Entrevero 2
Meninos, meninos eu vi. Vi e participei. Ficava até tarde nas assembleias sindicais para noticiar as greves. Repórter do Jornal do Commercio do Rio, eu era responsável pela coluna sindical. Trabalhava até tarde. Dia seguinte, turno da manhã no Pedro II.
Foi assim que vi o comício da Praça da Bandeira, com a participação de Jango, então presidente da República.
Foi assim que cobri as reuniões do CGT e conheci líderes como Hércules Correia dos Reis, Dante Pelacani,.o genial orador Roberto Morena e outros mais. Conversei muito com nosso professor Bayard Boiteux, mestre de matemática no Pedro II.
As grandes manifestações, com a participação sindical e estudantil, incomodam a direita. Não havia internet, tv ainda era fraca e o oradores apareciam, empolgando as massas.
Muito debate, muita discussão.
Final de 1963. Fim do período colegial. Formatura no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A vida segue, vestibular, Faculdade de Direito no início de 1964. Reforma (esquerda) e ALA (direita) procuravam cooptar os calouros, ainda um tanto indefinidos sobre suas convicções políticas.
A festa democrática tinha lugar para o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e grupo do 11 (o ideal da guerrilha à esquerda). Vamos considerar as duas posições como extremas. A massa, nos sindicatos, queria mesmo era melhorar de vida e dava gosto ver as atividades do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, capaz de editar apostilas e uma revista - Época - de boa qualidade.
Mas o discurso anticomunista tomou força. Diante de uma esquerda mais barulhenta que organizada para a guerra, foi fácil aplicar um golpe, que começa em 31 de março e eclode a 1° de abril de 1964. Golpe que derrubou o governo instituído pela força das armas. Golpe porque fala em democracia mas fecha instituições democráticas, cala opiniões contrárias, institui a tortura e o medo.
Saudade do excelente professor Francisco Magabeira, de Economia. Saudade do clima gostoso de debates que havia na Faculdade. Foi tudo embora, levado de roldão por uma onda repressiva, com instalação de comissões de inquérito em todos o lugares. Balas marcaram a frente do prédio da Faculdade.
As eleições sumiram, o debate acabou, os colegas passaram a ser inimigos. Na minha cabeça, texto de um depoimento na Comissão de Inquérito, presidida pelo Professor Theófilo de Azeredo Santos, depois feito líder do sistema financeiro:
- Não estive na faculdade nos dias 31 e 1° de abril, mas são conhecidos como notórios comunistas fulano, sicrano e beltrano...
Não era mais uma escola, era um palco de lutas, até mesmo corporais. Quiseram bater no Boa, eu acertei o cara depois tomei um soco por cima da orelha, que me deixou zonzo. Foi a briga do 4° andar. O diretor, Helio Gomes, até então seguidor de Jango, virou a casaca e saiu punindo alunos, sem pena.
Já não há mais sindicatos, nem lideranças, nem oposição.
A partir daí, acontece o Caco livre, acontecem as manifestações de rua - uma luta de pigmeu contra gigante. Soldado no combate, tomei muita pancada mas, pelo menos, sabia porque estava lutando.
Ainda me lembro do frio na barriga que a gente sentia antes das passeatas: lembrança boa é esperar na Uruguaiana, braço dado com Norma, para soltar o grito na rua. Diferença crucial: as balas não eram de borracha.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
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