sexta-feira, 19 de março de 2010

Lembranças

Compro queijo no mercado e o cheiro de queijo klab me faz lembrar a casa da minha avó - um enorme apartamento ali na Domingos Ferreira, em Copacabana. Como são boas as lembranças de imagens, cheiros, sabores que nos remetem ao passado, como a casa dos avós ali perto do mar.
Era um apartamento com sala de jantar, sala de visitas, um corredor circundando as salas para dar acesso ao banheiro e à cozinha. Cinco dígitos ( Será?) compunham o telefone, preso à parede, ali no corredor.
Havia o piano na sala e um grande rádio - a criançada ficava imaginando como seriam os homenzinhos que moravam dentro do apaarelho - que foi terminar a vida lá em casa, depois de substituído por uma eletrola bem mais moderna.
Tia Yara - eu me lembro dela e de tia Ivette jogando volei na praia - levava os sobrinhos, três e até cinco, para a areia da praia, um quarteirão distante dali.
De noite, da janela do apartamento, a gente via as pessoas saírem do Ryan, depois de verem o filme.
Vovô tinha um Ford 37, conversível, consultório do Edifício Rex, no Centro da cidade. Era um homem enérgico, um vitorioso nessa guerra da vida.
Como me lembro de meu avô na hora da dificuldade!!! De inicio, os pais dele tinham recursos. Com as mudanças econômicas, perderam sítio, perderam tudo. o bisavô Felicíssimo chegou a trabalhar no cais e o filho, o menino Álvaro, começa a trabalhar aos sete anos, numa época em que não havia legislação trabahista: Começava cedo e só muito tarde deixava o trabalho - issso para ajudar no sustento da casa.
Ainda em Petrópolis, vovô passa a trabalhar - tinha uns 18 anos, acredito - como auxiliar de um dentista, para limpar o consultório. A capacidade de observar e fixar, o levou a aprender a profissão. Estudou, fez provas e se transformou num dentista "prático licenciado" , devidamente registrado para o exercício de sua atividade. No Rio, ganhou a vida, formou os filhos e, ao final, ainda foi ajudar na granja em Jacarepaguá. Ainda morou no Lins. Terminou a vida com uma aposentadoria miserável, morando com a filha em Maricá.
Hoje, crianças não trabalham mais. Ninguém pode ter uma profissão a não ser pelos caminhos formais. Os tempos são outros, a guerra é diferente. Fortunas se fazem sem explicação e muitos têm dificuldade para trabalhar e comer.
Quebrado pela artrose, pelo coração estragado, gosto de me lembrar dele nesses dias assim, em que o desânimo ronda minha cabeça.
Se o velho nunca desistiu - meu pai foi pelo mesmo caminho - por que eu iria desistir?
Eles se foram e fica na minha cabeça uma pergunta espírita: como estarão na outra versão da vida? Se duvidar, continuam trabalhando porque trabalhar é como vício: a gente jamais consegue parar.
Seguindo o mesmo exemplo, lá vou eu trabalhar na lagoa, depois de enfrentar o caos burocrático, para ver se a alegria volta ao coração, que anda precisando de festa.

2 comentários:

Emanuel disse...

Adorei essa meu pai!!! Sempre me impressiona ver a maneira bem encaixada, que aparece com tanta naturalidade nas tuas descrições. O bi e o vovô ficaram ótimos, e com certeza ainda estão usufruindo desse vicio maravilhoso, que também eu aprendi contigo.

Bj meu pai.


EL

Vivian Britsch disse...

Achei seu texto porque estava pesquisando no Google algum resquício do queijo Klab. Eu adorava! Quando nova (e vc talvez já estivesse até casado), lembro de minha mãe comprar queijo Klab pra mim numa mercearia na Savassi (BH) que era a única que vendia. Lembro que nem gostava muito no começo e, pouco depois sumiu do mercado.

Muito inspirador seu texto, assim como devem ter sido seus avós e pais. Parabéns!