terça-feira, 13 de outubro de 2009

Violência e respeito à vida

Assaltaram a cabine da PM. Levaram uma arma. No Recreio, um tiro destinado a um policial mata um homem que jogava cartas num quiosque. O homem se tranca com o filho num hotel. Mata o menino e se mata. A mulher, em processo de separação, quer arrancar até as calças do ex-marido. O sujeito entra num shopping, mata a ex-namorada.
A lista é grande e, no dia-a-dia, vai criando sobre nossa pele uma carapaça, um isolamento capaz de lermos essas notícias e continuarmos a viver.
Ao mesmo tempo, um homem acha e devolve o salário do outro. Na hora da chuva, da corrente de lama, água, detritos - as pessoas arriscam a própria vida para salvar a seu semelhante. um banheiro de aeroporto, um homem acha uma carteira recheada de dólares e devolve.
Uma diferença: o crime é sempre notícia. O simples gesto de desapego, de gentileza - um simples ceder a vez no trânsito - não tem cartório nem delegacia para serem registrados.
Meu pai nadava bem. Mais de uma vez eu o vi entrar no mar para tirar pessoas.
No dia em que um dos meus filhos se atrapalhou com o mar em Camboinhas, o dono do jet-sky se negou a ajudá-lo. Como não conseguia enxergar direito o intervalo das ondas, decidiu nadar no sentido de Itaipu, onde as ondas são menores. Não precisou tanto esforço: um surfista, de melhor acuidade visual, o acalmou e deu a dica certa para que ele pudesse sair da água, sem perigo.
O carro enguiçou próximo ao Makro. Apareceu um rapaz que abriu o distribuidor, o secou e, rapidamente, voltei a viajar.
Há pessoas que me falam de carinho, do valor da amizade, que me mandam mensagens que colocam em destaque a sensibilidade do ser humano.
De outro lado, as novelas mostram, via de regra, uma gente ruim e sem caráter, capaz de tudo pelo consumo ou por dinheiro.
O que mais me assusta é a violência nos colégios, a violência contra os mestres.
Onde se perdeu a educação? Por que caminhos a sociedade foi valorizando o banal, o supérfluo, a discriminação para chegarmos a este ponto?
Dois pratos da balança: Os gestos anônimos de amor e, no outro extremo, a violência desconcertante de todos os dias.
Prefiro acreditar que, apesar de tanta loucura, ainda resta muito gesto bonito para nos fazer gostar da vida.

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