Na sala, o menino olha a dificuldade do velho para calçar o tênis. O velho se esforça, usa meias - o menino sorri.
Lento, apoiado na bengala, o velho se levanta. O menino supõe piruetas, dança na música, simula correrias.
Sacudindo o corpo, o velho lembra do tempo em que ainda andava de bicicleta, montava, corria.
Olhando pelos mesmos olhos, o menino quer andar ligeiro, sacudir os braços, mas o velho se desloca como quem arrasta uma bola de presidiário.
No portão, os pequenos galhos de hera tomam conta do poste. O menino pensa:
- vou subir no muro, cortar a era. É simples.
Mas o velho, colocado no mesmo corpo, pensa que é preciso pedir ajudar - buscar alguém para cuidar da bela parasita que pula do muro para o poste.
Na direção do carro, velho e menino se encontram, mas o velho prevalece na prudência necessária para dirigir. Se ainda fosse a bicicleta...
O velho percebe que o menino está ainda ali, morando nos seus olhos, cravando uma pergunta:
- Quando este corpo perdeu a agilidade, ficou velho?
O velho não sabe. Tem certeza de que não sabe tantas coisas quanto pensava saber.
A chuva cai, o frio invade o dia e o velho busca um agasalho - o menino pergunta para que isso, por que não sai sem camisa??
Na curva do dia, menino e velho se encontram no mesmo corpo cansado, entorpecido pelos remédios para o coração, espetado pelos osteofitos marginais, doído pelo esforço de andar torto, apoiado na bengala. E o menino envelhece, enquanto o pensamento voa para o futuro, numa dúvida aguda do que será o dia de amanhã.
Mais dúvidas levam o menino embora - ele desaparece como se fosse levado pela correnteza do rio, rio onde embarcações endurecidas como desamor, rejeição, desinteresse vão navegando - tripulação flibusteira, a tentar atacar a fortaleza da mente, onde o menino, por milagre, ainda encontra refúgio.
Nem tudo está perdido: vale passear sertões em Sagarana, navegar Veredas, enredar-se pelas histórias do "Endurance".
Pela Internet, chegam poemas, mensagens de afeto. E a vida, entre real, virtual e imaginativa, vai se refazendo no dia-a-dia, independente da solidão que se quebra com o amor da companheira, o olhar dos bichos, com a beleza das flores que nascem no jardim.
As limitações da velhice são reais. Irreal é o mundo que parece jogar o velho para uma gaveta, ou para uma cama de hospital onde os médicos chamam de vida um olhar perdido na distância infinita.
Menino e velho concordam numa coisa: ainda não chegou o tempo da dependência e a liberdade de ir e vir - limitada, é certo - ainda é o grande argumento para que a vida continue fluindo pelo corpo. Enquanto dia e noite se revezarem, não há porque deixar o barco, a menos que o peito quebre e uma outra viagem se inicie, ninguém sabe com que destino.
domingo, 18 de julho de 2010
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