Há um espaço físico, espaço onde piso meu chão e as muletas me empurram na lentidão gostosa dos meus passos. As pessoas olham, apiedadas, afastam cadeiras. Agradeço, lógico, mas não me sinto tão desconfortável assim. Subo a escadinha estreita, atravesso corredores. Atravesso a areia entre o quiosque e o mar.
Mas há um espaço em que o corpo descansa, apenas a cabeça se locomove e corta chão com muita rapidez. É assim que chego ao Rio Grande do Sul, é assim que relembro os rios da amazônia, é assim que voo entre São Gonçalo e os mares gelados onde navegadores fazem regatas solitárias.
Nesse espaço recorro aos livros e mergulho em aventuras as mais diversas. Revejo os primeiros conquistadores das terras geladas. Participo de conflitos, observo lutas, percebo animais entre folhagens.
Nesse mundo de dimensão descontrolada, a telinha do computador é janela para acabar com a solidão. É janela para comprar a serra tico-tico nova ou para especular o preço dos barcos. Nessa janela encontro a família, os amigos, os debates. Antes do jornal, as notícias estão por aqui, assim como as receitas de pratos gostosos e as orações mais potentes.
Tem mar nessa telinha, tem cachoeira, cavalo bonito. Tem o sorriso de gente que gosto, tem o abraço carinhoso que vem de longe. Tem o rosto das netas e do neto, tem a águia em seu voo infinito.
É nesse mundo, nesse mundo nada concreto, que me aventuro entre códigos para buscar razões entre textos técnicos de Direito. E, é sério, voltando ao trabalho, à dificuldade de traduzir o juridiques para uma língua que entendo, é que estou conseguindo amarrar melhor os caminhos da minha cabeça, que já não divaga tanto entre as trilhas sombrias da tristeza, do desânimo.
E, com mais força, volto ao meu chão concreto para remar, dirigir, andar de bicicleta e, quem sabe, novamente montar um cavalo neste carnaval. Nesse chão concreto ainda quero me sentar na areia - ou no quiosque - para ver o sol se por lá pras bandas do sem-fim e soltar imaginação para viajar nesse mundo onde tempo e distância não existem.
Quem sabe, uma cerveja: ninguém é de ferro e a vida precisa ser vivida com sede. A fome de viver não arrefece. É por isso que ainda continuo aí, andando lento neste chão e voando sem medo para onde a imaginação me levar, para os campos distantes onde o sol se põe.
E que venha a lua, para alegrar a noite nestes tempos de carnaval.

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