quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Uma dúvida, uma paixão
Uma dúvida, uma paixão
Navegante na vida.
Praiano ou sertão?
Um caiaque, um remo
uma vela? Um pano a cortar o céu?
Já nem sei
o velho foi embora
sem barco a vela
logo ele
coragem de morar ali
bem na beira-mar
sem a namorada
sem se amedrontar
com a morte ameaçada.
Eu cavaleiro, cavaleiro de São Jorge,
subindo morro da capela
capelinha do rebentão.
Ai, essa dúvida: um barco, um caiaque?
Mas o cavalo bateu os cascos
olhos vivos
- Não, grita a consciência
Sim, diz a paixão.
É pescaria, é samba
é churrasco, é vida,
amigos, família.
E eu, que mal sei rezar,
só peço a Deus que me escute
que me deixe cavalgar onda e vento
que me deixe navegar um cavalo
belo cavalo
nas estradas de areia
no sol do meu sertão.
E que a viola nos ache
entre a fogueira e o sereno
na noite de São João.
A paixão não se desmonta,
cavalga meu coração.
Um cavalo na noite
Ai insônia,
quero dormir!!
Tem um cavalo,
um cavalo correndo na minha cabeça
Volto no tempo
Maysa, paixão
- me deixaram sozinho
gordo sem namorada
Depois - a vida ensina -
fui em frente.
Sei que vou te amar
Castigo, depois a quimera se espuma
mas a morena
- Quantas, pergunta meu pai
Não sei.
Quero uma cachaça - os americanos reconhecem, é brasileira,
não pode.
Um vinho. Nada disso - lei seca noite a dentro
sem dirigir.
Meu São Jorge - dono do cavalo mais belo -
o que eu faço da vida???
Sai insônia, foge de mim.
E se ela vem na Infovia, faceira, delicada?
Capoeira no Youtube - não poço jogar!
Apenas navego
esse cavalo imaginário-realidade
tropel pesado no meu viver.
Ai insônia,
quero dormir!!
Tem um cavalo,
um cavalo correndo na minha cabeça
Volto no tempo
Maysa, paixão
- me deixaram sozinho
gordo sem namorada
Depois - a vida ensina -
fui em frente.
Sei que vou te amar
Castigo, depois a quimera se espuma
mas a morena
- Quantas, pergunta meu pai
Não sei.
Quero uma cachaça - os americanos reconhecem, é brasileira,
não pode.
Um vinho. Nada disso - lei seca noite a dentro
sem dirigir.
Meu São Jorge - dono do cavalo mais belo -
o que eu faço da vida???
Sai insônia, foge de mim.
E se ela vem na Infovia, faceira, delicada?
Capoeira no Youtube - não poço jogar!
Apenas navego
esse cavalo imaginário-realidade
tropel pesado no meu viver.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Inflação sem poesia
Peço ajuda: quem foi o poeta de "pare o bonde que eu quero descer?"
Mas o bonde não pára; nem tem mais bonde, tem esse mundo endoidecido, onde o monstro ressurge das cinzas: a inflação está de volta.
Quem viveu em tempos de inflação, sabem bem do que eu falo. E o comércio - fácil verificar - aposta sério no descontrole dos preços. As diferenças de preço andam assustadoras. O comércio aposta no aumento do poder aquisitivo do povo e o sobrepreço passa a ser a política adotada. Um quilo de peru, na época de Natal, chegou a R$16,00. No início de janeiro, foi possível pagar, por quilo, R$4,00.
A matéria de "O Globo" de domingo - Inflação de botequim - mostra como o prazer do carioca, a diversão da mesa de bar, está custando mais caro a cada dia.
Num mundo em crise, o Brasil tem achado caminhos para escapar. Porém há indicadores de que a crise pode chegar por aqui. Nem quero falar de política, razão ou responsabilidade. Quero considerar que, apesar de índices positivos, a miséria continua muita, a violência nos deixa acuados atrás das grades e os mega projetos aumentam de preço assustadoramente.
