terça-feira, 26 de março de 2013


Notícia boa: nasce Alexandre, filho de Alison e minha sobrinha Luciana. Nasceu em Nova Odessa, no sistema público de saúde. Foram 24 horas de trabalho de parto até que aparecesse uma  "equipe" para a Cesariana. Tudo bem, filho e mãe passam bem mas foram horas de tensão para todos.
Notícia ruim, ah, desse tipo tem muita coisa. Não fizeram as obras necessárias na serra do Rio. Onde o dinheiro foi parar? Gente, cadeia tem que acontecer para ladrão de colarinho branco. Construíram prédios para abrigar os moradores do morro do Bumba, o lixão que desmoronou em Niterói. Vão demolir. Irresponsáveis, ladrões. Começo a pensar em solução chinesa em que a família paga até a bala.
Pelo menos, encaminharam o Juiz Lalau para a cadeia. Vai ficar pouco tempo, mas a boa vida dele não será tão boa.
Matéria de denúncia? É só abrir O Globo ou ver o jornal da TV Cultura (o jornal da Poli, apresentadora premiada). Notícias comentadas e pedidos de socorro.
Por que nada acontece? Fácil. Só tem raposa tomando conta do galinheiro. Quem vai apurar? O superior que levou parte da grana? O comandante que também recebe propina? A presidenta que nomeia ministros"acima de qualquer suspeita"?
Uma olhada no caderno de imóveis do jornal de domingo (O Globo) dá uma ideia aterrorizadora do que será o Rio, revestido de grandes espigões.
Querem demolir os últimos casarões da rua da Assembléia, um certo milionário passou a ser dono da rua da Carioca e o que resta da história do Rio - pobre Rio - vira pó para dar lugar à plantação de espigões.
Uma amiga me manda um documentário sobre uma bela cidade espanhola, com 24 km de canais, uma área urbana baixa e surpreendentemente bonita.  A cidade onde eu nasci vê prédios sendo destruídos sem muito sentido.
Estão investindo na Copa e Olimpíadas. Quanto se investe em esporte? Em que esportes o Brasil tem chances? Onde estão os centros de treinamento de futuros atletas? Nada. Os clubes não recebem ajuda, o dinheiro pára nas mãos dos cartolas. Então, em termos esportivos, vamos esperar por mais um vexame.
O desenvolvimento com base e automóvel, dá sinais inequívocos de que está chegando ao fim. Estacionar passa a ser operação roleta em qualquer cidade: se der sorte, você consegue uma vaga.
Betânia canta, não sei o autor: "eu vou deixar de ler jornais". Não adianta, o helicóptero sobrevoa sua casa, trocando tiros com bandidos; o filho vai correr no Aterro do Flamengo e vê o turista sendo assaltado; roubaram um carro ali na esquina, com apoio do posto que a PM abandonou.
Se o Estado não protege o cidadão, o cidadão tem o direito de se proteger. Mas quem tem CPF e identidade não pode colocar um arma na cintura - é crime. O cidadão não pode nem mesmo fazer uma fogueira em noite de São João: é crime. Até queimar restos de poda é proibido.
Quem tem carro, se vê obrigado a ter cadeirinha para transportar o neto. Quem não tem, amarra o filho que nem saco de batatas e entra num coletivo cheio.
Os jovens têm dificuldades para encontrar emprego. Os velhos  - nós velhos somos um caso à parte - enfrentam a vida como podem e a aposentadoria, em muitos casos, é o principal sustento da família.
Já tirei da cadeia gente inocente. Difícil é ver dirigente corrupto punido com rigor. Ao cidadão, resta a praia, o rio - mas não vá pescar, que é quase proibido. Ainda bem que não dá para cobrar pela luz do sol. Quanto à água, não cave poço pensando em ser feliz, porque a água é do Estado e você precisará de um hidrômetro.
Uma bebida por conta? Isso é viável o imposto já foi recolhido. É, Dr João Guimarães Rosa, viver está cada vez mais perigoso. E estranho.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sertão, rosário de lembranças


