segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Quem me acompanha?
Mania de velho é isso: fica revendo o que foi e ruminando o mundo em que vive. As informações rodam na cabeça; já não há tanta força no braço, mas se mexer na gaiola, as ilusões voam em todas as formas e cores. Calma, não dá mais para atravessar o oceano em caiaque. É, mas dá par remar em fim de semana. O braço dói e quebra a confiança em enfrentar o vento forte na lagoa. Também, que importa? Sobra a sensação da água na pele, o marulhar da água no casco da embarcação.
Roda cabeça para lembrar que você, um dia, resolveu estudar Direito. Foi sair do velho e bom Pedro II para a Nacional de Direito, antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Até aqui, a vida veio mansa, professor era autoridade, trabalho era reportagem no Jornal do Commercio (desde os tempos do CPII) , polícia era o guarda amigo da frente do colégio e professor muito admirado era Aurélio Buarque de Holanda, capaz de nadar do Calabouço à Urca e nos encantar com sua paixão por Cecília.
Direito. A defesa de quantos precisem. Mas a data é importante: 1964. Direito e liberdade. Fecharam o diretório, balearam a faculdade.Éramos todos comunistas, exceção do povo da ALA, capaz de denunciar colegas na comissão de inquérito. E teve professor - Theóphilo - correndo atrás de alunos nos corredores. E diretor - Hélio Gomes - que mandou recolher identidades no salão do Caco, nosso centro acadêmico. Em síntese, em vez de Direito, política. Política do enfrentar repressão. Mangabeira, o grande mestre da Economia, substituído e cassado. Não era escola amiga, era um ringue. Dor de colegas perseguidos, distância do estudo.
Qual a diferença entre Direito e Justiça? E a diferença entre lei e direito? E prossigo trabalhando. Cobertura do CGT. E as brigas com a direita estudantil organizada. Democracia? Que direito tenho de dizer o que penso?
E hoje? Onde anda o Direito, num lugar onde os legisladores garantem seus salários, salários de funcionários enquanto médicos e professores, que atendem à população, ganham miséria. Há um componente novo, o marketing, filho dileto da propaganda, que nos faz acreditar na honestidade de políticos em campanha e gente honesta não consegue se eleger.
Onde o Direito, em sua forma mais pura, onde a mensagem de que a norma se estabelece em favor do coletivo? Nada disso. A norma existe como espada sobre a cabeça de poucos. Irmã do marketing, a burocracia inferniza a vida do cidadão. A norma fala em prazos - advogados os sabem fatais - mas a burocracia protela e distrata o cidadão nas coisas mínimas, em processos sem visibilidade para a mídia. O juiz manda publicar um edital. E lá se vão mais de 30 dias para que se cumpra a ordem.
Quando se fala de saúde, o caos é pior. No lugar de enfermeiras - leia-se gente que cursou faculdade, nível superior - contratam-se meninas que não sabem a diferença entre um dreno e um agulha. A sucessão de mortes por incompetência, por desconhecimento está assustadora. Lógico. Hospital virou comércio recrutador de mão de obra barata. E quantos casos desses acontecem sem que se apure. O ditado é velho. O agrônomo erra, a terra mostra. O médico erra, a terra esconde.
Onde a lei? Onde o estado? Onde a fiscalização? Soube que, em município do Estado do Rio, há devolução de recursos enquanto falta merenda nas escolas. O cidadão comum não pode andar armado; as quadrilhas circulam nas cidades com armamento pesado.
Direito. A lei seria a expressão do Direito, a formulação do norma de conduta a ser seguida pelo cidadão, em benefício da vida em comum. Nada disso. A aldeia cresceu e abriu espaço para que se cultive o direito da força, o direito da elite esmagar os demais. O comércio - onde circula o dinheiro - apresenta o quilo de 900 gramas, o metro encolhido, embalagens com menor peso, produtos de menor qualidade. E as geladeiras, desligadas à noite, significam economia e um risco para a saúde.
A norma existe, quem cumpre? Sobra ao cidadão o direito de ser agredido no meio da rua, o medo da polícia, do fiscal e até do bandido.
A cabeça volta ao tempo da Faculdade, ao tempo das brigas na rua. O poder sem limites. E agora? Quem limita os grandes interesses que fazem crescer as cidades de forma desordenada? Por que pretender regulamentar o uso do meio-ambiente no campo, quando as cidades explodem em absurdos?
No final, velho e, pelo menos agora, travado em casa, penso que exerci meu direito de cidadão, quando pedi que apurassem a morte de meu pai. O Ministério Publico mandou apurar, mas o aparato policial perdeu-se na burocracia e nada fez. A prova maior está no próprio atestado de óbito, mas o que adianta? Como faço para que prevaleça a meu direito de ver o fato apurado?
Lei. Direito. Sobra, ao homem comum, a condução superlotada. Já a elite se vê obrigada a colocar cadeirinhas em seus carros para o transporte da prole. E se eu, num carro sem cadeirinha, preciso dar uma carona à mãe e filho, que vão caminhando no sol, como faço?
Deixo os dois na estrada, ou contrario a lei?
Sociedade estranha, onde os viciados financiam o tráfico, a bandidagem que cresce, formando verdadeiros exércitos nas "comunidades". Sociedade descomprometida, que financia o luxo dos tribunais, das casas legislativas e deixa à míngua pacientes de hospitais públicos e estudantes de escolas municipais. Sociedade onde o intrincado do poder se realimenta da ignorância e usa todos os meios - comunicação de massa - para manter na ignorância e na desinformação a maior parte da população.
E eu, velho, aposentado, sem movimento, fico pensando que o mundo está cada vez mais estranho, com muita obesidade e muita fome. Só mesmo fazendo como o poeta: pára o bonde que eu quero descer!!!
Do contrário, além do desabafo, vou partir para beira do mar e esquecer lei, Direito - estas coisas - em benefício da poesia, que nos permite olhar a flor, a mulher encantadora ali na areia, sem pensar no monstro incrustado entre o prédios da cidade.
É melhor mesmo - para não explodir - tomar uma cerveja no quiosque da Bel. Quem me acompanha?}
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