Fala-se em Olimpíada. Sim fala-se apenas em construções. Não se sabe de programas para selecionar e treinar atletas. Esses tipos de programas deixam pouca margem para a roubalheira.
Está certo, o salário ainda não desaparece em uma semana, mas o carrinho do supermercado fica mais caro a cada dia. E volta o desespero de correr atrás de preços mais baixos. Onde vamos parar? Não sei. Fica a torcida para que os economistas de plantão consigam manter o dragão sob controle. A tentação do lucro fácil, a conformação do povo que paga o que lhe cobram são fatores que alimentam a inflação.
Há coisas absurdas mesmo. Não é só no Rio. O ponto badalado de Praia Seca é a Bodeguita. Nunca tinha parado por lá. Almocei nesse comércio na quarta-feira de cinzas. Caro. Filé-mignon para duas pessoas: mais de R$50,00. Bom, eu me lembrei do famoso filé do Moraes, lá de São Paulo. Lá a gente paga e se delicia. O preço não impressiona, o que impressiona é a qualidade.
Triste ilusão. Cortaram e serviram uma carne dura, um arroz sem gosto e uma bata frita sem graça. Ora, sou gordo assumido, carnívoro sem arrependimento. Sei quanto custa a carne no mercado. E sei o que é o filé mignon. Sem chances. Paguei, não reclamei, mas me senti enganado. A conta, por contado chope, foi a mais de R$200,00 para quatro pessoas. Pior: para comer uma carne dura que não passou perto do filé.
Ganhar dinheiro não é crime. Todo mundo quer, mas será que é preciso vender gato por lebre? Será que vale a pena criar uma onda inflacionária de consequências desastrosas?
Há horas em que a gente desanima. Mas o poeta já disse que o bonde não pára, a gente tem que seguir em frente.
Agora, além do calor, das catástrofes, dos governos corruptos, ainda teremos que enfrentar a inflação? Não dá.
Assim fica difícil olhar a lua. Não há poesia que aguente.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Cerrados, gosto de Brasília
Brasília. Cerrado na cabeça. Ninguém gosta? Eu gosto. Vivi bons tempos por lá. Sexta-feira, encontro com os amigos e o grande prato típico de lá: carne de sol, mandioca (cozida ou frita) paçoca e um belo feijão de corda com manteiga de garrafa. Uma cerveja e haja festa para o colesterol. Bom demais!
Empadão goiano - o palmito amargo - também é muito bom, mas nada se compara à carne de sol, servida do centro-oeste ao nordeste, com gosto e fartura.
Nos tempos de Sobral, o prato do fim de noite era a panelada: dobradinha, batata e ... cerveja. O Ceará tem também uma bela carne de sol, um bom feijão macaça, vigna - caupi, nunca, ervilha de vaca e .... depois eu digo - mas o cearense tem vergonha de feijão de corda, prefere feijão do sul e não assume que come carne de "criação". Batucada com os amigos da Embrapa, samba que acabava lá em casa. Em destaque, ainda, uma boa cachaça sem marca, de rolha, vinda de Tianguá.
A buchada de bode só acontecia quando, na pedra, Antonio das Porcas arrumava uma boa criação. E Dil assava um perna de carneiro - ou cabrito - de dar água na boca. Sem esquecer o queijo de coalho, bem curado, vindo do sertão.
De Teresina, fica a lembrança de uma galinha d'Angola, feita no leite de coco. De coco babaçu. E o "capão" preparado lá na casa da tia Sinhara, casa bem ali, ao lado do palácio do governo - a igreja de São Benedito lá no fim da praça.
As lembranças vão sumindo, já não há exatidão na memória quando repenso que a correnteza do Parnaíba - tio Tavinho, irmão de vovô, atravessava sem dificuldade - a correnteza me assustou quando ameacei atravessar o curso do rio.
