sábado, 28 de maio de 2016

Vida 
Tem sal, tem pó de madeira 
nesse meu cabelo branco, 
branco de estrada, de muita luta. 
Cicatriz no braço?
Tenho, do aço que desarmei
pela vida de um desconhecido.
Do peso, o excesso vem das feijoadas,
churrascos e muito arroz com feijão.
A coluna é estragada
de tombo de bicicleta,
queda de búfalo
esforço para tirar uma vaca - não era minha -
do buraco.
Há cicatrizes na alma
choro de adolescente rejeitado
pela menina que não me quis.
Das guerras, esqueci. Conflitos, não lembro.
Há cicatrizes na alma de todo o amor vivido
amor das mulheres dignamente apreciadas
em sorrisos, abraços, olhares cristalizados no tempo.
Do que foi amor
não esqueço: pele arrepiada, um laço no abraço
festejando a vida.
E lá vem o tempo apagando o rastro da estrada
passada.
O peito é quebrado - certo -
mas lá no fundo forjado em aço fica a imagem
do amor que perdura
da vida simples vivida,
de olhos que me falam de amor.
E assim sou eu: de sal, sol e poeira de madeira
nesse cabelo branco, prova da vida vivida,
que, do amor não me arrependo:
Das guerras, eu me esqueci.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Sonhei um texto.
Um texto de paz e de lembranças. De muitas lembranças.
Lembrança do irmão que se foi, ainda cedo, falecido num domingo de Páscoa. Emanuel, meu irmão.
Promessa jurada, o nome foi para Emanuel Freitas, meu filho.
Lembrança de minha mãe, que o enfarto levou de um só golpe.
Lembrança de pescarias, na Ilha do Governador, a partir da rua Balcânica, no alto do Guarabu.
Lembrança de festa, de festa caipira, logo depois que entrei para a Faculdade, início de 64, repressão acesa.
Uma lembrança recente? A lua de Corina Motta, amizade que só faz crescer.
Das orquídeas, a lembrança sorridente de Eloisa Galvao, que vibra com as coisas da roça.
Dos cavalos, a loucura de Fandango, pedrês de boa cepa, capaz de me levar a Maricá. 
Um dia, na rua Pontes Correia, a corrida da pequena Débora, hoje Débora Thomaz, que se aninhou no meu peito, gesto que ela repete até hoje.
Olhos do menino Pablo, em Guaratiba. Pablo Siqueira Guimaraes, filho querido, andando com o pequeno Felipe na beira da praia. 
Felipe, o mais novo, do Direito, da capoeira, do aikidô, da bicicleta e do cavalo é companheiro constante, meu guardião quando remo na lagoa. 
Maria Helena - a primeira vez que a vi, foi num auditório, em Brasília. Maria Helena Lopes, companheira de tantas lutas, confidente, sempre amiga. 
Rosa Edite Lemos muito me ensinou. Lutamos juntos, ela quase sempre chefiando nessa infinita capacidade de organizar tudo, de bibliotecas a eventos. Foi com ela que montei meu primeiro audiovisual.
Agora, quando os cavalos se mexem, inevitável falar de Ubaldino Dantas Machado, que me levou para a Embrapa e me permitiu viajar por todo esse Brasil e que, hoje, desenvolve um belo trabalho em equinocultura. 
Tempo vai, tempo vem: casa de Volta Redonda, o doce de goiaba fervendo no fogão a lenha, uma coruja de asa quebrada na garagem - papai conseguiu consertar - a primeira procissão, uma trombada e a charrete que nos levava da estação até em casa. 
Tempos de Sobral. Magalhães, companheiro de muitas aventuras, pode dizer desse tempo. Francisco Magalhaes, de viagens e pescarias. Beth Berne, que hoje está no solo gaúcho, sua terra natal, me recorda pesquisas e muita amizade.
