sexta-feira, 20 de maio de 2011

Atrevimento

Um beijo atrevido. Abraço inesperado, inesperado olhar a provocar uma dança de pernas sem fim. Como? Nesse imobilismo onde todas as conversas são pela Internet? Sim, certo, mas a saudade abre teatros no peito e monta mundos onde o menino ainda vive.
Vale lembrar um olhar percebido que, dia seguinte, virou combate, o bom combate a que se refere o profeta Vinícius. E os olhos dela, perdidos e confusos entre a areia e mar, a me dizer que o atrevimento foi bem vindo.
Hoje, a chama vai chegando ao fim. Vive-se um amor tranquilo, de paz e momentos interessantes. Mas as lembranças - ah, as lembranças ficaram.
Era mulata, de óculos, bela. E lá vinha eu saindo da Ilha, de ônibus, agarrado com ela, quando minha irmã e colegas entraram no ônibus ... Ainda era tempo de constrangimento, mas ficou por isso mesmo, que o carnaval ia começando e a noiva nem sabia por onde eu andava.
A pele negra acende reflexos na noite. E a vida caminha em corcéis de fogo num hotel da cidade. Negra. E linda. Foi querida, namorada, mas não ficou. E, sem emprego, sem destino, como estabelecer qualquer coisa mais séria?

Pior - e isso acontece ainda no tempo do Pedro II - é trancar no peito a paixão por entender que ela, paquerada pelos mais velhos, atacada por quem podia falar em casamento, pior entender que ela jamais iria me namorar. Fomos amigos, amizade gostosa e eu me deixava perder nos olhos verdes, em nossas intermináveis conversas no ponto do ônibus. Nunca falamos de amor.
Um dia, um beijo, uma pele clara - logo eu, que sempre tive namoradas morenas e daí para mais - me crava um sentimento no peito. Não, não era hora. A música fica eterna, plantado fica o sentimento, com gosto de vinho branco e olhos de não esquecer.
- Quantos casamentos, Tião? - Perguntava meu pai.
- Três, pai.
- Só? Vou contar.
- Não. Só valem os que resultaram em filhos!!!
Ele ria, divertido em saber das minhas loucuras.

Caminhos. Tentativas. Mulheres, sempre belas dentro do momento vivido. A elas agradeço a beleza da vida, o poder recordar e reviver o que aconteceu.
Vale, como sempre relembrar o poeta: Xangô meu pai me deu muitas mulheres para amar ... E, como ele diz, fui atento ao amor em cada tempo, embora tenha causado vergonhosas decepções a algumas companheiras.

Hoje, as pernas cansadas, os bailes acontecem no salão da saudade e têm o colorido alegre dos muitos bons momentos vividos. Só posso mesmo agradecer as mulheres o baú imenso de sensações que elas me deixaram e exibir, com certo orgulho, as cicatrizes marcadas no peito que nem o tempo consegue apagar.

2 comentários:

Paulo Almeida disse...

Sempre bom ler seu texto, meu tio. Sempre bom escutar suas palavras. Dentro das minhas lembranças, de dentro do peito doído do pai que não havia, sempre havia você a mostrar a vida. Para citar o poeta: a direção do meu olhar era o seu dedo apontando...
Sege o abraço e a injustificável saudade.
Paulinho

Corina disse...

Belo texto, Tião!!!Leitura fácil, agradável, livre!!Parabéns!Bjs.