Ainda do cerrado, vem a lembrança dos peixes - filhote, pintado - comuns aos rios da região.
Brasília. O filho mais novo nasceu lá. Repórter de O Globo e depois Jornal do Brasil, escriba da Embrapa, aprendi a amar os cerrados, campos que cobrem boa parte do solo brasileiro. No meio dessa riqueza natural, a capital. Uma cidade. Cidade de gente boa, onde deixei muitos amigos.
Política? Gente corrupta?
Isso é o Congresso, onde estão representantes de todos os lugares, políticos que mandamos - nós todos - para lá e que pouco têm a ver com Brasília, com o planalto, com os cerrados. Há muita coisa bela por lá - Água Emendadas, Água Mineral, céu de fim de tarde - detalhes que me fizeram amar Brasília.
Chega, vou almoçar. Dil me chama. E a vida segue, bordada de saudade de muita coisa que vivi. Brasília, inclusive.
Empadão goiano - o palmito amargo - também é muito bom, mas nada se compara à carne de sol, servida do centro-oeste ao nordeste, com gosto e fartura.
Nos tempos de Sobral, o prato do fim de noite era a panelada: dobradinha, batata e ... cerveja. O Ceará tem também uma bela carne de sol, um bom feijão macaça, vigna - caupi, nunca, ervilha de vaca e .... depois eu digo - mas o cearense tem vergonha de feijão de corda, prefere feijão do sul e não assume que come carne de "criação". Batucada com os amigos da Embrapa, samba que acabava lá em casa. Em destaque, ainda, uma boa cachaça sem marca, de rolha, vinda de Tianguá.
A buchada de bode só acontecia quando, na pedra, Antonio das Porcas arrumava uma boa criação. E Dil assava um perna de carneiro - ou cabrito - de dar água na boca. Sem esquecer o queijo de coalho, bem curado, vindo do sertão.
De Teresina, fica a lembrança de uma galinha d'Angola, feita no leite de coco. De coco babaçu. E o "capão" preparado lá na casa da tia Sinhara, casa bem ali, ao lado do palácio do governo - a igreja de São Benedito lá no fim da praça.
As lembranças vão sumindo, já não há exatidão na memória quando repenso que a correnteza do Parnaíba - tio Tavinho, irmão de vovô, atravessava sem dificuldade - a correnteza me assustou quando ameacei atravessar o curso do rio.
Ainda do cerrado, vem a lembrança dos peixes - filhote, pintado - comuns aos rios da região.
Brasília. O filho mais novo nasceu lá. Repórter de O Globo e depois Jornal do Brasil, escriba da Embrapa, aprendi a amar os cerrados, campos que cobrem boa parte do solo brasileiro. No meio dessa riqueza natural, a capital. Uma cidade. Cidade de gente boa, onde deixei muitos amigos.
Política? Gente corrupta?
Isso é o Congresso, onde estão representantes de todos os lugares, políticos que mandamos - nós todos - para lá e que pouco têm a ver com Brasília, com o planalto, com os cerrados. Há muita coisa bela por lá - Água Emendadas, Água Mineral, céu de fim de tarde - detalhes que me fizeram amar Brasília.
Chega, vou almoçar. Dil me chama. E a vida segue, bordada de saudade de muita coisa que vivi. Brasília, inclusive.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Acontece
Acontecendo? Pouca coisa. Rio, uma ida ao cinema para ver Lincoln. Perdi o Gonzagão.
Acontecendo? Calor, calor que causa preguiça, corpo engraxado de suor e, novamente, preguiça. Na rua, parece que o ar queima os pulmões.
Amanhã, sexta, tem viagem, tem lagoa, tem a esperança de um dia movimentado.
Para divertir, o Face. Só que não consigo quase conversar com as pessoas: tudo é impessoal. Auto-ajuda. Um pouco de política. Mas fica difícil achar um jeito de brincar com as pessoas. Tudo é sério, outras vezes, pesado além da conta.
