quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um piano me conta de Chopin nesta manhã. Cabeça roda, voa, varanda da casa da Ilha. o grande Flamboyant ( pétalas que flamejam na minha lembrança, vermelhas) e as folhas da jiboia coladas no tronco. O som do piano, polonaise, toma conta da casa, casa que se desmorona com a morte de minha mãe. E ontem? Jacarepaguá. Tia Yara me conta que demoliram a casa que foi de meu avô, ali na Gabinal, esquina de Caribu, a grande ladeira que descia para o curral do general, onde papai comprava leite todas as manhãs. Faz tempo, o curral virou indústria. Não foi só isso. Demoliram muito mais. Demoliram um Jacarepaguá inteiro, onde sítios viram prédios, onde os carros engarrafam ruas, como a Araguaia, que conheci sem calçamento, quase um caminho, por onde andei de bicicleta. A velha escola só tem entrada pela rua Mamoré, não pela três Rios, como era antes. Carros, muitos carros. Comércio. Onde foi parar o bairro onde estudei na escola pública, por ondei de bicicleta para todo lado, desde Cascadura até a serra do Quitite? Onde estão os sítios, o avião que caiu na serra, os pescadores e caçadores vindos da lagoa, o rio Fundo, cercado de pastagens por todas as margens? Nada mais existe. Recupero pedaços, rastros, lembro do taxi de seu Joaquim, ou de seu Alfredo que nos levavam para casa em situações emergenciais. Gado no meio da rua? Não, nada disso, Nem gado existe mais, nem Corumba montando belos cavalos. Há prédios enormes prédios. Passaram uma borracha no meu passado: as imagens sobrevivem apenas na memória. Tombos de bicicleta, galinhas no quintal, papagaio perdido no cajueiro, menino de braço quebrado, o velho Ford 37 do vovô. Tudo isso ficou mais vivo na viagem à Jacarepagua´. Uma das tias teve o apartamento desmontado e foi transferida para uma internação de idosos, onde conta com assistência durante 24 horas. Como vida se esvai. Já não existe mais a sala com os galos de prata, os álbuns de fotos estão à nossa disposição e ninguém valoriza os diplomas de dentista, emitidos pela então Universidade do Brasil, num papel muito especial. Quadros, louças, livros, enfeites, documentos - tudo se mistura às peças de pano necessárias a uma casa. As escrituras de imóveis - todos vendidos - já não têm a menor utilidade. O patrimônio, vendido, transformou-se em recurso financeiro, devidamente depreciado pelo sistema bancário, com suas regras onde só ganha o banqueiro. E a previdência, para o qual o tio contribuiu com 20 salários e depois 10 (limitação legal) corroeu a pensão da tia que anda próxima de dois salários. Fica uma dúvida sobre o viver, o guardar e a doença que consome o cérebro, memória das pessoas. Além disso, me pergunto como será minha roça, dentro de 50 anos. Olho o bairro onde moro - Maria Paula, em São Gonçalo - e não vejo mais terrenos baldios. O bairro sofre um processo de modernização assustador, com todas as consequências da urbanização. Que mundo, que tipo de cidade teremos? Quando se discute Código Florestal, os produtores rurais ficam na berlinda apesar da responsabilidade de produção de alimentos para cada um de nós. Na outra ponta, os loteamentos vão destruindo a natureza para implantação de novos bairros, emendando cidades que acabam se transformando em gigantescas megalópolis. O som de Chopin, pela manhã, teve gosto de mágica, de presente bem urdido, daqueles que a gente recebe, ri, chora, sente o peito tremer. Foi como se música viesse para compor a trilha sonora de tanta coisa vivida. Amizade é assim: nos manda um carinho, um mimo, sem nem saber que está enviando um vinho gostoso para clarear a trilha. De concreto, o dia de hoje teve peixe, vinho branco, farofa de dendê e banana. Fica marcada a sensação do prazer da comida gostosa, feita em casa. E a polonaise ressoa como uma benção no fundo dos meus olhos. Cada vez concordo: a alegria é necessária e é fundamento viver a vida com felicidade. É por isso que fujo para o verde. Quero me esconder na paz da capela à beira o lago, na sombra do bambuzal. Canta, sabá. Imita o compositor. E a música de Deus fala de paz na manhã ensolarada da Bicuíba. A neta virá. Só resta mesmo sentir a sensação de que o sonho existe e está presente no dia-a-dia. Ser feliz é simples. Basta olhar em volta a beleza da vida que se reconstrói. Um pouco do passado fica na cadeira de balanço do papai ou na cadeira de balanço que foi da minha avó. Meu orgulho é conservar coisas que foram deles. Assim, o exterior destrói imagens, mas a gente consegue elaborar dois sentimentos: a esperança nos passos dos filhos e netos e a saudade dos que vieram antes de nós. A vida segue, vou sem medo da morte, procurando fazer com que cada dia me dê de presente um sorriso de felicidade, que pode ser o som de Chopin, agarrado no e-mail da manhã. Tem o lado bom da modernidade: os amigos estão presentes em nosso cotidiano, apesar das distâncias. Analiso sentimentos, brigo com a tristeza, enfrento as limitações físicas e não deixo de gostar da vida, vida onde existe carinho, amor, companheirismo, solidão, livros, bichos, amizades: com certeza, eu sou feliz.

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