Doce de buriti. Que delícia! Doce de qualidade que Débora e Marcelo trouxeram de Fortaleza. Trouxeram também castanha de caju, mas o buriti parece aquele que eu comprava no mercado de Teresina.
Esses dias, achei um vídeo sobre umbu, a planta  verde da caatinga seca. A frutinha vendida nas ruas de Petrolina.
Na TV, Regina Casé fala sobre pequi, a fruta mágica do cerrado. É preciso relembrar jatobás, sucupiras, cagaitas, araticum, cajuí, mangaba. Cerrados, vegetação que se mistura com a caatinga quando o centro-oeste encontra o nordeste, com destaque para o Piauí.
Sertão. Carne de bode, buchada. Sertão: a secura e o verde, as serras com seu micro-climas, a festa do interior desse Brasil sem fim. Boleia de caminhão, eu saí do Rio, no tempo das estradas de chão, é fui parar no Piauí.
Lamento não ter navegado o São Francisco mas uma visita à Serra da Canastra está programada. É lá que nasce o velho Chico, é lá que se despenca a cachoeira da Casca d'Anta.
Sertão. Sertão do arreio cutiano de Goiás, das selas nordestinas sem cabeça, do vaqueiro encourado. Sertão de Guimarães Rosa, com suas veredas e caminhos entre cerrados e campos gerais.
Entre babaçus, vi correr a novilha vermelha. Vi Bié, vaqueiro Bié, filho de Cristino que dizem que era meu tio, vi correr pendurado no cavalo ligeiro. Antonio Rosa foi junto e só voltaram com o serviço pronto. Onde isso? No Maranhão, ali do lado de Teresina, no município de Timon, que um dia foi chamado de Flores.
Tem horas que esse sangue - meio sangue nordestino, meio sangue serrano, de Petrópolis, assim eu sou -  pende para o lado nordestino e bate saudade de ver o gado livre na beira da estrada, os rebanhos de cabras e carneiros, como nos campos de mimoso, que a gente atravessa quando vai de Teresina para o Ceará, via Campo Maior e serra de Tianguá.
Cachaça, rapadura, melado. Isso tem lá no alto da serra. Faz tempo, andei por lá. Faz tempo que comprava tejuaçu, avoante prensada, preá seca na feira de domingo, cheia de frutas, peixe, bichos.
Coisa de velho, esse rosário de lembranças que termina com uma galinha d'angola, feito no leite de coco, de coco babaçu, que nos foi apresentada por Fernando, em noite de Teresina.
Hoje, preso nesta São Gonçalo, a cabeça viaja entre odores, sabores, olhares desse sertão sem fim, sertão que, para mim, é a verdadeira essência de Brasil sem medida. Ah, a amazônia, essa é outra conversa, outro mundo de árvores gigantes, uma floresta sem fim. Não deixa de ser sertão - é Brasil com nome de índio e sabor de tudo que as cidades não têm.
Eu vi de perto, pelo menos, dá para lembrar.

terça-feira, 12 de março de 2013


Destino

Tem uns versos de Cecília Meirelles -" a sorte virara no tempo com um barco sobre o mar" - às vezes a gente quer tanto um objetivo e, quando ele chega perto, parece que dá vontade de nadar o oceano de volta.
Dúvida, indecisão, aquela pergunta incômoda: a energia aguenta? Depois parece que o sonho vai acontecendo lento, como se o barco desvirasse: há uma brisa, um leve sopro nas folhas, um raio de sol entre as árvores no fim de tarde de pouco sol.
As pernas se mexem, os olhos se agitam. Um lembrança, antiga lembrança, passa correndo no espaço entre a porta e o nada. As mãos, não as mãos não estão feridas dessas pancadas incessantes em facas de ponta.
Na capela, o São Sebastião naife que Helena pintou. A imagem do Cristo. O rosário de meu pai. O sacerdote da lanterna. Os pequenos anjos. Um ar gostoso vem da tamarineira. Do outro lado, o lago. Patos pequenos, grandes, patos que vieram da vontade de Surya de ter uma patinha. Compromisso: essa não pode matar. E não mato. E o patos se multiplicam no sítio. E bonitos vê-los tanto na algazarra da água, quanto voando sobre o pasto.
Há uma paz na sombra do enorme jamelão, no vibrar do bambuzal gigante. Olho as pernas minhas pernas enguiçadas, as muletas, a vontade de andar e andar. E se eu não tivesse nada disso?
Bezerro berra longe, o pampa relincha, uma galinha canta assustada.
Esquece. Ouve a batida do coração em surdina, falando da vida. Ouve a água que corre por baixo do chão e enche o lago.
"Onde eu cante uma cantiga para ver se durmo também" - assim será, vou ouvir uma cantiga, canção de chuva, de mar, trancarei os olhos na noite para sorrir da esperança  de encontrar um simples abraço, terno abraço que diga o azimute - a direção perdida.
Quantos abraços? Quantos sorrisos me farão sorrir? OU será que, entre feliz e triste, as lágrimas vão rolar não como um lamento, mas como liberdade de ser forte na fraqueza inevitável.
Pode ser que eu engula uma bebida, pode ser tanta coisa que nem sei. Sei que é banzo, querência - algo assim. Sensação de que perdi todos os lugares e não sei se voltarei. Mas a sensação forte é de que, mesmo virando o barco, o farol de olhos amigos vai me guiar para o luar.
E no luar, feiticeira, eu vou saber onde chegar.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dia da mulher