Até mesmo quando escrevo, parece que amigas do coração nem tomam conhecimento. Bem, também fico tempos sem ver postagem de pessoas que gosto e aparecem postagens de pessoas com as quais tenho pouca identificação.
De volta ao filme, valeu a pena. E atravessar para o Rio pode ser o indicativo de que a vida deve mudar. As limitações físicas dificultam a gerência do sítio e transformam em dor as viagens constantes. É certo que os exercícios de Pilates vão me ajudando a viver. Mas também é certo que enfrentar estrada já não é tão fácil, apesar do ar condicionado do carro.
Quem sabe, peço demissão da vida selvagem e assumo o fato de ser carioca, nascido bem ali, junto ao Largo do Machado. Há uma dúvida muito grande quanto à forma de viver. O gosto da roça, da praia não vão morrer, mas há outros prazeres que podem ser acionados.
Perdi a agilidade, perdi muito da força física. Por enquanto, ainda consigo ler, escrever e, dentro d'água, posso dançar à vontade.
Então me dizem: equilíbrio. Palavra difícil para quem se deixa apaixonar, para quem se sabe emotivo - capaz de rir, chorar, brincar apesar dos 69 anos.
Ainda estou me devendo alguns textos, trabalho de dia comum para organizar os livros - originais encalhados, como barcos em estaleiro abandonado. E a oficina - o velho porão - também anda precisando da minha presença. Ali, enquanto a cabeça trabalha, as mãos brincam com madeira ou massa, para criação de peças artesanais. Dois brinquedos novos, uma serra e uma lixadeira, são o incentivo para voltar às atividades.
De resto, sr. Face, o que acontece é uma médica a matar pacientes - nada demais, isso acontece sempre pela falta de recursos nos hospitais de emergência - revolta em presídios, atiradores, terroristas. Nada que os jornais não registrem, nada além da corrupção dos velhos caciques da política. É muita roubalheira.
E eu, aqui, preocupado com o calor. É preciso relembrar os gauleses, Asterix e Obelix, para quem o medo era que o céu desabasse sobre as cabeças humanas. Acho que Deus, irritado, resolveu esquentar o ar, ampliar oceanos e jogar pedra sobre os humanos. Os cacos de asteroides estão aí para comprovar. E haja calor.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Carnaval 2013
Todo mundo reclamando do calor - e do Face! Esse Face me pergunta como estou: irritado, porque ninguém consegue compartilhar meus textos, só aparece o ícone promover. Ora, por que o Face não vai faturar no inferno?
Carnaval, caipiras na cabeça, com agronegócio e o mangalarga chegando em segundo, como um belo samba. E olha que não torço pela Beija Flor, mas o mangalarga é um cavalo da melhor qualidade, bom de andamento, bela companhia para uma cavalgada.
E se, no campo, não houver que produza alimentos, as cidades vão viver de quê? De poeira de asfalto??? Se torço pela Vila? Desde os tempos em que Martinho ensaiava Iaiá do cais dourado e esquentava o samba com "para na minha que vai ter colher de chá".
Gosto de um cavalo bom de sela, arreado nos trinques, pisando bonito numa estrada. Gosto mesmo - pena que não é sempre posso participar das saídas no sítio.
Carnaval, carnaval sem caiaque, mas com atividade na lagoa por vários dias, no fim de tarde, quando o movimento era menor. No sítio, as mangas ainda se espalham pelo chão, mas o calor está terrível e é preciso reforçar a alimentação dos animais.
Carnavalesco atrofiado, perdido do samba, distante da batucada, lavei a alma no domingo, na casa de um dos irmãos: a feijoada estava maravilhosa, a cachaça é mineira de verdade e a cerveja desceu gelada, com direito a batucada e banho de piscina. Um luxo, um pouco de medo do chamado "dia seguinte", mas as cautelas necessárias foram suficientes para que nada acontecesse, a não ser a certeza de que alegria só faz bem à alma.
