quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dia dos pais


Um amigo meu já postou saudade no Orkut. Vi, fiquei quieto.
Mas tem qualquer coisa remoendo no peito, tem qualquer coisa me lembrando que o Pai foi embora, sofrido, doído, maltratado por aquela cambada do hospital de Araruama. Diziam que era para salvá-lo, ma conseguiram simplesmente transformar em inferno os últimos dias da vida dele.
Essa é a parte sofrida.
A parte boa é lembrar de um homem cheio de vida, capaz de nos ensinar a posição das constelações no céu, capaz de nos acalmar na hora do desespero, capaz de citar a bíblia com conhecimento de causa e disposto a ser budista mas sem assumir uma postura de religiosidade.
Foi companheiro, amigo, vizinho. Nossas casas geminadas em Praia Seca nos permitiram muitos dias de convivência diária, tanto na praia quanto na lagoa e mesmo nos atos comuns do dia-a-dia, como almoçar, lanchar, tomar café da manhã.
Nadador competente, era capaz de flutuar melhor que nós todos - isso já na velhice. Enfrentava o mar sem medo e foi a custo que deixou de ir à praia, porque as pernas já não podiam enfrentar a força das ondas.
Dentista, trabalhou muito para criar nove filhos (um se foi ainda cedo) entre os quais seis homens e duas mulheres. Todos se formaram, cada um tem uma profissão. São muitos netos, muitos bisnetos. É um povo esportivo, alegre e digo sempre que festa lá em casa parece festa viking, com alguns gigantes plantados no meio do povo.
Entre as últimas coisas que me pediu, estavam as mudas de begônia. Consegui algumas e, até hoje, sua lembrança está escrita nas folhas que se renovam em torno da capela, no sítio.
Na capela, a lembrança se refaz no grande terço de madeira, que ficara sobre a guarda de sua cama, presente da Maria José, companheira dos últimos tempos.
O velho José Álvaro morreu lutando para continuar usufruindo o que a vida tem de bom: gostava de um vinho, de uma cerveja e de um belo almoço. Amava a música e nem a surdez o fez abandonar os grandes compositores. A gente via um certo orgulho nos olhos dele quando nos reuníamos para comemorar seu aniversário ou algo deste porte. E, se pudesse, ainda teria gosto em arranjar uma nova namorada: não perdia a vez para cortejar uma mulher.
Assim foi meu pai: um trabalhador incansável, um amante das boas coisas da vida e um guerreiro que maus profissionais empurraram para o outro lado sob sofrimento. Morrer, a gente sabia que ele iria morrer. Mas o cruel é lembrar a desgraça que é um centro de tratamento intensivo na vida de uma pessoa.
Melhor é lembrar da força deixada em Praia Seca, onde a velha pitangueira se desmancha em flor e atrai as abelhas - abelhas, outra paixão do Zé das abelhas que foi embora e, inevitável, nos faz chorar de saudade quando pensamos nele.

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