sexta-feira, 26 de março de 2010

Julgamento

Na tv, o Juri popular vira notícia especial. Todo dia tem julgamento, mas é difícil ver um pai pronto para ser condenado pela morte da filha, morte que ele não assume, mas que as provas - difícil falar sobre processo sem lê-lo por completo - parece que são contundentes.
Defenestrada, linha do tempo são termos que vão surgindo na montagem do quebra-cabeças; promotor e advogado debatem na telinha. Nessa altura, a sorte já foi lançada e falta esperar a decisão final.
A Violência, marca da sociedade humana, parece ganhar contornos inexplicáveis neste caso. Violência é o fato de todo dia. É o cara que joga o carro sobre o outro; é o sujeito que usa a busina para infernizar o trânsito; é o viaduto de uma perna só, que obriga a encontros de faixas de rolamento pelas pistas de alta velocidade; é a modificação da Alameda São Boaventura, onde árvores foram destruídas, muito dinheiro foi enterrado e o trânsito passou a ser sinônimo de engarrafamento até altas horas da noite.
Violência é a sujeira que invade a baía de Guanabara: no noticiário de hoje, a imagem dos botos - parece que agora são apenas 40, quando existiam cardumes e cardumes no século passado, nadando na baía. Bom, pelo menos um pequeno grupo ainda resiste, enfrentando a contaminação por elementos tóxicos, muito piores que os inocentes coliformes fecais.
Mas a gente enfrenta o trânsito, atravessa a baía, se arrisca atrás de um estacionamento e termina com o prêmio da peça "Sopros de Vida", no CCBB. Eu, que sempre fujo para roça, que não gosto de cidade, acabo enredado no texto e feliz por ser um dos últimos clientes da livraria da Travessa. Resultado: a Antologia Poética de Vinicius de Moraes voltou à estante, numa doce edição da Companhia de Bolso.
No fim, mesmo sem o chopp no final da noite, apesar da dificuldade com as pernas, sempre vale a pena ver alguma poesia do cotidiano, para fugir desse massacrante noticiário sobre a violência, que toma conta dos nossos dias.
Um copo de vinho? Sim, para encerrar a noite e lembrar como a roça é importante: Como seria o lanche de fim de noite sem os vinhedos, sem os currais de onde sai o leite para que se façam os queijos?
A violência é fato, mas fato também é o homem simples que chega em casa com um rosa e acha um beijo na boca da mulher amada.
Ou será que, tomada de ciúmes, uma nova cena violenta encherá o noticiário do dia seguinte?

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