domingo, 18 de novembro de 2012

Artesão e tv

Artesão e TV Corina repassa: por um mundo melhor, diminua o conforto, aumente a simplicidade. Não se exiba, não demonstre riqueza. Abra mão de tantos aparelhos. Em princípio, concordo. Nossa vida é simples, sem ostentação. Conforto, sim, temos, o suficiente par levar uma vida tranquila. Dívidas? Inevitáveis. Se der - estamos trabalhando para isso - não deveremos mais nada. Por que as recomendações? Reflexo da crise. Esperança de um mundo melhor. Inevitável: a memória atávica, aquele cromossomo transmitido de outras gerações, me faz pensar numa aldeia, simples aldeia, aldeia de muito antigamente. Bem ali, o artesão vive seu dia. Marreta sobe, desce. Ferro incandescente se amolda, vira enxada, ponta de seta, ferradura. Madeira, cortada, recortada, alisada se transforma: cadeira, mesa, estrutura de sela, carroça, armário. Madrugada, sai o artesão em seu caminho. Imagina, pensa, cria, se inspira. E vai a feiticeira, rumo à mata, em busca de ervas, folhas, raízes. Volta alegre, vem trazendo um filhote de pássaro, um ser que precisa de ajuda. Feiticeira. O caldeirão que ferve, a oração fascinante. Mão que cura, palavra que acalenta. Há, nessa memória, infalível tropel de cavalos, homens que chegam com a caça, uma pequena roça plantada num quintal fechado, umas poucas galinhas circulando nos caminhos. Para viajar, era preciso tempo. E sobrava tempo para uma longa conversa, ou para o silêncio imaginativo de quem precisa criar um objeto a partir da própria experiência. Tempo passa, meu Deus, como passa. Eu, artesão, fiz a bancada onde escrevo, mas a máquina depende de energia e a pena se perdeu no tempo. Fiz a estante, o tampo da mesa, o banco de madeira sofrida. Plantei roseira, samambaias e resgatei uma avenca, nascida na parede. Linda avenca. Ainda prefiro o caiaque que o motor do jetsky. Apesar dos quase 70 anos, ainda tenho a esperança de velejar, seja na vela improvisada no caiaque, seja no barco - o velho bote de madeira. Mas meu serrote é elétrico, a furadeira não é arco de pua e os olhos trazem lentes poderosas - pura tecnologia - que me permitem continuar enxergando mesmo depois que o cristalino ficou opaco. Se parte da comida vem da roça, grande parte vem do mercado: as crianças de hoje não sabem de onde saem os ovos, o alface, a beterraba. Querem mesmo é sanduíche de caixinha e nem imaginam como se faz um queijo. Na aldeia, era possível reunir pessoas sob a árvore, para conversar. E era possível escutar, da feiticeira, história incríveis. A feiticeira virou tv, onde os pequenos assistem histórias loucas e podem ver toda sorte de crimes. E a violência toma conta do noticiário. Talvez não acontecesse tanta coisa, mas a violência é antiga. Os homens se preparavam sempre para lutar, defender a aldeia. E cada cidadão era um soldado, cada morador o compromisso de enfrentar o inimigo, que vinha sem avisar. Os ancestrais índios também guerreavam. Tacape, arco e flecha. Veio a pólvora, o estampido, a morte. A tecnologia sofisticou o padrão de agressão. Eu, artesão, aqui parado em frente a uma tela, desenho coisas que a memória sugere. Enquanto isso, o mar parece que cresce e ninguém sabe o que vai acontecer. O fim do mundo??? Ninguém se preocupe. Ele acontece, a cada minuto, para cada um de nós. O remédio é mesmo viver a vida o melhor possível porque, cedo ou tarde, o fim do mundo virá. Com certeza.

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