terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Roça


São tempos de mercado, shopping, compras.Final de ano. Aquele natal de presépio vai-se sumindo aos poucos. Olho a roça, boi e cavalo, galinhas no quintal. E lá se vão frangos para a panela. Tem caju, tem manga em quantidade, tamarindo no pé. E tem o verde da horta, o queijo feito em casa, abóbora, aipim. Lá vem o carro cheio de coisas, rolando no asfalto quente do meio-dia.
Para chegar à roça,a aventura de sempre: poça d'água, vala no caminho, lama na ladeira. o carrinho - arremedo de jipe - pega firme na estrada, arrasta os sacos de cimento e vai sem medo. Lama pula, água se espalha e o motorista, sem nem falar, agarra o volante, olhar firme na pista, quase nem vê o verde úmido a rebrilhar no sol. O carro se sacode, ginga um pouco, a poça é grande, último obstáculo e termina a graça da aventura do dia. No asfalto, no chão seco, nada de novo: é tocar em frente e chegar.
Se o motorista se diverte, a passageira reclama do solavanco, do buraco, da emoção. Não é exatamente a vida que gosta, nem acha a paisagem mais bonito que vitrine.
No pasto do vizinho, o potro fica mais bonito a cada dia. No sítio, o capim explode em verde e os abacaxis, por trás da capela, começam a ficar maduros.
É a roça. O ovo de quintal, o canteiro de minhocas, o peixe do lago. Mas o vermelhinho volta pra pista, acha asfalto, corre e a cidade está aí mesmo, com computador e sem paisagem. A alma dói, a saudade aperta, mas o sonho veio tarde demais e, sem a companheira, o sonho fica incompleto.
Não faz mal. O ano termina e vamos ver se, no próximo, a vida se desenrola mais perto da natureza, do espaço aberto onde a música é o canto dos pássaros, o barulho dos bichos de casa.
Que fazer? A alma caipira me cobra presença na roça. Não dá par gostar de centro comercial. Da mesma forma, fica difícil viver lá sozinho. É o dilema. Quem sabe a solução aparece num sonho, em plena noite de Natal?

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