Mangas. Mangas pelo chão. Mangas - o perfume delas vem da cozinha, invade a sala - para virar suco, molho, geleia. Mangas. Antes, cajus. E coco. Virão jabuticabas? Bananas. É fartura. Do curral, o leite de todo o dia.
Festa da roça. Do mato. Oxossi, diria a Umbanda. Festa de São Sebastião que está bem próxima. Festa de Deus de todas as religiões a celebrar a vida, o alimento que se produz sadio na terra amanhada a cada dia.
E lá vão as minhocas, transformando em adubo o esterco puro, as folhas velhas. O sítio, improdutivo, pequeno, é uma verdadeira usina de renovação e surpresas. Ali, o maracujá. Lá adiante, os enormes bambus que rangem como um velho navio. No lago, o peixe, os patos.
É essa relação com a terra, mesmo agora que, fisicamente, já posso muito pouco, que me encanta. A bezerra se apronta como matriz e lá vem outra cria. O adubo fortalece a capineira, capim que se transforma na maçã do peito da Café, a última a dar cria. Na beira do lago, junto com os patos, os quero-queros que abrigam ali as suas crias, para que se desenvolvam - e lá vão eles, a gritar no espaço, como se fossem lá do Rio Grande do Sul.
Gente que passa, sonhos sonhados ali na varanda - sonhos de uma vida melhor. O coração que, pela manhã, ameaçou parar, revive e bate forte na alegria da vida refeita em cada canto. Galos cantam, galinhas fazem a propaganda dos ovos que botaram, o canarinho estala do coqueiro.
Pena, não tem jeito. É hora de voltar para a cidade, o computador. Não, não vale chorar. Vale acreditar na beleza da vida que se renova naquele pequeno espaço. Vale acreditar na força de Deus que nos dá a chance de perceber a beleza da vida - e da morte - a acontecerem na Bicuíba.
Venho embora, mas a imagem do sítio viaja comigo e aí vai, transformada em texto: é assim que gosto da vida e, apesar dos problemas, insisto em perceber cada nuance, cada cor nas flores da horta. Desistir é fácil, mas prefiro um mergulho na vida para continuar acreditando num mundo melhor. Acredito na vida. E a vida, simples vida, só me faz feliz.

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