segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Coração bagual
Quem tem coração historicamente bagual, vagabundo, incoerente, nem sempre está feliz. Foi assim que, outro dia, bati na tristeza que nem gente ruim bate em cachorro louco. Tranquei a mágoa no peito, chorei para dentro da alma, sem dizer nada, sem reclamar. Pior é essa água teimosa, que quer escorrer dos olhos. Nada feito. Não me entrego. A represa está cheia, o coração repica que nem sino desafinado, falha, remancha , mas não para. É tudo que preciso. Vinicius , em CD, dá seu recado. O Quarteto em Cy esbanja melodia. A música popular brasileira desfia em poesia os revezes do amor.
E vou transformando a mágoa em esperança nesse dia chuvoso. Nem sempre a gente escuta o que espera. Nem sempre a saúde é a que a gente quer, nem sempre o corpo nos deixa vier como queremos. Há um cansaço dilacerante no acordar. E a música que se houve parece vento desencontrado, sem direção firme. Então, abro a vela do silêncio e deixo que o barco da vida vá singrando águas desconhecidas e rezo para não perder a rota. O peito dói, coração que falha de novo, artrose que me tolhe os movimentos, estômago que não me deixa comer queijo. Viajo na internet. Fico feliz com a flor e o cavalo branco, fico feliz com a cabra e ovelha postadas ali no Facebook. Rememoro caminhos que andei, busco alegria nos bichos, danço danças imaginárias que me fazem encontrar trilhas para achar a vida melhor.
O frio não me incomoda. O que me incomoda é perder o leme, é perceber a impotência para mudar o destino. Nessa história de ficar em casa, acho que ando vendo novela demais, TV além da conta. Do contrário, qual seria a explicação para me lembrar de lances já tão antigos, como a gaúcha que me chamava de negrinho, nas belas cartas de letra miúda e caligrafia caprichada. Foi um amor de relâmpago – “Xangô meu pai me deu tantas mulheres para amar”, diz Vinícius. A imaginação viaja. Penso que, daquele amor, quem sabe, poderia ter nascido uma criança- outra filha? Não sei. A vida tem tanta novela, que as novelas da telinha não me surpreendem. Nunca mais nos vimos e nos perdemos no mundo. A criança, hipótese possível, surge no imaginário deste escriba. Até pouco tempo, ainda tinha a bolsa de viagem com que ela me presenteou, quando nos encontramos em São Paulo. As cartas eram apaixonadas. Não fui parar em Porto Alegre, preso enredado em amores, na pele morena de mulheres daqui do Rio. Eu e a gaúcha de olhos claros nos perdemos na rotina da vida.
O fato das mulheres morenas marcarem a trilha da minha vida não é uma verdade absoluta. O tom da pele variou de um extremo ao outro. Não fica uma gota de arrependimento. Sempre mulheres que me encantaram sem explicações. É assim mesmo: viver não tem muita explicação. Meu pai era de Petrópolis, minha mãe, do Piauí. Criado na roça, em Jacarepaguá, sempre me encantei pelas coisas do nordeste, mas me apaixonei pelo Rio Grande do Sul. Nunca fui um carioca típico. As pessoas postam na internet o fato de serem cariocas de verdade. Sou falso. Nasci no centro do Rio, mas gosto da vida rural. Gosto desse jeito gaúcho de amar a terra, de falar em querência - o amor ao torrão em que se nasce. Fui do samba, da cerveja, da passeata, mas tudo passou. Criou-se no peito um amor por um país sem praia, cheio de rios, montanhas, planícies, de gente que dança, canta, bebe, monta a cavalo, que é pobre, que é rica, mas que fala ocê e não tem medo de ser caipira.
Fiquei perdido. Não sou da roça, nem da cidade. E hoje, enquanto a chuva cai, vejo meu universo se despedaçar – parece coisa de igreja, universo em desencanto – não só viajo pelo passado, como busco alegria nas postagens das redes sociais, onde a amizade sempre oferece um apoio a quem anda fora do prumo. É preciso sacudir a poeira. Em busca de alternativa, vou para o jardim. Quem sabe, para alegrar o dia, uma inesperada flor tenha desabrochado na estufinha?
Ou será que terei que cortar muitas estradas para achar um poente encantado, capaz de curar o peito desse sentir sem sentido? Relembro estradas na caatinga, cerrados de flores e frutos, gigantescas árvores da floresta. Viajo no imaginário das terras por onde deixei minhas pegadas, seja na areia da praia, nas coxilhas gaúchas, na poeira das estradas, ou no asfalto sem alma. Meu coração – diria o gaúcho – é bagual. Ainda bem. Certo que é bagual velho, que não tora cerca, nem procura briga. A vida me fez entender que é preciso permanecer calado – não se larga o porto em meio à tempestade - até que o gelo se derreta e o sol crie reflexos na pá do remo que corta a água. Firme no leme, fujo do abismo e a música sempre trará novos encantos para alegrar o peito.
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