quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Fumaça


Fumaça. Fumaça é uma figura. Quando o bairro era menos povoado, ela fugia, dava suas voltas e, invariavelmente, arrumava briga. As escoriações eram o certificado da encrenca. É Fumaça porque tem pelo grafite, é fumaça por sua capacidade de passar por onde a gente não espera. Ágil, caçadora por natureza, parece uma criança nos braços do Felipe.
Dócil, meiga e ,,, caçadora.  Sempre me lembro dela quando vejo as pessoas falarem do "amor" dos animais.  Olha, acredito mesmo na lealdade dos bichos, assim como acredito no ciúme que demonstram. Se a Guerreira estiver perto de nós e outro cavalo tentar se aproximar, as orelhas murcham de imediato e ela mostra porque é líder do rebanho.
Fumaça foi para  praia conosco. Resultado: pelo menos dois calangos foram mortos - belos calangos em tons de cinza e verde. Filhotes de viuvinha que caem do poste? Ela os esmaga sem pena. Se ainda fosse para comer: não, ela mata o que se mexe.
Comunidade animal parece comunidade de gente: há os que se gostam, há os que se agridem e há os que lideram e os que brigam.
Fica uma diferença: animal e "pet". Crio animais. Gosto de ver os cavalos soltos no pasto, não gosto que se capturem pássaros, mas achar que animais amam acima de tudo é contrariar a natureza. Lobos guerreiam. Touros se enfrentam. Leões se dilaceram. Brigam pelas mesmas coisas: comida, espaço, liderança e - principalmente - por causa das fêmeas!!!
Está certo, cachorrinhos de luvinhas - eu vi um, na praia - não podem ser enquadrados nesta escala. Gosto de bicho, respeito e concordo numa coisa: eles se manifestam de tantas formas que até parecem humanos.
Depois, fico imaginando o que faríamos com as boiadas se a população resolvesse não comer mais carne.
Tigre era um cão sensacional. Fila de boa índole, amigo. Mas coitado do gato que ele achou perto da cocheira. Não consegui que ele largasse o bichano a tempo.
Amor existe. Dá gosto ver uma fêmea cuidar de um filhote. Dá gosto ver passarinhos num namoro sem fim. Porém daí a achar que carnívoros são anjinhos - vai longe.
Aliás, tenho orgulho de fazer parte dessa comunidade de carnívoros que é capaz de amar, de lutar, de matar para comer. Os ancestrais eram guerreiros, caçadores, agricultores, trabalhadores.
E carrego na alma um pouco de cada coisa: o gosto pela palavra, feita poesia, o deslumbre com a amizade de se perpetua sem explicações. Carrego a admiração pelos mais velhos, a esperança de ser querido pelos mais novos; carrego esse gosto de lidar com bichos, de acompanhar a produção dos rebanhos; em contraste, consigo rever estudos de Direito que pensei jamais voltaria a lidar.
Na verdade, carrego na alma a vontade de ser feliz, o gosto de viver e esse sentir a vida, vida que se refaz na hora em que vem a chuva.
Mesmo velho, não tenho medo de ser feliz. Pulo a dor física, minimizo o sofrimento e consigo sentir um prazer enorme, seja no carinho da amizade, seja na hora da solidão em que o remo corta a água em meio à lagoa.
Vamos voltar aos bichos: Fumaça acaba de pular a janela, fugida da chuva. E veio se instalar, quietinha, bem debaixo do computador !!!

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