segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fim de ano

A primeira década do milênio termina. Sou do século passado, gente antiga, emoções à flor da pele, apesar da idade que não destrói o menino roceiro, nascido no Rio, com passagem por Volta Redonda e criado e Jacarepaguá.
A vida coleciona mudanças e saudades.
As fotos mostram meninos que já são homens, praia deserta que está cheia de construções irregulares, pessoas infinitamente queridas que já não fazem parte do nosso dia-a-dia. Por maior que seja a racionalidade, a morte nos desconcerta e planta a ausência, que a gente transforma em saudade, em lembrança.
Lá vem Natal, vem a foto da mesa grande - a mesa continua na varanda da casa de Praia Seca - só não sabemos quando teremos novamente um almoço com irmãos, sobrinhos, amigos, parentes.
Há uma dúvida, uma incerteza plantada no peito.
Natal, depois vem Ano Novo e primeiro de janeiro seria aniversário de Emanuel, o irmão que morreu atropelado na madrugada de um domingo de Páscoa.
A vida passa, não esqueço de montar o presépio simples, o galho enfeitado à guisa de árvore de Natal.
Há embrulhos bonitos pela casa, feitos pelas mãos hábeis da Dil, há roteiros de mercados, compras, frutas exóticas.
De primeiro, os meninos cavaleiros apareciam, havia amigos em volta e as visitas aconteciam. Colegas de Felipe sempre apareciam - ele, hoje, se preocupa em não deixar os velhos sozinhos - mas Felipe também cresceu e são poucos os colegas que estão por perto.
Lembranças. A casa de Jacarepaguá, meninos reunidos em volta da mesa, presentes de Papai Noel, alegria, simplicidade.
Noite Feliz é música que tráz de volta o piano da minha mãe. Morávamos na Ilha e levei para ela a partitura, motivo de alegria - logo eu que lhe dei tanta contrariedade. Mas o tempo não volta. Minha mãe foi-se embora e nem viu o último dos meus filhos. Quando ela morreu, eu começava a consertar a vida, vivendo com Dil.
Há muitas coisas que faço onde o dedo dela está: o gosto pela comida bem temperada, o prazer da mesa farta, o peixe feito no forno, o presépio ornamentado, a fé em Deus - Nossa Senhora e São José nos quadros de nosso quarto de criança.
Vem dela a simplicidade, o amor pelo sertão, a admiração pelo Piauí, que ela descrevia como a melhor terra do mundo.
O gosto pela mesa farta também vem do papai e fica difícil separar, com exatidão, o que vem de um e de outro. A injustiça, certamente, acontecerá. Mas tenho que relembrar o quanto aprendi com ela de gramática, com apoio no livro de Antenor Nascentes - uma filho pendurado no quadril, o livro na mão e a lição tomada no quintal em Jacarepaguá.
Na Ilha, quantas vezes saímos na madrugada para pescar na Praia da Bica - papai e mamãe conosco. Sirís, camarões e algum peixe faziam a fartura de que ela tanto gostava.
Tudo ficou no tempo. Minha cabeça branca, meu caminhar atrapalhado mostram que o tempo passou sem pena. Mas é preciso enfrentar e, em cada canto, alguém receberá um presente e teremos o prazer de armar uma mesa bonita- Dil gosta muito desse arranjo - para festejar com sobriedade o Natal.
No fim do ano, é preciso rezar na beira do mar, na Igreja coberta de céu, reverenciando o amor pela natureza que pai e mãe me deixaram.
Quem estará por perto?
Como saber. Porém os amigos, irmãos e parentes estarão unidos numa grande corrente de paz , nnuma aura imaginária de amor e tranquilidade, para que se repita a todos: Feliz Natal e própero Ano Novo.

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