terça-feira, 25 de junho de 2013

Entrevero
Naquela noite, Dona Amelia chorou. Ver o filho machucado, camisa rasgada, não foi nada bonito.
Estudante do Pedro II, repórter de profissão. 
Que tempo? Final de 1963, possivelmente. 
-Vai cobrir essa reunião do Conselho Nacional de Petróleo - ordena o chefe, charuto na mão. 
O repórter segue par av. !3 de maio, ali no centro do Rio. Pauta furada. Não tem reunião. Consegue um telefone, liga:
- Não tem a tal reunião. Será na semana que vem, mas tem um comício aqui na Cinelândia. Quer que eu cubra?
- Está bem. fica por ai. Ordem mastigada, um quê de insatisfação.
Praça. Palanque armado na escadaria do Municipal. Fora governo, fora Santiago Dantas, chamado de "Santiago de Cuba", por causa da comenda dada a Che Guevara. Lacerda, governador do então Estado da Guanabara, era contra o governo federal e mandava na PM.
O comício corria, a PM anda agitada, até que, na escadaria do teatro, do lado da av. Rio Branco, começa uma confusão.
Rápido, o repórter chega até lá. Um homem tenta arrancar uma faixa das mãos de uma senhora.
- Não faz isso com a senhora!
- Faço, sim!
- Não faz não.
O diálogo foi rápido e áspero.
O repórter pega nos pulsos do homem e o empurra. A PM chega, chega batendo.
O homem se identifica como policial, investigador do DOPS, e a carga cai sobre o repórter.
Menino criado solto em Jacarepaguá, o repórter aguenta, não cai, não entende. Cabeça atingida, corpo que dói, chutes. Flashes, fotos.
Conduzido para o carro da polícia, o repórter ouve o discurso do deputado Eurípedes Cardoso de Menezes, do PDC - Partido Democrta Cristão:
-É comunista, senhores, merece apanhar!!!!
Como? Não era comunista. Católico, família alinhada à direita.
Pulsos amarrados com uma cordinha, jogado na caçamba e lá vai para o DOPS- a Delegacia de Ordem Política e Social, repressão política explícita;
- Liga para a redação!
Ligaram. Quando desembarca na rua da Relação, o tira tenta desfazer as marcas da cordinha no pulso do repórter. Depoimento, liberdade, redação e caminho de casa.
Dia seguinte, ânimos serenados, corpo de delito.
O investigador vira um conhecido:
- Você deu sorte. Quando você me empurrou, tentei sacar o revólver, mas enganchou no cinto e a PM chegou batendo. Eu ia atirar.
Hebert Moses, presidente da ABI, manda um telegrama de solidariedade.
De volta à noite anterior: o repórter foi para casa no carro do jornal.

Minha mãe chorou. O repórter era eu.

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