Lili Sampaio, que foi Pedro II e conheci numa viagem - tempo, tempo - recente a Paquetá, e dona da delicadeza, da música, do posicionamento independente.
Luísa Müller faz a defesa dos bichos e nem queria que eu montasse o baio. Ela me fala de Rosacruz, é uma mente ativa, escrevendo, viajando e sempre capaz de uma palavra amiga.
Saudade. Saudade aperta no peito com as lembranças que ficaram. Um barco no mar em Natal, saveiro - é dia 2 de fevereiro - em Salvador, um cavalo crioulo no Rio Grande do Sul, terra também de Liane Matzenbacher, que me ensinou que o primeiro mate - mais amargo - é do anfitrião e não do visitante. Com ela, conheci Carlos Magrão e Oswaldir, bela dupla de cantores da tradição. 
A lista do Face tem primas queridas - Helena Rodrigues, pintora de belos quadros; Rita De Cássia Avellino, combatente jornalista que admiro eVanda Costa Dantas, parceira desde os tempos de Pedro II. Ela e Jorge Dantas me cederam lugar no escritório, por muito tempo.Hoje, é minha vizinha em Praia Seca. 
Vamos falar da canabis? O primo Varô Alvaro Costa Filho - meu primo irmão, colega de faculdade e de jornalismo - é defensor ardente da liberação do comércio e uso. Concordo com ele. Tem menino puxando cadeia por simples vício.
Povo da montaria? Vamos falar de Valdemir Waldemir Sodre, parceiro de longa data, companheiro de muitas cavalgadas nos fins de semana. David Warchon Salles, pai de Julia, casado com Patricia Diez Rios, advogada que faz um trabalho social relevante, apoiando pessoas com HIV. Leandro Nogueira, que acompanho desde menino. 
Pronto, o sono está chegando, a crônica vai ficando mito longa e começo a me perder no cheiro do campo, imaginando poentes na beira da praia, pensando nos beijos que não dei, mas confiante nos amores vividos e perdidos na estrada. 
Ficou muita gente de fora, não por falta de lembrança, mas por falta de espaço. Outros textos virão e, falando das pessoas, vou me lembrar do carinho e da emoção vividos. 
A todos, meu abraço e uma Feliz Páscoa!    24/03/2016

Caixa de velas na mão, entra na igreja, Igreja de N. Sª do Loreto, ali em Jacarepaguá. Diante da imagem de São Sebastião, acende todas as velas, bem no começo da missa. Havia passado, com 8,5 de média, no exame de admissão ao Colégio Pedro II.
Tempo de muita fé, eu morava ali na Estrada do Gabinal, no sítio que foi de meu avô. Duas igrejas no morro: Loreto, mais baixa e a N.Sª da Pena, bem no topo da colina. Os dois templos ainda estão por lá. A última notícia que tive foi da demolição da casa do meu avô.
A família mudou-se para Jacarepaguá na década de 50. Era roça, estrada de chão, boi na rua. Domingo, dia de missa, tinha feira no Largo da Freguesia, ali onde o bonde fazia a volta para regressar para Cascadura. Logo, logo fui estudar na Escola Pública do bairro, a Escola Edgard Werneck. 
1º de março de 1565. Repeti - copiando "n" vezes. Nunca mais me esqueci da data de fundação da cidade do Rio de Janeiro. D. Gioconda Seixas foi minha professora por cinco anos. era muito querida. 
Como me lembro do laço de fita de Berenice, do charme de Djair, da filha da professora que tinha um belo sinal.
Vera, namorada de perto de casa. Mais tarde, no Colégio, uma paixão sofrida, em nada correspondida. Fim de curso, os poetas da turma de reúnem e publicam o "Sextante". 
Rose, namoro de colégio, mãe de dois dos meus filhos. 
Mas eu saí de casa, não importa o porquê. E levei comigo o jipe de muitas aventuras. 