Ficou uma certa saudade das conversas daqui da Internet, mas fiquei feliz em saber que Helena se recupera rápido do acidente que sofreu.
Solidário com a turma que se queixa do calor, explico que estou no foco de dois ventiladores e vou para o aconchego de um ar, que ninguém é de ferro.
Amanhã, tudo será possível: a chuva de Corina pode chegar por aqui ou o sol mandará para o hospital alguns incautos que não acreditam no calor. E ainda temos, para quem gosta da noite, a beleza da lua que vai crescendo para nos fazer pensar como, entre tanta beleza, bombas atômicas se escondem para assustar o povo da terra.
Vamos esperar que nem os meteoritos nem a renúncia do Papa atrapalhem a vida de quem gosta de curtir um domingo tranquilo. E boa-noite, que já é tarde!!!
Carnaval, caipiras na cabeça, com agronegócio e o mangalarga chegando em segundo, como um belo samba. E olha que não torço pela Beija Flor, mas o mangalarga é um cavalo da melhor qualidade, bom de andamento, bela companhia para uma cavalgada.
E se, no campo, não houver que produza alimentos, as cidades vão viver de quê? De poeira de asfalto??? Se torço pela Vila? Desde os tempos em que Martinho ensaiava Iaiá do cais dourado e esquentava o samba com "para na minha que vai ter colher de chá".
Gosto de um cavalo bom de sela, arreado nos trinques, pisando bonito numa estrada. Gosto mesmo - pena que não é sempre posso participar das saídas no sítio.
Carnaval, carnaval sem caiaque, mas com atividade na lagoa por vários dias, no fim de tarde, quando o movimento era menor. No sítio, as mangas ainda se espalham pelo chão, mas o calor está terrível e é preciso reforçar a alimentação dos animais.
Carnavalesco atrofiado, perdido do samba, distante da batucada, lavei a alma no domingo, na casa de um dos irmãos: a feijoada estava maravilhosa, a cachaça é mineira de verdade e a cerveja desceu gelada, com direito a batucada e banho de piscina. Um luxo, um pouco de medo do chamado "dia seguinte", mas as cautelas necessárias foram suficientes para que nada acontecesse, a não ser a certeza de que alegria só faz bem à alma.
Ficou uma certa saudade das conversas daqui da Internet, mas fiquei feliz em saber que Helena se recupera rápido do acidente que sofreu.
Solidário com a turma que se queixa do calor, explico que estou no foco de dois ventiladores e vou para o aconchego de um ar, que ninguém é de ferro.
Amanhã, tudo será possível: a chuva de Corina pode chegar por aqui ou o sol mandará para o hospital alguns incautos que não acreditam no calor. E ainda temos, para quem gosta da noite, a beleza da lua que vai crescendo para nos fazer pensar como, entre tanta beleza, bombas atômicas se escondem para assustar o povo da terra.
Vamos esperar que nem os meteoritos nem a renúncia do Papa atrapalhem a vida de quem gosta de curtir um domingo tranquilo. E boa-noite, que já é tarde!!!
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Viagem de carnaval
Há um espaço físico, espaço onde piso meu chão e as muletas me empurram na lentidão gostosa dos meus passos. As pessoas olham, apiedadas, afastam cadeiras. Agradeço, lógico, mas não me sinto tão desconfortável assim. Subo a escadinha estreita, atravesso corredores. Atravesso a areia entre o quiosque e o mar.
Mas há um espaço em que o corpo descansa, apenas a cabeça se locomove e corta chão com muita rapidez. É assim que chego ao Rio Grande do Sul, é assim que relembro os rios da amazônia, é assim que voo entre São Gonçalo e os mares gelados onde navegadores fazem regatas solitárias.
