Dia 29 passado, José Álvaro faria 89 anos. Não conseguimos trazê-lo até aqui.
Seu último ano de vida, encerrada em final de agosto passado, foi um suceder de internações e brigas nas UTIs e CTIs.
Ele tinha muita energia - vontade de viver, apesar da doença, das dificuldades auditivas, da necessidade de uma acompanhante e de tantas dores que sentiu.
Nunca desistiu. Os médicos disseram que ele não conseguiria mais andar.
Optou por deixar o apartamento da filha no Rio, voltou a morar em Praia Seca, alimentava-se bem, com gosto, sem dispensar, volta e meia, um vinho ou uma cerveja.
Quase todo dia, subia até a beira da praia, para apreciar o mar.
A dra. Ana Beatriz o transformou num amigo. Sempre que necessário, o internava, mas o liberava o mais rápido possível.
A última vez, não conseguimos levá-lo para o Rio Confiamos no HC Lagos, hospital de Araruama.
A última vez que falou comigo, disse que o estavam matando.
Que fazer?
Protestamos, pedimos informações. Um médico disse que ele não estava sendo dopado. O chefe dele disse que a sedação era necessária.
Perguntaram o que ele comia. Surpresos, disseram que ele precisava de uma nutricionista e que sua dieta, no Hospital, seria outra.
Realmente foi: sopinhas ralas, que o deixavam com fome - sensação que, até hoje, me incomoda.
Com fome, fraco - isso porque queriam curá-lo, porque ele não podia broco-aspirar - foi preciso que usassem uma sonda, para alimentá-lo.
Não sei se a imperícia foi só de quem tentou enfiar a sonda nariz a dentro de meu pai, ou se a irresponsabilidade começou na escolha do material.
Certo é que o instrumento arrebentou uma artéria no nariz de José Álvaro. Na hora da visita, agarrado por enfermeiros, começou a vomitar sangue.
A "cura" deu resultado oposto: ele bronco-aspirou, passou a vegetar e, dias depois, faleceu.
A dificuldade, apesar da determinação do Ministério Público, é fazer com que a polícia apure a ocorrência.
Este acidente de trabalho, uma fatalidade, como dizem os médicos, no ambiente jurídico se chama crime culposo. E merece punição.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
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Um comentário:
Tião,
Triste é saber o quanto isso é comum. Meu pai passou pelo mesmo calvário, trinta dias numa UTI, após uma cirurgia de pontes de safena, aos 82 anos.
O senhor bem disposto, que dirigia para Araruama todas as semanas e sentia um certo cansaço, que não o impedia de viver, foi convencido a ser operado. Ficou dez dias no hospital, sendo preparado, até que ocorreu a cirurgia, a UTI, a brocoaspiração, a septicemia e o final trágico.
O hospital não permitiu a presença de um médico particular para acompanhar o caso e o transferimos, mas já era tarde demais.
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