terça-feira, 12 de março de 2013


Destino

Tem uns versos de Cecília Meirelles -" a sorte virara no tempo com um barco sobre o mar" - às vezes a gente quer tanto um objetivo e, quando ele chega perto, parece que dá vontade de nadar o oceano de volta.
Dúvida, indecisão, aquela pergunta incômoda: a energia aguenta? Depois parece que o sonho vai acontecendo lento, como se o barco desvirasse: há uma brisa, um leve sopro nas folhas, um raio de sol entre as árvores no fim de tarde de pouco sol.
As pernas se mexem, os olhos se agitam. Um lembrança, antiga lembrança, passa correndo no espaço entre a porta e o nada. As mãos, não as mãos não estão feridas dessas pancadas incessantes em facas de ponta.
Na capela, o São Sebastião naife que Helena pintou. A imagem do Cristo. O rosário de meu pai. O sacerdote da lanterna. Os pequenos anjos. Um ar gostoso vem da tamarineira. Do outro lado, o lago. Patos pequenos, grandes, patos que vieram da vontade de Surya de ter uma patinha. Compromisso: essa não pode matar. E não mato. E o patos se multiplicam no sítio. E bonitos vê-los tanto na algazarra da água, quanto voando sobre o pasto.
Há uma paz na sombra do enorme jamelão, no vibrar do bambuzal gigante. Olho as pernas minhas pernas enguiçadas, as muletas, a vontade de andar e andar. E se eu não tivesse nada disso?
Bezerro berra longe, o pampa relincha, uma galinha canta assustada.
Esquece. Ouve a batida do coração em surdina, falando da vida. Ouve a água que corre por baixo do chão e enche o lago.
"Onde eu cante uma cantiga para ver se durmo também" - assim será, vou ouvir uma cantiga, canção de chuva, de mar, trancarei os olhos na noite para sorrir da esperança  de encontrar um simples abraço, terno abraço que diga o azimute - a direção perdida.
Quantos abraços? Quantos sorrisos me farão sorrir? OU será que, entre feliz e triste, as lágrimas vão rolar não como um lamento, mas como liberdade de ser forte na fraqueza inevitável.
Pode ser que eu engula uma bebida, pode ser tanta coisa que nem sei. Sei que é banzo, querência - algo assim. Sensação de que perdi todos os lugares e não sei se voltarei. Mas a sensação forte é de que, mesmo virando o barco, o farol de olhos amigos vai me guiar para o luar.
E no luar, feiticeira, eu vou saber onde chegar.

Nenhum comentário: