sábado, 12 de abril de 2008

Arnaldo Bloch, no segundo caderno de O GLOBO de 12/04/2008 escreve a crônica "Eu também sofri com a Ditadura". Aí vai um comentário:
É, o benefício pode ser dentro da lei, como salário de deputado, aumento da verba de gabinete, viagem para não sei onde, verba para município do aliado político e mais uns quinhentos picaretas que não consigo citar agora.
O benefício - este deveria ser o espírito da lei - era para proteger gente que perdeu pai, gente torturada, morta e combate.
Há um conselho que analisa os casos e aí mora o perigo.
Um milhão para este intelectual, outro milhão para aquele e o líder sindical de não sei onde, aleijado a pancada, quanto leva?
Prejuízo? Que prejuízo?
Será que esta gente dita de esquerda, moradora de Ipanema, transitando entre Paris e Nova Iorque, teve mesmo algum prejuízo com a repressão militar?
Acho que sim. O caruncho lhes comeu a vergonha, possível camada fina, que lhes enfeitava a cara de pau.
O que dói é que nós, cidadãos comuns, que ainda guardamos alguns nomes como ícones - verdadeiros comandantes - vamos perdendo, dia a dia, o respeito por uma gente que foi idolatrada - que massada.
Lutei na rua, senti o medo ao lado de Norma na Uruguaiana, vi o pavor nos olhos das pessoas nas passeatas, dormi muitas noites preparado para fugir pela lage dos fundos, briguei nos corredores da Nacional de Direito, ajudei a escrever ditadura na primeira página do Jornal do Commercio, para contrariedade de Moacyr Padilha, levei Milton Coelho e Milton Temer à loucura porque só queria saber de manifestação e fugia do trabalho, virei carrinho da telefônica na Rio Branco, apanhei na Faculdade de Medicina. participei de passeata relâmpago no centro da cidade, estava na primeira passeata feita pela contra-mão no miolo da cidade. Lógico, era soldado, não era general. Nem Wladimir, meu amigo de caco-livre, se lembra da minha cara.
Trabalhei, ganhei pouco dinheiro, porém nunca pensei em transformar os capítulos da luta que participei em grana.
Como bem diz você, eles têm todo direito de correr atrás do benefício oferecido.
Só que a nação dos soldados, dos operários, a multidão sem rosto, que está fora dos benefícios, ruge e espuma quando ouve uma história destas. Pena que esta gente realmente prejudicada nada pode fazer quando, em nome dos oprimidos, intelectuais bem sucedidos recebem recursos de uma nação empobrecida.
E o respeito que essas pessoas inspiravam vai se diluindo no copo transbordante dessa verba espúria e mal cheirosa que ganharam.
Depois vem o mar, o futebol, o rebolado da mulata e tudo se esquece.
E vou me sentindo cada vez mais sozinho, desconfiado das lideranças em que acreditei.
Estou triste, cronista, triste com toda a loucura deste país, exatamente quando está no governo gente que ajudei a eleger e em que acreditei em tempo de luta real.

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