No progresso do tempo, vida mais recente, a amizade com Walkiria Senra, que conversa comigo lá do outro lado do mar. A tecnologia faz o Atlântico parecer um riacho, que a gente atravessa para cumprimentar uma amiga. Lá de Vigo, são belas as imagens que chegam.
Misturando passado e presente, Maura Ribeiro da Conceição foi colega de turma no CPII e, hoje, me conta das viagens que faz, através de suas postagens. Na política, nossos rumos são divergentes.
Ganhei uma bicicleta Peugeot. Papai me autoriza a ir de bicicleta para a escola. A bicicleta era alugada para pagar a compra de picolés, os sorvetes da Kibon, principalmente Ton-bom, de limão.
Para sossego do meu avô, troquei por porquinhos-da-Índia os últimos pombos. Volta e meia, um pombo acertava a cabeça dele, que ficava - com razão - possesso.
Com meu avô, Avô Álvaro, aprendi a usar o machado. Com ele, aprendi a derrubar o mato. Com ele, aprendi muito mais coisa do que eu poderia pensar. Saudade dele, do seu jeito decidido e sério.
Minha vó Lydia era a melhor alma do mundo. Um dia, ela ficou tomando conta da gente. Eu queria andar de bicicleta. Havia uma bicleta velha na garagem. Pedi que ela me ajudasse a montar na bicicleta: - solta, vó!! Não caí, aprendi a andar de bicicleta. 
Das boas amizades de hoje em dia, Teteia Sodre tanto está no Face quanto na vida real. Ela tem uma bela pousada em frente lá de casa e a gente ficou amigo, faz tempo. Tempo passa, a pousada vai ficando cada vez mais bonita. 
São lembranças. Enquanto a política ferve, as pessoas rodam a baiana e empunham armas, vou registrando, por aqui, essas poucas lembranças, retalhos entrelaçados de vida. 
Tempo vai, tempo vem, tem seca, tem cheiro de chuva a amansar a poeira; tem luar, o impressionante luar do Paracuru. A vida é boa assim, costurada de amizades sinceras, apimentada por um conflito aqui e outro ali, mas carregada de amor - amor que me deixa feliz. Eu volto, para contar mais histórias.       25/03/2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

Valeu a pena viver
Eu assim mesmo, trocando tapa com a saudade.
Coração bagual, desarrumado, de amor sofrido, sem vergonha de amar.
Amar, amar perigoso, a vida foi passando, marcada de paixão,
água que corre do peito por aí.
E consequências. Consequências do amor inconsequente,
vivido com a coragem que é superar o medo,
vivido assim como canoa que corta a água em noite de lua,
lua cheia, proa voltada para o destino indecifrável.
Amor de olhar e ver o risco doce nos olhos de uma mulher,
risco, rolo de linha que vai se desmanchando num doce sorrir
Bagual porque mal comportado.
Até um dia. Mas o tempo castiga, solidifica
fantasmas que surgiram - uns vão embora, outros permanecem
escondidos no baú da fantasia.
Amor, amor marcado nesse caminhar na areia
amor revelado nas pequenas flores
na folhagem grossa da mata nativa
bem ali onde o coração se enternece com as lembranças
das vidas que passaram.
Vidas da gente, vidas dos outros.
Foi amor, foi pisar torto, foi acreditar no feitiço
que mora na pele de todas as mulheres
e foi tombo, foi dor, tristeza de rachar um doido.
Mas a paz se fez no olhar que me acompanha.
As amizades vieram, ficaram, partiram.
E vou seguindo estrada, assim louco, conversando com o tempo
sobre o que passou - o tempo não me fala de futuro.
Vieram filhos, vieram netos. Banhe-se tudo com poesia
e a vida é melodia que se toca no fundo da alma.
O roteiro é longo, foi entalhado em amor, em gostar de viver.
Se sonhei, se sofri, se errei - a verdade, só eu sei.
Cheguei, velho que sorri, até aqui.
É certo:
Valeu a pena viver.