quinta-feira, 12 de julho de 2012
Olhares
Um olhar. As pessoas choram, sorriem, falam apenas com os olhos. E, nos olhos que me procuram, acho imagens que ficam gravadas na memória.
Ah, a memória. Memória que revive fatos, fatos que revelam o olhar. Tudo vai do momento. Ficou na lembrança o olhar doído – quanta dor havia ali – de minha irmã, quando. ainda no hospital, teve a notícia de que havíamos perdido um irmão. Um belo irmão. Um estudante do Pedro II, menino de muitas namoradas, menino de chegar do colégio trazendo um jornal de baixo do braço. Havia muita dor naqueles olhos que remetem às lembranças tristes daquele dia.
Mas há olhares mais amenos – os olhos claros da colega do Colégio, minha amiga, muito amiga, que nunca foi namorada. Eram olhos verdes, belos olhos que – sem dúvida – foram motivo de paixão. Dona de um belo cabelo negro, de um sorriso que me encantava, me seduzia, ela nunca soube o quanto fui apaixonado por ela. Mas ela tinha namorados mais velhos, que podia casar com ela e eu, apenas um estudante capaz de dar aulas de matemática – acreditem, é verdade – ficava perdido no sonho que nunca revelei.
O tempo do Pedro II terminou. Outra paixão foi inevitável. Ela soube, não adiantou. Foi então que um amor se fez forte. Fui em frente, sem acreditar nas advertências que me diziam que o sonho - a mulher belamente morena, de olhos negros e beijo interminável – podia trazer também muita atribulação. Que me importava? O necessário é viver a vida, vida que nos marca, fere, ensina. Ficou o aprendizado, ficaram conquistas, recordações indispensáveis.
De novo, olhos claros entram em minha vida. A imagem que mais tenho relembrado diz dos tempos de luta, do desgaste em enfrentar a repressão a cada dia. Foi assim que quase deu um soco num amigo. Eu chegava para trabalhar. Na porta do elevador, ganhei um tapa no ombro e virei para revidar seguro. Ainda bem que parei. Era só um amigo, amigo brincalhão, de caminhadas e festas. Tudo terminou num abraço. Se o soco saísse, seria a respostas de quem sabia que, a qualquer momento, poderia ser atingido pelas garras do poder. Se fosse, o que adiantaria a reação?
Viver era arriscar. Mãos desarmadas, poesia contra um monstro de garras e armas. E a gente fazia passeatas- grandes e pequenas manifestações, alfinetes no dorso do estrutura repressiva. Mesmo nessas horas tensas, havia ternura. Nesse dia, a Cinelândia era um mar de gente, principalmente estudantes. Acho que foi na passeata do cem mil, no centro do Rio. Entre os grupos, encontro uma colega de Faculdade. Ela veio sorrindo, os belos olhos azuis alegres. Sua mão delicada toca meu cabelo, num sinal de carinho. Gesto que encanta. Gesto que fica marcado. Passamos a ser companheiros. E, quantas vezes, esperamos juntos o início de passeatas, ali pelo centro do Rio. Como me lembro do dia em que, de braços dados, andávamos pela rua Uruguaiana, como se nosso interesse fossem as vitrines. Eu, de terno, ela num vestido amarelo, muito bonita, cabelo comprido, solto – um belo cabelo, não essas coisas de alisamento, que mais parecem filetes de madeira. A ansiedade, o medo nos aproximava mais e mais, até que o grito explodiu pela rua, em mais um episódio de protesto.
Tantas vezes saímos juntos. E fui levá-la em casa. Tínhamos ainda amigas e amigos em comum. Ela da zona sul, eu já casado – casado e infeliz – mas capaz de deixar rolar manso um sentimento difícil de se realizar. O encanto não se quebrou: ela desconfiava, mas não soube exatamente o quanto foi clandestinamente amada.
Olhos. Belos olhos. Olhos que falam de paixão, de bem querer, de tristeza, de alegria. Olhos que me disseram tantas coisas, coisas que não revidei e deixei que seguissem pela vida os muitos sonhos que estes olhos provocaram. Ainda bem que as lembranças coloridas ainda me falam da emoção que um olhar pode provocar.
Um dia, olhos escondidos atrás de óculos me levaram por um caminho mais tranquilo e as emoções vividas se transformaram num tesouro que a memória guarda. Quando a noite é de lua, revisito os arquivos aprisionados e estes olhos saltam para o papel, como quem tira peças de um baú encardido pelo tempo. As oportunidades existem, viram verdade ou lembranças. Mas como é bom poder lembrar as emoções vividas e contar histórias de encantamento e paixão.
É certo: as paixões aconteceram e a vida não me negou a alegria de saber dos muitos sorrisos que ganhei pelo caminho. No orgulho de ser velho, há um lugar especial para desentranhar as emoções, os gritos que ficaram presos na garganta. Recordar é festa que se transforma em texto. É sempre uma alegria relembrar os momentos onde o amor está presente. A alma agradece por conseguir abrir este velho baú de lembranças, pleno de recordações. Há sempre um orgulho nos olhos pela vida vivida – não importam erros e acertos. O Melhor foi viver.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário