz com que, no exemplo de meu pai, eu arranje forças para superar dificuldades e continuar vivo. a água gelada não me mete medo. Só tenho dificuldade com o gelo das pessoas. Mas quando o azul do mar rebrilha junto à areia, eu entendo que há força para prosseguir.Nessa hora, é fundamental o apoio dos filhos. Essa relação pai-filho é melhor que qualquer remédio. Por isso fica um abraço a todos os pais.
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