Saí cedo. Pascoal foi comigo - cavaleiro, paraibano, como eu, nascido em no milênio passado, em 43 e no mês de agosto, companheiro de muitas cavalgadas, adversário na troca de cavalos - um irmão. Compro ração, adubo arame. Sigo pelo asfalto, pedágio - essas coisas corriqueiras. Parada em Tanguá, onde a padaria pequena tem movimento grande, pão gostoso e café quente.
Depois, mais estrada. Minha estradinha de chão batido, poças em consequência da chuva dos últimos dias. Corujinha na cerca. No alto da árvore seca, o grande gavião com jeito de falcão. E tem canarinho da terra voando na frente do carro. Sol, sol bonito de inverno, num céu azul de poucas nuvens.
Carro corta o tempo, logo a gente chega, essa mania de dar milho aos bichos - Corre pato, galinha, peru. E o cavalo pampa encosta na cerca como quem diz: também quero.
O lago não esvazia - o inverno é chuvoso. Capineiras brotam, tem mais um cacho de banana d'água pendurado na varanda. Alamandas com pouca flor, roseiras brancas, vermelhas, pequenas, grandes recepcionam quem chega na porta da horta.
O tourinho Jersey - Cacique, cacique sem boiada - vai ficando bonito, junto com a novilha Querência, os que ficaram depois da venda dos bichos. E lá vai ele, testando cercas da capineira, em busca de melhor alimento. E ela ostenta a enorme barriga, barriga que garantirá o leite para futuros queijos.
Passa Damião, que voltou a beber. Adilson está na oficina, de biscate e diz que deixou de beber. Nem fala do potro que vai amansando, Cascudo está na estrada, controlando as vacas, em busca de pasto.
É a roça. Garça que sobrevoa o lago. Marrecas que não aparecem. Um sabiá que canta longe. Leandro, que fala pouco, está atento a todos os movimentos. E cuida da horta. Olha os cavalos. Recolhe os ovos. Deita as galinhas.
Dirigi na ida e na volta. Confesso que quase dormi - mas foi um pequeno lapso, desses que deixam o filho preocupado. É desse jeito. Fico feliz em cumprir minha tarefa, em sentir que ainda posso tocar - com deficiência, entendo - o pequeno sítio de tantos gastos e poucos lucros.
O que sobra? A satisfação de menino que conserva seu brinquedo mais caro. Não chega a ser um empreendimento. Não consegui chegar ao sistema de produção que gostaria. Então, o sítio produz alegria, encontro, felicidade, churrasco, comida sadia. E algumas rugas de preocupação na face da mulher que divide comigo os pedaços da vida, se bem que ela anda revolta com os pulos do carro no enduros do caminho.
A perna dói, o coração esperneia, o rim grita. E daí? Enquanto o vento soprar forte - forte de quebrar telha - enquanto o granizo não respeitar telhados e deixar a parabólica sem funcionar, vou continuar achando graça dessa vida da roça, onde encontro prazer e poesia na flor da orquídea que desabrocha mais uma vez.
Já de volta, no silêncio dessa casa vazia - só escuto o ventilador do computador - fico rindo sozinho das minhas loucuras e nem parece que no mês que vem, mês de muito vento, mês de cachorro louco, eu fico mais velho novamente. 70 anos. Que posso fazer? Vou comemorar!!! É mais um louco fazendo festa!

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