Nesse espaço recorro aos livros e mergulho em aventuras as mais diversas. Revejo os primeiros conquistadores das terras geladas. Participo de conflitos, observo lutas, percebo animais entre folhagens.
Nesse mundo de dimensão descontrolada, a telinha do computador é janela para acabar com a solidão. É janela para comprar a serra tico-tico nova ou para especular o preço dos barcos. Nessa janela encontro a família, os amigos, os debates. Antes do jornal, as notícias estão por aqui, assim como as receitas de pratos gostosos e as orações mais potentes.
Tem mar nessa telinha, tem cachoeira, cavalo bonito. Tem o sorriso de gente que gosto, tem o abraço carinhoso que vem de longe. Tem o rosto das netas e do neto, tem a águia em seu voo infinito.
É nesse mundo, nesse mundo nada concreto, que me aventuro entre códigos para buscar razões entre textos técnicos de Direito. E, é sério, voltando ao trabalho, à dificuldade de traduzir o juridiques para uma língua que entendo, é que estou conseguindo amarrar melhor os caminhos da minha cabeça, que já não divaga tanto entre as trilhas sombrias da tristeza, do desânimo.
E, com mais força, volto ao meu chão concreto para remar, dirigir, andar de bicicleta e, quem sabe, novamente montar um cavalo neste carnaval. Nesse chão concreto ainda quero me sentar na areia - ou no quiosque - para ver o sol se por lá pras bandas do sem-fim e soltar imaginação para viajar nesse mundo onde tempo e distância não existem.
Quem sabe, uma cerveja: ninguém é de ferro e a vida precisa ser vivida com sede. A fome de viver não arrefece. É por isso que ainda continuo aí, andando lento neste chão e voando sem medo para onde a imaginação me levar, para os campos distantes onde o sol se põe.
E que venha a lua, para alegrar a noite nestes tempos de carnaval.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
É doce morrer no mar
Tarde de sol, vento sacode o verde das folhas da amendoeira contra um céu de azul forte. Verde. Verde de mar e olhos. Memória corre. Volta no tempo. Uniforme do Pedo II, parada de ônibus. Cabelo preto, bem preto - sem tinta - uns olhos verdes, verdes de mar e aquele jeito de sorrir. Meu Deus, eu não mergulhei naquele mar de olhos, nem lhe dei um beijo para nunca esquecer. Mas o rosto dela - quanta amizade - eu não esqueci.
Mais tarde, também na rua, uns olhos azuis me encantaram - um cabelo comprido, dançando na passeata, nós dois de braços dados, na Uruguaiana, esperando a hora do comício relâmpago. Também não disse nada. E a vida nos distanciou: nunca mais a vi.
Quando o vento sacode o verde, quando lembro do mar, a cabeça roda, a memória brinca de caminhar nas trilhas do passado.
Relembro pescaria nas Itapucas, ali em Icaraí. E o mar muda de cor todos os dias, como o humor da gente. Mar que me rolou nas pedras - quantos arranhões. Mar que me levou para a pescaria, mar de Angra dos Reis, de rara beleza.
Nadei na noite, levei o barco de Iemanjá. Fui sem medo de peixe, de correnteza. Fui, ela me trouxe de volta.
Sempre o mar. Mar que já me viu rir, chorar, amar às últimas consequências. Mar onde afoguei muita mágoa, mar que me deu muito peixe, muito alimento e, principalmente, mar verde, verde mar que me lembra olhares inesquecíveis - verde e belo mar.
Um peixe corta água, gotas rebrilham prateadas, iluminadas pelo sol. Subo na onda, em dia calmo e parece que a alma explode de alegria. Não sei, mas acho que ali, nas ondas, sereias se movimentam nas águas de puro encanto. E, encantado, revivo a sensação maravilhosa de entregar o corpo às águas do mar.
Mar, vida, morte, explosão de poesia em cada braçada. Vale lembrar Cymmi: é doce morrer no mar.
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