Dia da mulher? Internacional? Está certo, respeito, comemoro, mas questiono: mulher tem seu dia todo dia, todo dia de trabalho, de luta para manter a espécie viva. 
Mulher. Para mim, é o grande mistério. Quanto mais informação, menos entendo, mais quero informação. E a vida passou assim, entre pesquisas, erros, acertos, dúvidas, muitas dúvidas.
Mulher, teu significado é paixão. E a paixão chegou cedo, pela menina de laço no cabelo, ainda no primário. Depois, a indecisão - como começar um namoro? Menino sofre. 
Os namoros vieram. Vieram as mulheres, o gosto pelo carinho, o prazer de tocar e amar. Ai, como é bom um sorriso, um olhar direto, olho perdido no olho, quando o mundo em volta parece não mais existir. 
Mulher. Pele contra pele, a essência pesquisada e buscada em cada contato, cada corpo, cada alegria. E a lágrima? Por que acontece? É preciso procurar saber - entender, nunca. Basta admirar, amar, gostar. 
Diz o cartaz: não vim da sua costela. Você veio do meu útero. Verdade! E é assim que existimos, humanamente imperfeitos, seres resultantes de atos de amor ou não, mas sempre do gosto, do prazer. As aberrações não cabem aqui. 
Mulher, mãe, amiga, irmã, prima, colega, companheira. E sempre foram muitas amigas, amigas de fé. Amores acontecem, é certo, acontecem surtos de admiração um tanto inexplicáveis. Por que esse olhar e não aquele, por que esse sorriso e não outro, porque esse conjunto e não o padrão midiático?
Inexplicável. Há um prazer nas mãos que se tocam. Há um gosto em cada abraço, em cada carinho. E mais: há beleza em cada mulher - mesmo nestas que não se julgam belas, mas escondem o charme em seus corpos, em suas formas de vida. 
Falar da minha mãe, não vale. Ela foi uma guerreira, ex-aluna do Pedro II, estudante de colégio de irmãs no Piauí, candidata ao curso de Medicina. E, por paixão, larga tudo. Casa-se, cria nove filhos e se desespera com o que foi muito cedo. 
No meu peito, respeito. Respeito infinito pelas mulheres. Respeito e curiosidade. Curiosidade e interação, para ver como sai fagulha no atrito da pele conta pele. É um sentimento misto, uma alegria quando um sorriso sinaliza para um carinho mais ousado. Tantas vezes foi assim.
Hoje, no curso do 70 anos, casado faz tempo, deixo para a companheira todo o amor possível, apesar das dificuldades. E, mesmo nessa idade, uma união só se justifica com carinho, amor, bem querer. 
Mas - já dizia seu Arthur - como cachorro comedor de ovelhas só matando, me confesso um cachorro atado à guia, porém capaz de enviar o meu respeito, o meu carinho, a minha admiração para todas as mulheres do mundo. 
E que seja de alegria o seu dia - o dia das mulheres. Para Silvinha, abraços dobrados também pelo aniversário. 
Sério: sem mulher, não existe vida.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Vida vivida

Vida vivida


Corina, o coração não sei se fala
grita ou murmura.
Esse coração tem gravado
sentimento, dor, 
vida sacudida fora do padrão
mas não aprende:
se rebela,
encontra emoção no carinho 
dos abraços
e se sacode nos caminhos
simples do dia a dia.
Silvinha diz:
é beleza em tudo
E o coração se agita
na beleza das crianças na água
no andar seguro
da montaria.
Há beleza - beleza gera emoção -
nos olhos que nem sempre vejo
na solidão da água onde navego
na lua de tanta força.
E Thiago diz que ensinei.
Nem sei.
Assim vivi, curtindo amizade
a presença dos pequenos cavaleiros
homens feitos na vida.
Vem o filho
percebe raízes
acha assim linda as raízes.
Se eu chorar
não é vergonha:
apenas a emoção transborda no peito
e se derrama na trilha da vida
onde não desisti.
Braços abertos, cansados braços,
mas prontos para o carinho que vier.
E o coração fala, grita, geme:
é a vida vivida de pura emoção.