Velhice e rodas
Preso em casa durante a semana toda. Carro na oficina. Não sei se chama carro ou pernas. Ou se já tenho rodas. Querem que eu durma de máscara, que ponha um controlador de batidas cardíacas – um ressuscitador. Nada disso. Só em caso extremo. Não tenho vocação para robô. Já bastam as rodas.
Abro telas da web, procuro desesperadamente um novo carro. Um carro zero?
Depende. Com motor 1.0, é fácil. Com motor 1.6, só mesmo comprando o chamado “semi-novo”. Tudo porque o carro brasileiro é caro e os preços anunciados não passam de falta de vergonha, em relação aos novos: para montar um carro, é preciso gastar bem mais. Propaganda enganosa. Marketing da mentira.
Preso
Mas o abastecimento começa a correr perigo: é preciso ir ao supermercado porque folhas e frutas estão acabando.
Rádio MEC, um piano de fundo, o ruído de todos os motores: computador, refrigerador, ventilador. A casa está viva. Da cozinha, vem o cheiro de comida. Cedo, o aroma do café ocupava todos os espaços. Agora é o cheiro do inseticida. Não há quem possa com os mosquitos.
O calor, mesmo neste início de manhã, inibe qualquer vontade de movimento. Preciso cuidar das plantas, preciso descer as escadas, mas a inércia me segura em frente à tela, com justificativas como é preciso escrever, que tenho que procurar um carro, que chegou um novo e.mail: nada que não possa esperar mais um tempo.
Penso no blog, quero mantê-lo atualizado, preciso saber da edição do Trem de Contos – vagões pesados que vi passar na vida. Nada. Apenas o gesto quase mecânico de escrever.
Ler é a segunda atividade. Felipe traz um livro do americano Bukowski que me faz pensar no ofício de escritor. Instigante. Por que parar de escrever?
No peito, saudade da Praia Seca, da água da lagoa, que tira parte das dores do corpo.
O ofício de artesão fica um pouco de lado Não desisto e o suor corre pelo corpo, para gastar a comida. O tampo da mesa está quase pronto, falta a furadeira que ficou
A dificuldade de locomoção vai me deixando preso. Pouco consigo andar. Passei a depender do carro para tudo. Dirigindo, vou onde é preciso. Sem o carro, tenho dificuldades até mesmo para chegar ao ponto do ônibus.
É a velhice: coração funciona mal, pernas paralisadas e doídas, coluna torta para um e outro lado e um rim que só agora me dá sossego.
Assim mesmo, não me queixo da vida. Tenho prazer no gole de vinho na hora do almoço, alongo o corpo o quanto posso (preciso ir além), gosto de uma boa comida - ninguém é gordo por acaso e acho graça de quem é gordo e diz que não come – de boa música, seja clássica, seja popular de bom gosto. Há prazer nos pequenos fatos de todo o dia e Dil se posiciona de forma a me deixar mais feliz: ela cuida de tudo, da casa, dos pagamentos, dos papéis. Não esquento cabeça com isso. E ainda conversamos bastante, felizmente. Amor não falta.
Esse conjunto de problemas me faz cliente obrigatório dos médicos. A relação com eles é de amor e ódio. Já briguei em hospital porque me mantiveram em hospital e disseram que não tenho nada. Respeito o cardiologista. Como conseqüência, tomo os remédios que ele manda Também fiquei feliz com o fim da pedras no rim. Como tratamento, registre-se a alegria com a RPG, onde a incansável Raquel me faz acreditar na possibilidade de movimentos.
Na direção oposta, fico impressionado quando um médico diz que a pessoa tem que operar a coluna de imediato e outro a manda levantar da cadeira de rodas. Guardo a mágoa dos médicos que, pela direção do tratamento, levaram meu pai à morte. Se gritei? Sim. E o representante do Ministério Público mandou a polícia apurar. Como falta pessoal, o inquérito ficou por isso mesmo e caiu na pasta burocrática do esquecimento.
Enquanto isso, envelheço. Não estou mais no mercado free do jornalismo. Advogar, não quero – faz mal ao coração. A carreira de produtor rural está perdida antes de começar.
Quanto aos filhos, cada um tem sua vida.
Resta encarar a velhice de frente e superar o medo de urinar nas calças, de deixar a comida cair da boca, de ter um corpo estranho, desengonçado, da rejeição das pessoas porque fica difícil qualquer tarefa que signifique deslocamento a pé.
Sobra o super-mercado: apoiado no carrinho, consigo caminhar entre prateleiras e colaboro nas compras. A bengala também ajuda. O remédio melhor ainda é jogar o corpo na água e conversar com Deus para enxergar a beleza do céu, a força da tempestade, enquanto esse verão, cada vez mais quente, queima a pele de todo mundo.
Não, não dá para reclamar: a muda de samambaia chorona está crescendo no quintal e consegui salvar a orquídea do ataque fulminante dos caracóis.
É a velhice, mas a vida não pode parar e, de verdade, o gostar da vida é profissão de todo o dia, apesar das limitações. Quero ser velho sem medo, sem nunca tentar parecer jovem. Há que ser velho com dignidade.
Afinal, o carro sai da oficina ainda hoje: vou recuperar as minhas pernas. Ou seriam rodas?

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